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terça-feira, 24 de novembro de 2015

todo mundo já viveu um romance adolescente patético

Nos encontramos no meio do caminho da escola.
Ela voltava. Eu ia.
Parei, tomei um susto. Aquela cara de idiota que não sabe o que fazer quando encontra uma garota. Ela sorriu. Estava linda. E eu me confundi na hora de dar os beijinhos no rosto. Tinha uma maldita época (ou melhor: amaldiçoada época) que o pessoal não se decidia se dava um beijo no rosto, dois, ou – pior – três..
Caralho...
Eu, claro, fui dar um. Mas senti uma bochecha virando. Dei mais um. Depois outro.
Tudo aquilo tinha que acabar logo.
Eu não sabia o que fazer naquele momento. Gostaria tanto de levá-la na Pôr do Sol, cabular aula ou fugir para algum lugar… mas eu não saberia fazer, desenvolver a narrativa, ou elaborar uma fala para convencê-la a fazer algo que se passa na minha mente. Minha retórica era péssima. Era triste ser jovem, adolescente, feio, idiota, com uma pá de espinhas na cara… amaldiçoada época.
Não tenho saudade. Nenhuma. As pessoas bonitas jamais entenderão o drama dos mais feios.
(e vice-versa… mais versa do que vice)
Foi um encontro casual. Seria mais prazeroso depois que ela fosse embora. Eu respiraria, deixaria o horror (e a timidez) darem suas últimas convulsões e meu corpo permaneceria estável por alguns minutos... E foi. Ela me cumprimentou, perguntou da minha mãe, do meu irmão, sorriu e disse “tchau”. Aquele papo furado. “Será que vai chover?”. Coisa rápida. Eu fiz o mesmo. Depois de uns passos, olhei para trás e vi aquela bundinha redondinha num shortinho jeans se afastando.
Claro, ela não olhou para trás.
A escola era longe, mas o tempo passava rápido na minha cabeça. Eu ficava pensando em monte de coisas. Tinha muita putaria, claro. Tinha muita história. Tinha muita coisa de desenho. De quadrinhos. De videogame. O tempo passava. Chegava na pracinha, perto do colégio público. Tinha uma espécie de mosquinha planando no ar por esses lados, imóvel, que eu chamava de ‘helicóptero”.
Sempre tentava dar um tapa para acertar o bicho (!), mas sempre errava.
Tinha dobradinha de Biologia e Matemática naquela sexta. Professores filhos da puta, que mente doentia! Numa sexta-feira... uma dobradinha doentia dessas?! Uma eternidade. Eu fiquei rabiscando o Bob Cuspe na última página do caderno e olhando pro cabelo encaracolado da menina na carteira da frente. Ela era bonita também, nunca trocamos uma palavra sequer; a não ser a vez quando ela me pediu uma borracha emprestada na prova de Geografia. Eu terminei a prova antes e saí da sala para beber água. Levanto a mão.
“Pissora, pos-…”
“Pode…!”
Quando voltei, a borracha estava lá. Na minha carteira, do lado do estojo de pano. Não houve “por favor” ou um “brigado”. Tudo bem, eu faria o mesmo.
Eu tinha o olhar parado em um desenho na carteira enquanto pensava nisso. Estava escrito ‘Metal Punk Death’; e um desenho de um carinha cabeludo de jaqueta jeans batendo a cabeça e erguendo os punhos para cima. Da hora, queria desenhar assim.
Toca o sinal para a segunda dobradinha. Intervalo. Tomo água da torneira. Água fria, gostosa. Molho o cabelo. Os playboys compram coxinha e refrigerantes com o dinheiro da mesada. Eu almocei antes de ir para a escola para a fome não bater à tarde. Sorriem para caralho não sei do quê. Eu fico lá, com um ódio do caralho no coração fitando aqueles putos tomando refri e comendo salgadinhos. Depois, um ano mais tarde, roubaria uns chocolates no supermercado por pura rebeldia e inconsequência. Não era fome, era necessidade de destaque.
3:15 da tarde. Pensei nela, naquele encontro de merda à tarde, nos três beijinhos patéticos...
Voltei para a classe. Tinha gente que trazia lanche de casa. Eu entendia. Sempre tinha uma menina crente, com um cabelo enorme e saia comprida, que sorria quando eu a encontrava na sala comendo um fandangos. Até era bonita, mas não gostava de se misturar. Ela me olhava, sorria e voltava a comer. Bem despreocupada. O inferno das relações é a necessidade da comunicação: esses encontros inesperados em que o terror grita na sua cabeça e você só quer ir embora. Essa menina, a crente, entendia disso e eu tinha uma simpatia enorme por ela: ela se sentia invadida e eu também. A maior parte do tempo queremos ficar sós, com o narrador em off, naquela putaria e bagunça de abstração que parece a sala de casa com as roupas sujas.
Sento na carteira toda rabiscada. O desenho do carinha de jaqueta continua lá. Sorrio.
Escrevi o nome dela no caderno. Da menina do encontro de merda daquela tarde na ladeira.
Última página do caderno de 8 matérias. Gigante. Pouca coisa escrita. Um monte de desenhos. Umas fórmulas que não entendia. Uns gráficos tortos sem régua. “Bárbara”. Um Bárbara escrito em estilo de pichação anos 90 no meio de um monte de Bob Cuspe, Eskrotinhos e Batmans canhestros. Era uma coisa bonita no meio de um monte de rabiscos. Eu queria saber desenhar (ah, como eu queria), mas aquele nome no meu caderno foi a coisa mais bela que as minhas mãos garatujaram naquela tarde. Longa.
Bateu o sinal e eu voltei para casa. Sozinho. Tinha os trutas que pegavam o mesmo caminho, mas saí na frente para ir pensando nela. Gosto de ficar sozinho. Ninguém entende isso. Se a gente ficasse falando no caminho sobre os cartuchos que pegaríamos na promoção da locadora não haveria paz. Amanhã é sábado, dia de alugar fita de Mega e ficar com ela até segunda. Eu escolheria um Kid Chameleon pela décima vez. Que jogo foda.
A vida seguiria o seu curso de qualquer forma.
Noite. Passa um filme de putaria nacional. Na chamada, como era de costume, os caras já colocaram todas as cenas de sexo, e tem a Adele Fátima. A Adele! Não perco isso. Nenhum muleque perde essas coisas.
Penso na garota do encontro de merda enquanto gozo assistindo à cena da Adele. Naquela blusinha branca dela e o shortinho jeans à distância. A pequena morte, precoce, invade o corpo. Não preciso de papel higiênico. Não preciso de nada.
Ela, essa garota, a Bárbara, era uma amiga da família. A minha mãe conhecia a mãe dela. Amiga de igreja, amizade estéril e insignificante. Essas coisas. Ela é mais velha. Uns dois anos. Tá no 3º ano. Deve ter alguém no telefone para falar à noite.
Eu não tenho telefone, sempre invejei quem tinha.
À noite o quarto/sala tem uma penumbra. A luz da cozinha fica acesa a noite inteira para afastar os ladrões. Queria dormir no escurão, mas a minha mãe tem medo dos invasores. Eles nunca vieram. O teto cheio de rachaduras, umas manchas escuras e marrons. Um fio de luz deixa as manchas mais escuras ainda, formando padrões abstratos. A cortina da sala tem uns desenhos de folhas; e com a pouca luz vinda da cozinha, consigo formar um rosto, dez, cem olhos me fitando na cama pelo tecido. Ouço um cachorro latindo na madrugada. Um gato mia bem curtinho. Um cara dando uma risada muito alta. Uma garrafa quebrando. Um carro passando com um som bem alto tocando sertanejo. Uns passos pesados pelo quintal dos moradores da casa do fundo. Talvez seja o marido que trabalha de segurança e volta tarde. Uma gata no cio, ensandecida, no telhado do vizinho. Demoro para dormir.
“Bárbara”.
Um som que sai da boca de um jeito esquisito na noite.
Adormeço.Tenho um sonho. O mesmo.
Sonho que estou voltando da escola. Quando viro a esquina, dou de cara com a minha casa pegando fogo. Todos no bairro admiram o espetáculo. Uma enorme fumaça preta eleva-se às nuvens, toma as alturas, indo em direção ao enorme buraco negro que se abre no céu...

