terça-feira, 27 de dezembro de 2022

sobre as últimas palavras de um autor

"é isso. assim, com um monte de música porreta… quem rouba uma porra de um mp3 hoje com um monte de celular caro? aifonecinco, aifonedéiz aí dando sopa no suor paulistano diário… e eu aqui, carregando currículo, comendo churrasco grego, às vezes ladrão não tem compaixão por um bosta como eu... não é questão de ser diferente ou não, eu só gosto daquela coisinha que eu coloco no bolso menor do bolso maior, ponho um fone e saio ouvindo. meu mp3 se foi, aquele que tinha um monte de função inútil. paraguai-china. celular é um troço meio mala pra mim, foda-se.

no entanto, hoje, o nóia me viu, me buscou de longe, e não teve jeito; moleque bem de vida nunca viu esse olhar que o nóia te intima nas madruga nos terminal; e eu, acho tenho muito a perder se ele me furar ali mesmo, então eu contribuo com o assalto, pois ladrão não perde viagem.

ele viu que eu era um fudido, que tinha 5 reais na carteira.

e pediu a primeira coisa que viu, meu mp3zinho no bolsinho; bateu mó dó, mas dei aquela porra, que, com sorte, foi trocada por uma pedra de crack bem marrenta e ardida que tá até agora revirando na mente do fudido."


O texto acima foi um verdadeiro marco na minha carreira editorial.

Título: meu mundo caiu, roubaram meu mp3”. Fonte: Book Antiqua. Tamanho 12. Espaçamento: 1,5.

Rústico, bem informal. O texto não passou pela revisão, pois isso era uma exigência do alto escalão. Tinha algo de cru nele. Algo que, supostamente, teria uma essência oculta. E, de súbito, os leitores o adoravam; questionavam se aquilo era verdade em uma revista sobre literatura que, ocasionalmente, publicava textos de autores amadores. 

A coisa literalmente bombou...

E perguntavam: quem era o autor?


Eu, a princípio, não entendi o fascínio por aquele tipo de ficção; e questionei ao editor o verdadeiro porquê daquele tipo publicação ao estilo marginal e batido. Uma coisa meio beat revisitada, mastigada: cheia na literatura “de hoje”… 

De imediato, veio a resposta em um e-mail secreto: descobri que o autor era o sobrinho do meu empregador. Parece que a nossa revista estava nessas ultimamente…

O texto, tão idiota a meu ver, pululou os comentários nas redes sociais quando publiquei o post da prévia. E as pessoas, ávidas por notícias e updates em tempo real, pediram e requisitaram uma entrevista com o autor. Ninguém reclamou; até porque a revista estava em evidência nas redes sociais com esse movimento.

Sobrou para mim essa tarefa. Confesso que tinha uma curiosidade mórbida.

 

Não foi muito difícil. Consegui o número do zap dele e, no mesmo dia, o obscuro autor confirmou a entrevista comigo na sua casa à noite, mais especificamente às 22:18 (!). 

Cheguei ao endereço exatamente no horário, parando e cronometrando os segundos. Toquei o interfone no décimo oitavo minuto daquela hora. Subi pelas escadas de um BNH humilde e honesto. O apartamento era modesto e o autor era uma pessoa extremamente simples tanto em aspecto físico como na sua moradia.

Abriu espaço na sala por entre caixas; explicou que tinha umas coisas da outra mudança, etc. Eu realmente não me importei com isso.

Ao sentar no sofá, ele me pergunta:
— Sou um autor famoso agora?

Era difícil de responder. Eu pensei em todo mundo que morreu às mínguas, com um texto bem redigido dentro da sua gaveta empoeirada, e jamais teve o luxo desse tipo de questionamento…

Acomodei-me melhor no sofá e soltei a resposta quase como em um suspiro tímido.

— Não.. na real, acho que se trata só de um fenômeno viral, coisa passageira…

Fiz silêncio. 

Ele olhou para o lado. Algo o distraía. Não sei se era a resposta e sua degustação.

Acrescentei logo em seguida:

— Mas isso é bom hoje em dia. De um jeito que nem eu sei explicar...

Fui sincero. Ele não se abalou com a resposta. Assentiu com a cabeça. Voltou o olhar da estante para mim e emendou:

— Então… aquilo que perguntam direto: foi verdade, me roubaram a porra do mp3, lá no centro, Terminal... drama de trabalhador, de fudido, de gente que não está aí nas briguinhas diárias intelectuais, acadêmicas… lógico, faz um tempão… mas aquele ali sou eu, foi desse jeito mesmo a parada… eu ganho a vida entre um trampo e outro, só gosto de escrever e cozinhar… não sou formado em nada, só vou sobrevivendo… hoje, ganho a vida em um balcão de turismo… se existe a arte, ela deve retratar e imitar a realidade… me falaram que até tem um nome para isso… como é mesmo?
Fez uma pausa para lembrar. Seu rosto era uma estátua confusa por alguns segundos.

— Mimesis!! Isso!

Ficou muito feliz por lembrar do termo. Fez um silêncio longo. Levantou. Disse que pegaria um café. Serviu dois copos e ligou a televisão, falando que era semifinal do campeonato.

E tudo que o autor tinha a dizer foi isso. 

A entrevista, eu saberia depois, acabaria ali com a chegada do café. O São Paulo perdeu do Palmeiras. Depois do jogo me ofereceu mais um café, muito bom por sinal, conversou um pouco sobre como eu ia sair dali do bairro dele; me deu várias instruções de como evitar caminhos sinuosos, etc. Uma atenção estranhamente amigável e acolhedora. 

Não me lembro do seu sorriso ou sequer da sua aparência naquela noite: era alguém de difícil descrição. Só me lembro dele acenando da janela do apartamento quando entrei no carro.

Posso dizer que ao final da entrevista, com aquele aceno de cima do apartamento, o considerei como um possível amigo. Ele me disse adeus, demonstrou uma preocupação…

É humilhante, mas fazia tempo que não me afeiçoava com seres humanos e jamais me preocupava com a questão. Até aquele momento que voltei para casa da entrevista...

Cheguei bem em casa.

De alguma forma, a obra dele fazia mais sentido agora.


No dia seguinte, escrevi uma nota sobre o curioso autor do texto do mp3. Todos se emocionaram com o relato da minha visita, solicitando de imediato que o sobrinho do editor se tornasse um escritor ativo da revista e do site. Um privilégio para um estreante. Se tinha mérito ou não, poucos tinham alcançado aquele patamar na publicação.

Na verdade, eu ainda relutava em aceitar aquele cara simples como um bom escritor. Talvez algum resquício de inveja? Jamais saberei.

Mas eu o admirava como pessoa. Mas não saberia dizer o porquê…

Ele soube da notícia da promoção rapidamente. Mandou-me uma mensagem dizendo:

“valeu pela nota mano/sou famosão agora? kkkk :)”

Eu respondi:

“sem dúvida”

Depois acrescentou outra mensagem:

“então mano, meu tio e eu somos muito afastados. uma relação nadavê”

Ele não disse mais nada depois.

 

No dia seguinte, submeteu à revisão outro texto sobre a nossa conversa que, basicamente, dizia que era mentira o ocorrido do mp3; que o povo não entendia a ficção, e que se esse fosse o interesse dos leitores, não deviam ler mais nada dele ou qualquer outro autor.
Eu li aquilo bem incrédulo. No fundo, torcia para ver mais textos com aquele estilo. Algo estranho percorria em mim sobre aquele cara; de admiração, passei a sentir raiva.
De novo, não sei bem se era raiva ou simples inveja por ele ter alcançado o que tantos escritores queriam… não sei mesmo; acho que me decepcionava comigo mesmo por não ter mais oportunidade de ter um motivo para falar com ele sobre textos e mais cafés. E por ele ter meio que me afrontado pela nota, fato que ele negou veementemente.
nadavê, mano”

Tudo bem. A resposta foi publicada e os autores o leram com certa desconfiança.

Mesmo assim, pediu para seguir com o plano do editorial mensal. Escreveu mais um texto na mesma tarde e o enviou.

Sem rodeios: o segundo texto do autor foi um fracasso retumbante. Era quase uma tentativa de fugir do clichê anterior, mas que recaía nas mesmas armadilhas estilísticas do primeiro. Era confuso, misturava falas de personagens, sem coerência ou coesão… era uma história sobre um admirador de jazz que queria ir para o espaço em uma nave de papelão...

Detonaram geral. Pediram a cabeça dele. O editor concordou. Tudo tranquilo e natural para nós…

De fato, não era nada brilhante. Mal parecia a sua escrita. Nada tinha daquela essência magnética que me conquistara, que me fizera considerar uma amizade em anos.

Uma auto-sabotagem?


O cara simples, que tomava café e esquecia assuntos rapidamente, mal se abalou com as opiniões negativas. Enviou algumas mensagens me agradecendo pelo ocorrido; dizia que iria aposentar o celular.

Eu emendei:

“saudades do mp3? :)”

Ele prontamente respondeu:

“pode ser kkkk. valeu, vc é gente fina; qualquer dia a gente se fala”

Nunca mais nos falamos ou nos vimos. Jamais tive a vontade de ter amigos ou de escrever algo com aquela paixão que ele despertara.

Eu segui com a minha vida e outros textos. Dos outros, claro…


Depois do ocorrido, fiquei sabendo que o jovem escritor viajou para diversos países. Tornou-se pai em alguma aventura nos trópicos, visitava o filho e a mãe em uma regularidade exemplar, e descobriu a paixão por gastronomia e - dizem - que se tornou uma pessoa ilustre e respeitável em algum país exótico por aí. Não com a literatura. Não, não mesmo. A sua habilidade gastronômica garantira um certo prestígio. Esta era a sua narrativa. Passou-se um tempo. 8 anos.

Ele havia desistido da literatura.

(isso me tranquilizava?)

Pode ser...


O “hoje”.