sábado, 27 de março de 2010

o verão se foi

O verão se foi.
Guardamos nossas pranchas, bermudas e pipas. Hora de correr pelas ruas com cata-ventos, pular os bancos e brincar de Jedi com os galhos que caem das árvores na Praça Pôr-do-Sol. Não há mais sol, querida; não há mais o teu reflexo ou seus cachinhos de criança pela janela olhando a gente voltar da praia com os chinelos nas mãos.
Essa molecada suja, pobre com suas pranchas de isopor de supermercado que voltam domingo à noite num ônibus capenga com os amigos.
Na casa, os pais preocupados. Outros nem tanto.
Uma vez quase morri naquelas águas, nesse fim de verão.
Imaginei a morte embaixo das águas e o que eu não veria mais.
Meu papagaio velho preso no poleiro, na minha mãe-pai-irmão e bonequinhos de plástico.
O verão, Belmont.
O verão de 64, 77, 84, 00, 07 e os que virão.
Entra, lembrança! Tem um copo de cerveja com espuminha te esperando!
Uma lembrança de mãos dadas, de casal que anda de mãos dadas pela praia na chuva, um filme velho gravado numa fita cassette, um olhar para o mundo dentro da roda-gigante...
O homem de verdade atravessa tudo isso aguardando a solidão sem medo, que nem o moleque cruza os olhos para aquela janela e nunca mais vê aquela garota.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