Essa é a história de alguém que conheci na minha profissão. Penso que foi o escritor mais autêntico que conheci na minha longa vida no editorial.

Pouco se sabe sobre essa profissão, ou da dos outros. Sei que, na minha, todos se esforçam para aparentarem as pessoas mais experientes diante dos outros. Em reuniões, nos encontros bobos de cerveja, nas mensagens, no banheiro....

E se todos buscam — e ensinam algum tipo de experiência —, colocarei a minha teoria sobre o ocorrido com o jovem e aquele seu texto aqui nessas páginas secretas.

O povo quer a verdade, gente. Ler esse tipo de coisa.

Deem a verdade aos que a procuram. Não é sobre ficção ou não ficção, gente. Na dose certa, deem a verdade sem um exagero evidente. 

A mentira, essa derradeira, eu não quero na hora que me roubarem o mp3, celular, dinheiro; pois nóia não brinca em serviço quando encara a gente no meio da porra da cidade e no aperto gangrenoso da madrugada…

Só a verdade interessa aos que se importam com o caralho da manutenção da vida. Gritem a verdade! Mimesis!!
O resto é um café de noite assistindo um jogo qualquer… aquelas pequenas trivialidades que nos mantém sãos e salvos das garras do acaso. Um grito no meio da noite. Todos sobrevivendo e pagando os boletos. 

(e esses parágrafos e estilo acima? Maldito escritor dos trópicos…)


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

o cronista

No dia X do mês Y, o cara andou pelas ruas com a máscara costurada, sempre ouvindo as conversas da cidade. Já que há muito tempo não corria pelas estradas — ou andava pelo Centrão — decidiu a volta para casa na pernada.

Para quem gosta de escrever (e não quer se tornar um escritor), aquilo era um grande prazer.

Uma conversa informal no celular vociferada no trem às pressas. Uma imagem aleatória no celular de um transeunte era observada pelo canto do olho. Os casais conversavam alguma coisa sobre os vizinhos nos bancos. Um molecote com tesão mostrava uma putaria no celular para o colega. 

De lado, alheio a tudo isso, estava o cara; aquele que não queria se tornar um escritor, mas que, sem dúvida, buscava um pouco de conforto na voz do outro para escrever.

Em meio à cacofonia do bairro, às pernadas de tênis furado voltando do trabalho, a coisa voltava a fluir na sua cabeça. “A coisa” era a escrita. Histórias sobre adultérios, crimes, filosofia de privada e, claro, o misterioso andar sobre as estrelas que sonhava em terminar; aquilo ali era um conto que o desafiava há anos…

“Devia começar uma guerra (gargalhada)... daí todo mundo acordava”

A voz era de um maluco que andava de carroça juntando papelão na rua. Soltava essa pérola para ele ouvir já que, literalmente, não havia mais ninguém na rua. 

Era coroado por desabafos de pessoas solitárias a vida toda. Desde pessoas mitômanas, depressivas, cleptomaníacas, viciados em cola, mendigos sem direito a rehab; a porra toda o  perseguia.

Era um protesto solitário? Era um cara invisível que viraria um post na internet com uma fonte bacana? O que era o protesto do cara que vivia na rua e sobrevivia de coletar papelão?

Nem ele arriscaria dizer naquela hora. Tantas vezes tentou dar voz, dar uma pincelada e humanizá-los… agora, naquela hora, a escrita só deixava essas figuras falarem. Pensou que era mais oportuno, simplesmente deixar a voz entrar no texto no discurso direto…

Ouvir esses caras já era o bastante na literatura. Humanizá-los?! Era uma interpretação para o leitor. “Deixa tudo para o leitor”, tá ligado? Quem pega o leitor na mão e dá um colinho tem mais é que se fuder.

Outro dia, um maluco o deteve na entrada do trem. O cara voltava do trabalho, cansado, andando com outros como ele. Uma fila enorme no boteco. Todos comiam um salgado de 1,50; alinhado a todos, comendo uma coxinha no balcão, saiu bebendo um café que não dava para ser tomado ali naquele recinto de distintos cavalheiros. Estava atrasado. Enquanto contava as moedas para carregar o bilhete, um pedinte gritou no fundo. “Pedinte”, um mendigo…

Moço! Ae, paga uma passagem pra mim?”

Seria babaquice exigir que pedissem “por favor”. “Na rua, mano, o cara já cansou de pedir isso.” Era o que ele pensava.
Recusou polidamente.
O rosto do maluco não correspondeu; tampouco a voz, que não saiu. Era uma expressão eternizada em um mármore taciturno.

Simplesmente não tinha dinheiro. O foda dessa modernidade é um tempo maluco em que cê tem dinheiro na conta, mas não na porra da carteira…
Foi lá e carregou o bilhete com as moedas; tudo dava certinho para a passagem.
O maluco viu tudo isso, acompanhou a cena com dedicação. E o cara o olhou com legítimo ódio durante todo o processo. Se todos o haviam humilhado até agora, aquele cara tomando café à sua frente era a soma de tudo. Algum babaca pedante com diploma diria que, para o mendigo, ele era “a epítome de todas as suas humilhações”. 