marina japonesa


Era conhecida como Marina Japonesa.
Ficou amiga da minha mãe através de uma vizinha nossa que era uma evangélica-prostituta-fervorosa; não sei bem ao certo como se deu essa amizade estranha ou quais foram as afinidades: o fato é que a estranha Marina Japonesa começou a freqüentar a nossa casa num dado período nebuloso da minha infância.
Creio que ela devia ter uns dez anos a mais do que eu, mas aparentava mais; e se a gente para pra pensar nisso, é justo com algumas pessoas que isso aconteça, pois a vida (para uns) é medida naquelas balanças antigas e enferrujadas de quitanda que roubam peso de tiazinha que não enxerga bem.
Envelheceu mais rápido; e “idade não é crime” como já dizia o velho safado.
Vivia numa casa enorme que destoava das nossas casas fudidas da Rua da Feira onde tudo lá era muito cinza, com seus quintais de chão rachado, muros com cacos de vidro e (vez ou outra) uma palmeira/coqueiro tremulando a enfeitar de uma forma dúbia o cenário da nossa rua.
Marina era japonesa de verdade, formada em arquitetura e o pouco que se sabe dos seus pais é que todos morreram um a um na sua casa enorme em meio aos anos que a envelheciam com aquela balança trapaceira.Seu irmão mais velho se foi mais ou menos na época em que a conhecemos: conta-se que o pobre diabo morreu dentro da enorme casa e Marina ficou tão abalada com a perda do seu único companheiro que só depois de dez dias da sua morte teve coragem de chamar ajuda, saiu carregando o corpo do irmão em decomposição nos seus braços pelo chão de sua casa.O chão começava a rachar na sua casa...
Ela gritou ajuda para nunca mais.
Ninguém nunca soube como era a sua casa por dentro.Os meninos na rua faziam apostas para ver quem ia entrar lá e gradualmente a pobre Marina que não fazia mal algum se tornou a Bruxa do nosso pobre folclore para os moleques da rua...
Ao passar dos anos, os cachorros foram os seus únicos amigos naquele palácio da decepção e ao tocar a campainha de sua casa, os latidos eram o único som daquele lugar, via-se que ela sorria desse jeito com aqueles amigos sujos com suas línguas para fora e rabinhos balançando; conviviam bem e isso era o que importava para ela.
Vizinhos não gostavam do barulho e dizem lá no Velho Mundo que se você quiser enlouquecer, o homem vai dar um jeito de te ajudar nessa tarefa: começaram a envenenar os pobres amigos da Marina, jogar ácido nos bichos na hora da feira...
Eu não sei porque penso em Marina às vezes nessas horas, aquele lugar tinha tanta figura que me faz pensar na vida.Sei que sentia raiva dos filhos da puta que faziam isso com ela e os cachorros; outros têm em sua infância modelos para se inspirar, eu, eu tinha pessoas como Marina: essas que inquietavam e me davam gosto por algo.
Ela freqüentava a minha casa e ouvia a minha mãe: basicamente a japonesa só dava uma risada aguda e muito estranha quando a minha mãe falava qualquer coisa.
Quando as duas não podiam se falar, Marina deixava uns bilhetes dizendo que tinha sido seqüestrada ou que ladrões estavam fazendo algum tipo de chantagem sombria com ela.Ao sair da escola eu achava esses bilhetes de manhã e sempre lia primeiro; o engraçado é que eu não achava aquilo coisa de gente louca, eu achava que algo mais acontecia no mundo e era apenas bom saber disso.
Saímos da Vila e pouco a pouco não se tinha mais o pastel de Feira naquela rua, nem os cachorros lindos e maltratados de Marina ou a cara dela de timidez quando me via.
Eu acho que penso nela porque quando era pequeno cheguei em casa e tinha um embrulho enorme com um cartão: era um fichário, folhas de caderno e um cartão.
Jamais esqueço a carta super bem redigida e com letras enormes.
Eu vivia enchendo o saco da minha mãe para ganhar um fichário e a louca e amável da Marina Japonesa foi a única a me dar: eu gostava do sorriso dela de timidez quando me via.
Se ela me amou de alguma forma, acho que foi correspondida agora e para sempre por mim...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

minha herança é uma esquina e balas de menta

"It's so easy to laugh
It's so easy to hate
It takes strength to be gentle and kind
It's over, over, over
"
-the smiths-"i know it´s over




Parado na calçada com um cigarro na boca.
Eis ali o dono da padaria com o seu intervalo de fumante constante; deve ser bom fumar, as pessoas encaram isso como um dever e se o patrão fuma também, ele entende que a gente pode e deve fumar.Acho.
Então o dono da padaria fuma com aquela cara afetada, como se tudo fosse um martírio estampado no rosto e a vida fosse um inferno.Mas o dono da padaria é um cara casado com uma mulher linda e ela trabalha no caixa.Sempre sorri para mim quando compro Fandangos e me dá bala a mais no troco.Balas daquelas verdinhas com gosto de menta.
Ela sorri e balança o cabelo loiro.Às vezes acho que sorri mais para quem compra pão do que para seu marido, aquele que fuma com uma cara amarga de quem não ri nem de um gibi bobo faz tempo.Ela sorri, conversa sobre bobagem e diz Bom dia/tarde e noite.
Ele fica ali parado toda a tarde.
O que acontece com essas pessoas?
Elas fumam, sorriem, ficam putos do nada e voltam para seus postos depois de um tempo.
O dono da padaria me parece um homem triste.
A mulher me parece mais feliz, mas na soma é mais triste do que o seu marido; mas não fuma fazendo cara de cu.
Daí eu vou lá e compro um Fandangos de tarde.Decido pegar um Marlboro para experimentar, ver se ela irá sorrir e me dar balas.
-Obrigado, viu!Volte sempre!
Ganhei a mesma bala.Mesmo sorriso.Sou fumante.
Eu achava que ela ia me tratar mal, me odiar como o marido que fuma lá fora amaldiçoando as pessoas na calçada.
Penso.Fumo.
Começo a tossir muito pensando na mulher loira do caixa.Tenho raiva dela por ser tão falsa e me tratar como todos.Fico triste do nada, a fumaça sobe pela janela em uma baforada torta pelos prédios.
Não sei fazer anéis de fumaça.Nem para fumar eu presto.Não fico bonito com cara de cu quando estou triste fumando.Até Bogart ficava.
Passo lá outro dia e digo:
-Você fuma...?
Ela sorri:
-Não.
-Ah, tá...
Pego a bala e saio correndo.A voz dela me atordoa; fico tremendo por ouvir a voz dela se dirigindo a mim.Me dá um poder, sinto que posso beijá-la.Topo com o marido horrível fumando na esquina com desgosto.Acendo meu Marlboro e fumo sorrindo, solto uma leve fumaça em direção a ele com desprezo.
Quase um anel se desenha no ar e sobe pela tarde na Vila.
Em uma tarde infernal pela Pôr do Sol, descubro que penso demais nela e que talvez a morte desse pensamento me deixaria uma pessoa mais tranqüila e menos patética; acompanhando esses sentimentos, solto fumaça pelo ar como se fosse o que há dentro de mim.Fumo, como se quisesse tirar algo, como se a vida fosse tudo fumaça e os cientistas todos uns fumantes enrustidos.Milhares de propagandas, câncer e impotência sexual: fumo, fumo e fumo mais.Afasto a mágoa na esquina como o dono da padaria.
Como o dono da padaria...
Decidi comprar um Lucky Strike naquela tarde de grandes descobertas precoces onde não fiz questão de esconder nada e gritei como um presidiário quando gozei pensando na minha moça da padaria, a cueca lá, toda manchada ganharia mais companheiras.Manchas, manchas em todas as cuecas marcadas à caneta com o B de Belmont.
Penso que a amo.Imagino ela vendo um filme comigo.
”A morte em vida começa assim” -penso eu, um garoto da Vila tosca em meio a casas enormes em volta da velha praça.Se deus existe ele ouviu o meu lamento.
Lucky Strike.Outros gostos.
E então aquelas luzes azuis e vermelhas tomaram todo o ar e na esquina onde ficava o dono da padaria.Um nóia assaltou a padaria e deu um tiro na cabeça da minha amiga que me ajudou a fumar naquele período onde a fumaça entrou na minha vida.Dizem que ela não reagiu, o ladrão viu algo e puxou o gatilho.Bobo, que só eu , pensei que talvez ela naquela vida desgraçada onde todos olhamos para o céu, quisesse dar uma bala de menta e um sorriso para o seu assassino.
Não se viu mais o dono da padaria.
Eu, como Matt Dillon em “O selvagem da motocicleta” assumi o que os outros deixam de fardo para a gente e tomei a esquina para mim: lá em direção a Igreja onde tem uma banca decadente que não vende nem jornal, passei a minha adolescência fumando escondido e vendo mulheres,cachorros e carros passarem.Comprava um Fandangos na padaria nova onde não se via as manchas de seu sangue no vidro escrito "entrada" ou a sua doçura, moça loira.
Lá no mirante da praça, eu fumava e olhava para essa cidade com o seu céu cinza que a gente tira de dentro da gente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