Subiu as escadas, olhando o rosto do pedinte timidamente. Tinha que pegar o trem na outra pista. Quando olhou para baixo, o homem o olhava de um ângulo entre as escadas. Subiu mais um lance de escadas e a mesma coisa: o maluco ali, olhando de baixo, estava jurando-o de morte. Que foda…

Se ódio matasse, estaria durinho com formigas nos olhos agora.

Sem surpresas, olhou do outro lado da pista oposta do trem e constatou: o maluco o olhava, do lado de fora das catracas, fulminando a sua existência com todo o ódio acumulado da rua.

Tomava o seu café, voltava de um emprego para outro. Um copo plástico manchado de café. Daria aula do outro lado da cidade. Amanhã começaria tudo de novo.
Abriu a porta: cheio de gente, todo mundo apertado. Atrasado. No trem, não tem para onde correr. Tá todo mundo fudido, sem exceção, de máscara costurada, não tem essa de home office… A gente encara isso bem rápido e joga uns dados mentalmente.

Naquele momento, pensava nas pessoas dos seus contos... esses mendigos doidos, as mulheres que gritavam no centro com problemas mentais, os trombadinhas, os assaltantes, os moradores da ponte…

Todos o olhavam do outro lado da pista do trem. Todos estavam ali.

Todos o juravam de morte por alguma coisa.

Todos não queriam porra nenhuma dessa sociedade, da humanidade com viés intelectual.

Todos eles, sem exceção, só queriam mirar o olho com raiva e tirar a paz do cara. Esse aí que observava tudo por trás dessa fina cortina de teatro. E escrevia essas porras.

E quando as cortinas caíssem, quando todos voltassem para as ruas, estariam ali pensando em formas de vingança contra todos que o colocaram ali. Mas o favorito seria o cara que escreve. Ele estaria no topo da lista.

Para sempre, em todos os sonhos, todas as noites, o devaneio o colocaria como uma vítima de cada uma dessas pessoas que transformou em história. Mortes horríveis eram encenadas nos sonhos; o medo espreitaria cada minuto daquela existência por entre as ruas em busca de material para escrita. 

Era uma troca, entende? Enquanto ele escrevesse sobre isso, haveria essa equivalência mágica.

Tremendo sobre o trem e tomando a última gota do café frio, o cara que não queria se tornar um escritor aceitou o seu destino. 

O trem parava para mais uma baldeação. Longe, muito longe…  há milhares de quilômetros do seu destino, jogou o copo de café numa lixeira e continuou a andar. 

E ouvia as pessoas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

são paulo soterrada sob os ossos dos meus amores

desdém, derrota e vitória. o caminho dos justos construído sob o atalho dos caídos.

essa cidade… 

o aterro, a varanda, e os olhares para os prédios. o mato da raposo no velho oeste

tudo (tudo isso) entre os ossos dos meus amores

urubus rodeando a estrada

cabeças de vaca incineradas pela molecada rebelde

cachorros abandonados, gente sem lar

nossos irmãos e irmãs, todos jogados pela Raposo

andando pela beira da estrada para não gastar condução.

(poucos sabem como é a vida aqui além dos rios poluídos…)


tudo isso somado aos meus êxitos e derrotas

soterrado sob a poeira intoxicante dos ossos dos meus amores 

ali jaz o homem, o culpado

conformado com o próprio destino, com a própria doença

alguns morreriam pelo enxofre cálcico da minha nostalgia

pela tinta da minha caneta vagabunda

pelos bytes desperdiçados nessas palavras.


(alô?)

se existe alguém aí, venha sentir o cheiro dos ossos

venha comigo

enquanto existir a palavra, haverá vida por aqui.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

#somostodosninguem


O ano finda. O salário chega. A aula começa. O metrô atrasa.

E estamos atrasados, claro…

(chegou uma mensagem agora, caiu a 2ª parcela do décimo terceiro)

Durante todo esse tempo eu gastei a cota do bilhete de forma assídua. Gostaria de dizer que estava lutando pela sobrevivência, que a minha desculpa para me afastar de tudo era o trabalho interminável “ó, como sofremos”. Seria perfeito, irretocável. 