as bombas atômicas da minha infância

Tem um sonho que me acompanha desde que era pequeno.
Nele, toda a vez que subia para buscar pão na Natingui explodia uma bomba nuclear lá na Vila.
É preciso registrar que eu odiava buscar pão: não há nada mais entediante para um garoto estar brincando com os seus Comandos em Ação ou jogando Atari e ouvir a mãe gritando “Vai buscar pão!” umas mil vezes.Pra não falar que era uma fase normal de alienação-infantil perante esses problemas, devo dizer que esse hábito me acompanha até hoje: não comemos mais pão francês, só aquele Panco (antigo Seven Boyz) com mortadela e queijo naquela chapa de pobre que você enfia na boca do fogo diretamente para esquentar.E queima tudo...
Desisti de buscar pão.
E lá estava o sonho: eu, criança, indo com o saco do tamanho da Lua naquela padaria maldita com as suas abelhas-mutantes-do-filme-Sci-Fi-dominical-do-Sílvio-Santos rodeando todos os sonhos açucarados, línguas-de-sogra e fazendo os pobres moleques preguiçosos (como eu) ficarem com o cu na mão de serem picados.
Peço cinco pãezinhos e corro batendo com a mão, afastando as abelhas que insistem em me picar, essas abelhas que insistem em morrer.
É, elas morrem: deixam lá o seu ferrão enfiado na nossa pele e vão voando para morrer num lugar calmo cheio de flores e pólen, as asas ficam mais pesadas...
Dormem no cemitério das abelhas como Baleia sonhando com os preás.
Deve ser triste ser abelha.Mesmo não gostando delas, o eu-criança do sonho achava triste esse destino.
Jogo as moedas no vidro e espero a mulher contar.Agradeço como tonto desde pequeno esses seres que vivem atrás de balcões; mais tarde seria eu que estaria lá ouvindo desaforo e esperando os meus namoros fugirem na aurora de uma rotina cheia, dura e besta.Olhando o dinheiro nas minhas mãos e escrevendo sobre a vida dos outros que se encenava na minha frente.Fechando o caixa e contando tudo de novo.
Desço as escadas lindas da padaria no sonho: e só agora vi o prazer que sentia na época em estar descendo, pulando os degraus brancos com os meus chinelos velhos, cabelo espetado e camisa do Bloco do Boi.No final, não era tão ruim estar lá, ia pensando em como seria a próxima fase do Megamania no Atari.
É, bem ali, sorrindo, sempre olhava a Rua São Macário, aquela rua enorme/alta que ficava ao lado da padaria, onde descíamos de skate e os mais velhos no estilo skate-punk tinham o shape de Fernandinho Batman, onde brincávamos de Goonies e eu descia com a minha bicicleta azulzinha Caloi toda fudida e fechava os olhos: eu era o Watson/Sherlock do filme “Enigma da Pirâmide” a descer naquele cacareco pelos céus da minha infância.Nossa, eu fechava os olhos enquanto a bicicleta descia com tudo.Eu fechava os meus olhos quando fazia isso.Voava.
E nessa rua, lá no meu sonho, eu parava para olhar a descida e a vista que ela proporcionava.Surreal.
Lá longe, algo laranja caía na Vila e era tão forte aquele cometa caindo que logo fiquei surdo.Estourava como um rojão batendo no chão,soltava vento forte para todos os lados e ia espalhando fumaça para o alto como uma árvore alta em raízes superevoluídas; um cogumelo se erguia.Eu segurava o pão hipnotizado com o espetáculo,sem ouvir nada,vendo aquela coisa laranja jogar o vento com seu peso, a vista e o pôr-do-sol que se anunciava para os moleques recolherem as pipas e irem para casa tirar sua camisa encascorada de brincar.
E era lindo o fim do mundo lá na Vila com as pipas pelo ar.
Eu sonho com isso há tanto, tanto tempo que não sei dizer.É um sonho repetido, tranqüilo e igual em todos os detalhes.Eu sonho com isso antes de saber o que era um cogumelo atômico, a bomba atômica ou as razões para alguém inventar isso.Eu já devia ter visto filmes e imagens com a bomba, mas...
Eu devia ter uns 9 quando começou.A gente vivia mais, não era preso e vivia na rua, não via televisão dia inteiro ou ficava carregando o celular na bateria nessa idade.Sábado tinha luta livre: Gigantes do Ring!
Pensava na bomba atômica da minha infância no último dia do ano.Hoje.
Em como a espera é algo tranqüila e descompromissada, em como eu não tenho ansiedade pelo o dia e o ritual em si dessa passagem de ano.Nunca visto branco (coloco a camisa do Misfits),não pulo ondas e tenho sido aquele que é conhecido por fazer tudo ao contrário, aquele que veio do Mundo Bizarro; as pessoas dizem que te respeitam desse jeito como a Bridget Jones e que sou isso ou aquilo, mas cedo ou tarde a gente vira a piada numa mesa com gente chata e que não sabe beber, piada na cama de mulher que te amava com um cara- idiota-rindo-com-bafo-de-café-caro.Não há retrospectiva, só bombas e amigos; isso é parte integrante da nossa vida como as ilustrações das figurinhas nos álbuns que a gente tenta completar.
Esperamos as bombas no final de ano.Nos meus sonhos.Ela lá tranqüila.Os fogos hoje à noite com as únicas pessoas que me aturam todos esses anos e vice-versa.Pensarei em vocês todos, com certeza, mas não é por que é ano novo, mas por que eu sempre penso em todos que fizeram parte integrante da minha vida.Minhas figurinhas de álbum.Minha ficha de Pinball.A bomba tá lá no sonho até hoje.
O ano novo chega por aqui.
Quem sabe hoje à noite eu sonhe com a bomba e me assuste com aquele arrepio de criança que não tenho há tempos,hein?!Aquela coisa proibida de ver um filme de terror escondido da mãe ou brincar de esconde-esconde e uma garota linda te abraçar com medo de barata...
-É isso que significa a bomba no meu sonho, Holden Caulfield?Aquele arrepio?Nada apocalíptico?
Ah, as bombas atômicas da minha infância...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

o alzheimer de todos nós

Giz de cera.
Lembrei da palavra que me parecia tão engraçada quando pivete: crayon.Tinha uma caixa deles comigo quando criança.
Era uma caixa toda espalhafatosa com desenhos de casinhas ,solzinhos e nuvens na embalagem ; dava a idéia de que uma criança era a autora da arte.Tava escrito "crayon" do lado da caixinha!
E eu me lembro perfeitamente da caixa!Dos desenhos que fiz num sulfite de tarde na escola .Do comercial da Faber Castel...
Me lembro de tanta coisa, que vivo às vezes só para lembrar : daquele desenho antigo que ninguém lembrava na roda de boteco ,do show que eu assisti há muito tempo,do que os meus amigos lembraram ontem por mim e daquela mina que existe na minha cabeça.Me pergunto se é normal lembrar de tanta coisa .Ultimamente tenho tido uns lapsos,coisa de noiado mesmo :falam comigo "lembra do que a professora falou?" e na minha cabeça aparece aquele "Now Loading" bem rapidinho .Uma imagem de um disco girando bem rapidinho.
E lembro com algum atraso.
Lembro que esse texto tinha algum propósito ,mas esqueci.
Me veio a imagem do estojo de crayons tão nítida na minha mente que eu tropecei no meu silêncio pra chegar rápido nessas teclas e escrever.Bater na máquina com raiva,escrever pra caralho.Eu me lembrei de algo e esbocei um sorriso .Morri na praia com alguma idéia olhando pra mim,se debatendo triste na palma das minhas mãos.Desapontada.
Às vezes essas coisas passam na cabeça da gente .E lá está você, dando um sorriso andando por aí ou numa fila que não anda mais.
Acho que quis escrever para não esquecer mais.
É...
Acho que foi isso.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

eu era um veterano do vietnam

Não sabia escrever letras de músicas.
O violão Giannini que ganhei de meu pai era surrado com porradas, dedilhadas frustradas e acordes que não existiam.As garotas não olhavam para mim na Praça do Pôr do Sol e eu passava a treinar o meu olhar para algo que não compreendia:o sol ,que nascia lá longe dourando aqueles braços curtos delas dançando na gravidade impossível.Eles tocavam violões.
Eu, só andava com a minha camisa do Ramones que comprei da Tia Roqueira da banquinha da Teodoro.
Eu ficava que nem o Gato Fritz olhando garotas irem embora ao som de um corvo cantando refrões de paz .Aos 14 era assim ,depois de cinco anos eles cantariam as suas carreiras,metas e sua entrada no mercado de trabalho.
E assim,sem mais nem menos ,chegou a guerra e eu não sabia uma canção.
Eu nem sabia fumar maconha,eu não ouvia Hendrix ,eu nunca vi a liberdade sexual com as mulheres e seus cabelos Black e uma flor no vestido em slow-motion;a chuva caía incessantemente enquanto os homens marchavam montanha abaixo e assobiavam toda a trilha sonora obrigatória de todos os filmes de guerra já feitos.Eu dava tapas na minha cara afastando os mosquitos ,mas havia tantas canções na minha cabeça...
Minha mãe me dizia:
-Isso vai ser bom para você.Vive reclamando da vida !
Acho que ninguém pensava nisso naquela época.
Havia uma aura toda de embelezamento e loucura do que se vivia nos campos de arroz e nossas balas cortando o ar , acertando uma criança nua e nossa inconsequência indomável.
Nossos ideais.
No primeiro dia em que o helicóptero pousou e descemos apressados levando bronca de sargentos e tenentes para entrar no front , a desviar das balas e dos corpos dos nossos amigos que tombavam de um jeito inexplicável ,eu já me sentia cansado de tudo aquilo;tinha certeza que aquilo era antigo.
Eu já era um veterano do Vietnam há muito tempo:de saco cheio ,cansado ,amargo,perturbado e amputado.
E a guerra arrastou as nossas vidas,vontades e sonhos .As canções já não existiam mais ,somente os gritos dentro das têmporas reverberando no inconsciente de uma alma inútil que não será parte do mercado de trabalho ,não será independente ,não será intelectual e nem um pouco sexy;seriam os fantasmas do amanhã que lutaram por algo que não existia e suas vidas e seus ideais seriam a piada de boteco caro em faculdade de gente descolada.
Seríamos o lixo paralítico em passeatas que ninguém aparece ,livros que vão aos sebos por 0,50 cents :a turba de gente feia,de pinto pequeno,broxa e decepcionada com tudo que assistiu de final de novela-das-oito.
Hoje ,existem muitas canções para se cantarolar e não existe mais a chuva torrencial e tropical que nos castigava ao sul enquanto carregávamos os nossos rifles com nomes de garotas:só existe um mundo de cores,uma paz inexplicável/violenta e possibilidades infinitas onde você é capaz de tudo ,jovem.
-Não se esforce,amigo.
Por isso ,dentro da minha mente ,eu sempre verei balas voando nos campos de arroz em Nhan Dao.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