Todos se compadecem com mais um espécime triste rolando uma rocha até o alto da montanha. Eternamente.
Queria dizer que era sobrevivência, mas seria um troço fácil, redundante; afinal, todos aqui no vagão fazem o mesmo. Veja só, leitor@s:
"O cara que pede restos de bolacha.
A menina chinesa que atravessa a cidade para assistir aula no cursinho.
O homem que sempre conta a mesma história, que tem problemas no cabelo, e perdeu o emprego (e tudo) pela má aparência na entrevista. Que precisa de 42 reais para inteirar a passagem de volta.
(tira o boné, todos ficam chocados; eu sempre contribuo, não me importo)
E por fim aquele mano ali. Ele é meu amigo, também é professor..."
Eu o encontrei um dia no vagão, ele não meu viu:
Olha aí, patrão! É o tripé para segurar o seu celular! Era dez, agora é cinco!
O vagão. Lembra do vagão? É o mesmo. O professor, aquele velho colega, não me viu. Desejei sorte.
(secretamente)
Um belo dia todos estavam ali, cantando algum número musical da época do Oscarito, indo à boca do lobo por mais um dia; quando, sem mais nem menos, o vagão parou. Minutos. Horas. Quase um dia.
Ninguém conseguia mais usar o celular, não tinha sinal.
Antes de tudo isso, as pessoas bradavam discursos de união antes da parada. Que eram por todos, que ninguém largaria a mão de ninguém…
Hoje, somos todos ninguém.
Não há profecias, apenas a desesperança. Todos trancados, esperando morrer um dia dentro de um vagão. Comer o outro, canibalizar o próximo, animalizar o outro, não compactuar com solidariedade. Ódio, luxúria e dados móveis.
Quem sair do vagão por último é o vencedor.
Claro que não fui eu. Seria diferente?
Eu morri ali. Naquele dia. A caminho. Mas também comi, dilacerei carne de inocente; bradei aos demônios que sairia dali com a cabeça erguida. Não consegui.
Acontece.
Ninguém é por ninguém?
Será? Será mesmo!?
O fedor que exala de morte nesse subterrâneo jamais chegará a superfície. O vencedor, aquele que comeu a carne de todos, também padeceu ali. Éramos ninguém.
Agora somos um só. Na morte, na lida diária, dilacerados e pútridos em um vagão.
Éramos trabalhadores, estudantes, ambulantes, docentes, aposentados, desempregados... Éramos ninguém.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

eu pertenço à geração em branco


Contos de fada, contos e fados, trair as palavras, atrair os outros para armadilhas e ilusões exclusivas/métodos nada convencionais de confissões, seja um, seja mais, seja o que os outros querem ver/esperam de você, escreve e se expressa como se a escrita fosse o seu jeito de se isentar, volta e meia tudo fica esclarecido e as palavras não são o seu grito; sua "forma de expressão" (tsc, tsc): é um esperneio reprimido de criança incompreendida que nunca apanhou na rua, nunca teve a coragem de dizer que ama alguém ou se sacrificou de fato para o iminente desastre. Palavras, palavras são isso, não ‘aquilo’; porra, elas são o grito (!), a chama, não um lamento insignificante de quem não se arrisca por nada.

Palavras são______


segunda-feira, 29 de maio de 2017

a metalúrgica


enquanto mamãe não volta para casa, eu e meu irmão começamos uma nova partida de dominó. queríamos aquele jogo grande da loja da cidade, cheio de peças e personagens, mas mamãe nos disse que aquele ali era muito caro, e que dependeria de nossas notas na escola. minhas e dele. lucas fez a sua parte.

eu não. e olha que mamãe nos disse logo no início de ano... não melhorei.

tá ficando frio de noite. guardo as peças do dominó. pegamos um cobertor lá no armário. o mais quentinho. luke arranha a porta, quer entrar. eu fico com dó e olho pro lucas. ele balança a cabeça, faz que ‘não’. fala que a mamãe ficaria brava. é verdade. luke fica com as patas cheias de terra. vive cavando coisas, enterrando ossos… luke chora de frio, faz aquele barulhinho com o nariz. tão bonitinho…

mas se ele sofre, se ele chora com aquele barulhinho... como posso achar bonito? um cão chorando!!

mamãe demora cada vez mais. pegamos no sono. luke para de ganir, de implorar. melhor assim. melhor para todos nós.

mamãe demora às vezes, e eu não me assusto com isso; mas, lucas… ele fica com os olhos abertos às vezes: dorme um pouco, acorda, apaga de novo, semicerra as pálpebras, etc. os olhos dele na madrugada são como um par de bolas de gude marrons. brilham.

é de manhã. mamãe não voltou. sabemos que não voltará mais hoje. não é a primeira vez. eu levo o lucas para a escola dele. dou um beijo na testa dele, arrumo o seu bonezinho vermelho do prézinho. falo para ele respeitar a professora. vou para a minha escola, do outro lado de tudo. pego o ônibus. fico pensando na mamãe durante o caminho todo.
duas horas depois a orientadora entra na sala. fala que tenho uma ligação. eu estava na aula de artes cortando papel crepom roxo.
‘é a minha mãe, tia!?”
ela me diz sorrindo.
‘sim’.
quase a beijo no rosto de tanta felicidade!
pego no telefone com pressa. falo ‘alô’. e quando ouço a voz dela, não seguro o choro.
digo que fiquei preocupado. começo a espernear. a orientadora sai da sala. vai chamar a diretora, certeza. ela é nova aqui.
mamãe me interrompe:
‘lipe, cuida do lucas. escuta aqui: a mamãe vai embora.’
(silêncio)
‘deixa o luke ficar com vocês em casa, quentinho… agora vocês podem fazer tudo que a mamãe não deixava, tá?!’
eu não consigo dizer mais nada.
‘lipe, escuta… mamãe não volta mais. nunca mais. independente do que te disserem, mamãe amou muito vocês, tá?!”
eu começo a chorar.
‘me diz, lipe! me diz!”
eu choro, desabo. sabia que ela não estava brincando.
‘eu também, mãe!’
‘filho, cuida do lu, tá? acredita em mim, tá?!’
Ela chora do outro lado.
‘tá.’
Silêncio. A ligação dura um século. Ouço um barulho de longe na ligação, como se fosse um apito de fábrica. Longo. Grave. Dura uns cinco segundos.
Ela desliga.

era verdade. a mais contundente.
mamãe não voltara à época ou agora. ela nunca mentira. não sei se era uma qualidade.
até hoje eu penso nisso. não na nossa derradeira despedida, mas naquele apito que disparava de longe; a ligação em segundos, aquele barulho, eu, desesperado na diretoria, depois o desespero no orfanato, na fundação…a ligação e aquele apito lá longe.
eu não odeio mamãe pelo que fez.
naquela mesma noite nos separaram de luke, de tudo… lucas ficou numa outra casa depois, eu também. não passamos mais noites quentes. fiquei sabendo que levaram o luke em um carro e o soltaram no meio do mato. bem longe.
um apito toca lá longe. e me chama, agora, enquanto escrevo.
e eu não sei o porquê de não ter raiva de nada. eu simplesmente não consigo.
ter raiva e ser triste… será que essa seria a combinação perfeita? o que esperavam de mim?
eu vim parar aqui por esse apito. o som me guiou até aqui. na minha terceira fuga da fundação, eu andava pelas ruas e escutei um apito de longe. decidi ficar aqui a qualquer custo. desde então, já me disseram tantas coisas. coisas que sei...
é claro que eu procuro mamãe em todas as mulheres, é claro.
é claro que eu espero algo. viver, escrever, mastigar, andar…
é claro que eu desejo que luke não tenha mais frio. às vezes choro pensando no barulhinho que ele fazia de noite, de pena…
é claro que eu nunca deixei de ser aquela criança. nunca. mamãe só esquecera disso, desse detalhe na época. ela fez uma decisão. não sei mais o que dizer. já disse tanta coisa para todas as pessoas que me perguntaram…
luke se foi no mato.
lucas, pelo que me disseram, está na Alemanha com a nova família. faz tempo. deve estar grande, bonito e forte.
tocou o apito de novo. descobri há umas duas semanas: é o apito do início do turno de uma grande metalúrgica da região; aqui, todo mundo trabalha nesse lugar. depois de dois minutos, o apito faz o seu último aviso. ela faz isso duas vezes de manhã, duas vezes à noite.
mamãe não está aqui. já procurei.
se o que me move é a espera (e não a raiva), o que há de especial nesse lugar?
por que fico aqui?!
(...)
juro, é o mesmo apito! eu sei disso. o mesmo lugar. o apito da manhã. era manhã (eu lembro), eu segurava uma tesoura sem ponta e um papel crepom roxo. lembro disso. lembro do caminho até a secretaria. o apito. grave. o fim da ligação.
cinco segundos. certinhos. cravados. cronometrados.
o som. grave. distante.
só não sei se era o primeiro ou o segundo apito de manhã… às vezes penso que era noite nos sonhos, que luke arranha as suas patas na porta e eu abro…
...quando eu penso nisso, nessas coisas, o dia já é outro. e eu tenho mais quatro apitos para ouvir no dia seguinte. sempre. para sempre.
é o meu turno.

segunda-feira, 6 de março de 2017

10 años no es nada

"Porra, ninguém lê essa merda mesmo... Precisamos de um cara do marketing, mano. Te falei, fazer site, promover festa, página oficial de Facebook, essas coisas...".

E foi o que eu tive. Bom, a minha equipe sugeriu... O cara chegou com um café do Starbucks, e numa sentada mudou tudo: blog com nome novo, novas pautas, networking... Sasporra.
Escrevi uma merda qualquer. Pagamos uma bela de uma fortuna, retiramos a grana do fundo dos investimentos. Fazer o quê?
No dia seguinte ele me chamou. De novo, tava lá tomando o seu Starbucks com nome escrito à caneta no copo:

"Vamos ver o seu último post. (3 segundos) Nossa, olha aí as visualizações! Caceta!".
Em vez da tradicional mensagem de "nenhuma visualização" tava marcando 5 visualizações e 5 comentários. Bem, se era patético ou não, nunca tinha acontecido.
"Se sente melhor?".

"Sei lá...".

Ele me explicou:
"Bom, vamos lá... não fica puto não, mas é tudo perfil fake. Eu que fiz. Belmont, não é da noite pro dia que um autor blá-blá-blá, etc".

Falou e balbuciou um monte de coisas. A equipe tava lá, toda "cordeirinho", toda preocupadinha comigo. Depois depositaram uma bela grana na minha conta para compensar o meu fracasso na literatura que eles investiram tanto; e ainda me deram uma viagem com tudo pago para Cancún!
Falaram muita coisa. Todas elas nada importantes... A verdade é que eu caguei para tudo; às vezes bate um vazio, às vezes eu não tenho vontade de escrever nada aqui ou acolá...