um beijo escondido , harmonica ...

Eu nunca aprendi a tocar gaita.
Quando tinha uns dez anos , ganhei uma de meu pai após encher tanto o saco dele :ela veio diretamente de algum canto do mundo , para o Paraguai onde meu pai árduamente trabalhava trazendo bugigangas de lá .Ela estava lá numa caixinha linda ,retangular com bordas verdes e dentro tinha um paninho rosa de veludo para embalá-la quando dormisse ou para tirar a babinha que ficava nos buraquinhos de madeira em seu interior ; era toda revestida de um metal prateado.
Como brilhava...
Ela era linda , a minha gaita.Minha harmonica .Eu tinha ciúmes dela : quando chegava da escola , ia ver se estava lá no mesmo lugar e se ninguém tinha mexido nela .Se mexessem eu ia ficar enchendo o saco que nem criança implicante e marrenta que briga por nada ,tipo pentelho mesmo .Mas era só para ouvir a minha voz mais alta , queria que ela , a minha voz , ficasse tão alta que fizesse amizade e depois namorasse com a gaita .Que a minha voz fosse forte .
Descobri depois de um bom tempo que se a gente soprasse nos orifícios mais acima , o som saia diferente e se a gente puxasse o mesmo sopro para um lado , o som saia meio bravo , como a voz de alguém que te diz algo meio puto e taca os pratos da mesa na parede no jantar ; se a gente soprasse para o lado oposto , saia que nem voz de menina.
Minha gaita era o bicho ,maluco.
Eu assoprava ela por horas durante as tardes , e deixava os cachorros loucos uivando ; de tanto uivarem perto de mim , acabei conseguindo imitar um cachorro uivando e fazia o meu uivar sem a gaita.E ficávamos uivando ,cachorro curte uivar .
Acabei aprendendo isso .
A gaita me ensinou a chorar que nem cachorro , me estimulou .
Mas eu não sabia tocar a gaita .Mas não chegava a ficar frustrado ou puto por isso na época .
Eu queria ser um daqueles bluesman , tocando uma nota triste nela , ficar bem gordo e viver de música pelas estradas ; talvez eu venderia a minha alma pro Diabo para aprender a tocar um blues de verdade que nem Ralph Macchio em "Crossroads" .
Será que ele me ajudaria?O Diabo ??
Já parei para pensar .
O tempo passou e eu continuava soprando ela de um jeito ridículo : nunca consegui fazer uma nota decente nela e ficava horas azucrinando a vizinhança com aquele barulho que era um pé no saco de irritante.Irritante como eu .Eu tinha noção disso ...
Depois de tantas coisas difíceis , eu pegava a minha harmonica e ficava ali soprando ela até me acalmar ,até a voz sumir num protesto tímido do Drummond ; ia para baixo da minha cama e ficava olhando pro estrado.A voz e aquele sopro que não serviam para nada .Não produziam nada ,era um choro grotesco , vergonhoso ,embaraçoso pra caralho .
Uma vez ganhei de uma vizinha nossa um projetor bem safado de slides .
Quando não tinha ninguém em casa , eu ia para o quarto da minha mãe , apagava todas as luzes , trancava o quarto e ligava o projetor que era nada mais nada menos que uma porrra de uma câmera de plástico de brinquedo bem vagabunda com uma luz que saia para fora e era só encaixar as "fotinhas" no bico e ver elas enormes .Umas fotos de animais e troços de Biologia.
Mas não tinha tela para ver bonito e eu ia na cama da minha mãe , deitava com a cabeça na cama e projetava a foto de um tucano , uma onça e depois deixava aquela imagem enorme parada ali no teto ; pegava a harmonica e ficava choramingando notas que não eram nada , eram sopros , eram gritos de fúria encarcerados em alguém que crescia rápido e de uma forma desordenada .O vento era o que saia da gaita , não música .Era nada.
Meu irmão era muito talentoso com música e a gaita se deu melhor com ele de uma forma alma-gêmea : tirava umas notas , nascia um blues poderoso no sopro dele de forma fácil .Depois de ver a harmonica de namorinho com ele , soprando graciosamente melodias com ele , acabei aceitando que eu não tinha as manhas com ela e fiquei triste pra caralho .Enfiei a viola no saco e saí andando até a praça Pôr do Sol .
Ele , meu irmão que pedia direto a gaita e eu sempre dizia que era minha , acabei um dia dizendo meio frustrado ,derrotado :
-Pode levar , vai...
E lá ia ela ,contente na mochila dele .Foi para Bauru e uma pá de lugares cantarolar blues de verdade para garotas apaixonadas tomando cerveja .
Caralho , eu nunca consegui tocá-la direito , gaita ...
Mas eu juro que se eu subir agora lá no quarto dele e te achar num canto toda empoeirada e suja , juro que te dou um beijo de verdade , sem nojo ,gaita ; e vou ficar soprando você até me acalmar , até a voz e sopro sumirem , até a garganta doer e talvez , talvez nós vejamos aqueles pássaros e onças que se mostravam no teto tão enormes só para nós dois quando éramos mais novos .
Será um segredo só nosso.
Eu ,você e minha boca cheia de poeira .