Sei que tenho amigos e amigas que me acompanham nisso aqui, lendo essas paradas, e isso é muito importante nas andanças pelo vale. Foi uma puta descoberta. Nada está muito perdido, muitos jamais tiveram o que eu tive; muitos tombaram com a papelada escrita e guardada para sempre numa casa que se incendiou. Eu não. Nada disso.
Nada nunca me desanimou na verdade; "like, dislike, compartilha!", nada. Nessa parada de escrever eu sempre enxerguei uma ponta de "algo". Sempre. Até mesmo quando não estava com um pedaço de papel, na missão, eu via "algo" se alimentando; e ali estava o propósito da coisa toda. Dessa "coisa" de escrever.

Se você leu alguma coisa aqui; se você não leu nada; se você leu um texto só e gostou, se você leu tudo e não gostou de nada ou se, até mesmo, você leu tudo e gostou de geral (o que é um pouco improvável...), isso aí é o que foi foda no processo todo. Como eu disse, muitos tombaram nesse lance de escrever, e eu permaneci só por insistência... Nada muito nobre ou metafísico.

Tudo isso serviu para suprir ou alimentar alguma "coisa" durante mais de uma década. Essa é a parada. "Não adianta pregar pra convertido", ouvi de um amigo que também não lê as minhas paradas. Tem que colocar a viola no saco e andar pelo Centrão, e tocar para gente apática e desconhecida; no meio da multidão tem alguém querendo ouvir uma moda nova. E os seus companheiros e companheiras, seus trutas, andam aonde a viola chora contigo. Sempre tem gente.
E se o fim disso aqui tá chegando ou não, tampouco me importou. Se é para acabar, vamos dar o último gole e sair atirando primeiro como o Butch Cassidy, como o Takeshi Kitano em "Brother"...

Se os porcos nos cercam, a gente revida. Sempre foi assim. Fora-da-lei para sempre.

E quer saber mais?!
10 anos não é nada. Manda mais nessa porra. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

a torre (ou 'a casa de deus')


Eu sou o raio. Eu sou a causa.
Entre tantas escórias e falsos deuses, eu sou aquele desprovido de virtudes. Eu era um assassino, um bandoleiro; um filisteu conjurado com os propósitos mais nobres... mas, por alguma razão oculta, tornei-me aquele que ascendeu à vontade interplanetária das entidades tetraplégicas adormecidas do Mar Báltico; fui abençoado e renascido no solo dos rituais pagãos e primitivos de tribos dizimadas.
Um pedido sublime, sem dúvida.
Dessa vontade, e do sangue derramado, adquiri o sopro da vida em meu novo ‘fado’, sim, pois não há fardo nessa herança: fui coroado com esse dom. Erguei aos céus e caia por minha vontade, pois não há “a casa” tampouco “deuses”: os que aguardaram ali, nas filas dos holocaustos originais, caminharão sob os corpos fustigados da fúria dos elementos por entre crânios esmagados, sonetos desperdiçados e chacinas indecoráveis.
Afinal, o fim estava próximo mesmo. Sem metafísica. No fim, no aguardado momento da revelação,  não havia segredo, apenas constatações.
Tijolos moídos, restos mortais e enxofre. Pavimentos da estrada à frente.
O raio é incerto. A fúria, definitiva...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

quando o circo passou na vila

quando o circo chegou, foi um evento daqueles... um acontecimento tão singular, que só eu me recordo do ocorrido. de todas as pessoas que compartilharam as minhas vivências e espaços, de todos os residentes que me viram subindo a rua de casa para comprar pão todos os dias, ou em busca de revistas perdidas e quadrinhos em lixeiras nos bairros ricos; parece que só eu vi o circo passar na minha vila. acrobacias, palhaços altos e esguios, malabaristas jogando pinos na altura dos prédios da rua da feira. era um sábado. nossos pais estavam de folga e todos pareciam felizes, de mãos dadas com quem amamos um dia. algodão-doce rosa. eu, tão medroso, aguardava a minha vez na fila para pular na cama elástica. quando chegou a hora, eu estava lá, todo amedrontado, não conseguindo brincar ou pular no aparelho, agarrando-me às tiras elásticas do aparelho em uma posição semifetal, mijado; chorei pelo meu medo de estar ali, no centro dos acontecimentos. naquela rua cheia de gente e palhaços sádicos apontando o dedo para mim. delírios em dias febris. sou eu, aquela criança. para sempre. um prato cheio para os psiquiatras, conversas de cantos e prescrições experimentais. e todos, todos vocês estavam lá! rindo de mim na minha vez; o mais estranho, mesmo, era isso: o rosto de todos espectadores... sim, eu me recordo perfeitamente; vocês, isso mesmo, todos vocês estavam lá! testemunhando, e roubando para sempre, aquele momento insólito e íntimo de abdução involuntária da minha infância.  

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

no meio do palco da escola

“Um cachorro solitário faminto por um sonho, uivando para o céu escuro e as estrelas.”
Era o que dizia a canção dos Blue Hearts em japonês, essa que chegou tímida e inesperada pelos fones baratos; aquela que foi cuidadosamente escolhida em diversas buscas, cookies e cache. Todas as procuras, todas as palavras, todo o meu histórico do Google, todos os meus gostos culminaram nesse momento, nesse texto; e eu não tenho vergonha de nada, podem me denunciar, vazem essa porra no Wikileaks, essas minhas putarias e perversões, pois não devo nada a ninguém.
Realmente não me importo.  
Vamos lá, deixa eu explicar… Eu ouço um som, e essas palavras pedem uma permissão nesse ritual, tocam o meu braço e imploram por uma vez no mundo. É uma possessão consentida. Meu histórico é a minha vida. É o meio. A putaria, a Belladonna, a Jeanna Fine, as idiossincrasias sintomáticas, e as buscas por doo wop e punk rock… tudo isso é o meu legado. De tudo isso nasce uma história, um pensamento. E quando faço essas coisas, de escrever, de postar uma porra de um pensamento, o pior insulto que recebo é ser chamado de “inteligente”: não o sou, considero-me o mais tosco e torpe da turma do fundão; dou risada de coisas ridículas e jamais me deixam dizer o que quero, pois posso envergonhar a todos. As pessoas sempre me interromperam quando começo um pensamento mais ou menos coeso, e acho que isso foi a maior sorte que tive na vida. Conheço gente intelectual, inteligente, real, e estou longe disso; tampouco anseio esse status.
O que eu quero atingir com esses textos é aquele olhar silencioso, o menear da cabeça simbólico dizendo “podicrê”...
Sou burro, caralho! Às vezes não entendo tramas simples, enredos, contas e operações básicas, confundo a gramática, demoro algumas horas para compreender as regras de um jogo… Tem dias que me pego em questionamentos e me esqueço de quem sou: leva um tempo para voltar e relembrar a minha trajetória. Acho que, no fundo, estou condenado àquelas histórias de boteco bem triviais:
“Lembra dele? Então…”
(suspiro)
O cachorro uiva lá fora.
A canção, um dia, acaba.
Essas coisas aqui nessas linhas não são complexas; na verdade, elas buscam só a confusão, o embaralhamento. Não há nada definido no meu discurso. É tudo um grande embuste zen-surrealista à lá Dadá.
E há os que tomam essa confissão, esses textos de ficção, como verdades absolutas. Mal sabem que sou guiado por cartas de Tarot e pela aleatoriedade das regras de um roguelike, e, raramente, falo alguma verdade nessas palavras. Mal sei como terminarei o meu dia ou qualquer coisa.
Tudo isso posto desse jeito, cá estou, agora, com uma luz na cara, no meio do palco da escola, após o hino nacional ter sido tocado numa vitrola no pátio com os militares devidamente louvados em coro de crianças em uníssono. E eu sinto uma fúria imensa, pois as palavras sempre me deixam puto quando saem assim no papel. Tenho que ser contido, começo a gritar! Quero quebrar a vitrola. Estou ali, no meio do palco. O cachorro uiva para ser ouvido:
- E essas palavras aqui, esses textos…
(todos os personagens o seguram)
- Deixa eu dizer, mano, não me segura não, porra! Me larga, caralho…
(ele respira fundo)
- Isso aqui, esses textos, essas coisas, esse blog...
(resfolegando)
- ...é somente eu batendo o ponto e dizendo “tamos aqui”, é um uivo, um grito na madrugada que nem todo mundo escuta... morô?! E tá ótimo assim!
(todos o contemplam silenciosamente)
E eu brigo, bato os braços, agito a noite inteira sozinho no pogo para uma banda punk sem fãs. Depois, quando me canso, eles me deixam num canto, e sabem que eu ficarei bem, só preciso de um tempo, de um cigarro, de uma canção, de uma busca…
… depois a galera me paga um X-Tudo lá na Vital e eu vou lá pro ponto esperar o meu ônibus. Esse é o meu momento de reflexão profunda.
Chego em casa. Mal é dia, é noite, sei lá que horas são… nem tá passando Teletubbies ou VR Trooper...
E nesse momento, lá fora, aqui nas ruas do Velho Oeste, um cachorro aprisionado em uma casa de mármore uiva dolorosamente todas as noites. Isso não é literatura, isso é um fato: esse cachorro existe. É a única verdade nesse texto, esse cachorro… Ele, todas as noites, é acompanhado por todos os vira-latas da quebrada, e eu, às vezes, (acho…), sou um deles. Não existe tristeza, nem alegria: somente esse momento do uivo, do texto.
No fim, somos todos como aquele prisioneiro que toca um Blues na gaita; o personagem figurante na Malhação fingindo que tá conversando; ou o fundo de uma pintura. O cachorro que uiva para a lua…

“Tamos aqui”... não se esqueçam.