quarta-feira, 16 de abril de 2008

embromation.

Cata um vynil ,cata um cd velho .
E se surpreenda com o que é seu e o que não é mais.
Limpe o seu quarto ,o seu muquifo cheio de tranqueiras ;pega aquele monte de meias no chão e arruma sua mesa.Tenta.
Ouve esse som?Você costumava se divertir com ele ,lembra??
Gritava as letras pelas ruas .Tanto,que as pessoas diziam para a sua mãe que talvez você precisasse falar com a psicóloga; e olha que você descobriu uma vez que tinha uma na sua velha escola.Grita a letra do jeito que era muleque ,quando nem sabia o que era inglês ...
Lia tudo ,né?!Lia as letras no encarte do vynil,dos cd´s e reconhecia umas palavras ou outras.Quando se perdia em dungeons jogando Dragon Quest no Nintendinho ,mesmo quando estava perdido ,você lia aqueles balõezinhos de diálogo na cabeça dos carinhas?Mesmo assim?Como você se sentia ao ler essas coisas que não faziam o menor sentido ??
E lá estava você perdido com seu bonequinho ,no labirinto ,sem poção pra encher HP ,sem rumo e matando um monte de esqueletos te cercando...
Porque queriam te matar?
Cê não entendia.
Lembra,lembra dessa música?Você cantava ela pensando naquela menina,lembra?E essa música é só dela,viu ,caralho!?È dela ,não é dessa banda ou desse compositor!É dela!!
Hoje cê sabe o que essa letra significa?Cê ficou decepcionado??
E naquele labirinto-maldito-de-pixels-8bit em que você assobiava músicas eletrônicas ao som da tv velha que sua mãe ganhou da patroa,você sabia o que elas te diziam naquele situação?Assobiando,sabe...
Sabe ,o teu personagem tava morrendo...
Sabe,ele tinha o seu nome ...
E agora ,pensando nessas coisas ?
Ouvindo esse vynil rachado.
Lendo o encarte desses cd´s.
Pegando esse monte de sujeira do sofá velho do seu quarto que você nunca conseguiu deixar limpo.Abrindo essas caixas.
Você vai catar aquela coisa velha e se permitir ouvir e suportar tudo que eu estou te falando?
Limpa esse tape.
Você consegue se lembrar até dos chiados na música na fita quando imagina o som na cabeça?Lembra!No teu som fudido que tinha a porta do tape quebrada,em que você tinha que fechar a portinha com um papel enrolado e empurrar que nem porta velha de vó rangendo em casa antiga??No teu som antigo :seja aonde ele for ,você tem que lembrar!!
Você tem que gritar com a música !Pogar ouvindo aquela fita do Ramones que você carregava em todas as festas e que todos odiavam;odiavam as suas músicas,as suas roupas,o seu cabelo que você queria deixar igual ao Mickey Rourke , o seu jeito de olhar triste para as garotas numa cadeira,olhando pro fundo do copo de groselha e o seu jeito de fumar cigarro escondido da mãe.
Você canta até hoje "She´s the one " do Ramones !Isso tem sentido hoje ,não tem!?
Se hoje ,você abraça essas coisas empoeiradas que nem aquele travesseiro de noites ébrias e desgraçadas de saudade e se pega pensando até no som do chiado é porque algo faz sentido,né?!
E aí:
Seu bonequinho não vai mais morrer porque tem um monte de esqueletos a sua volta querendo te foder.
O gosto da groselha, ás vezes cê vai sentir num copo de cerveja no bar que só você vai e todos da sua "facul" odeiam.
As letras serão cantadas num embromation com sentido na sua voz como naquela época em que cê era só um garoto sujo da arquibancada de topete ensebado e camisa Hering .
Billie Holyday cantando Stormy Weather com vocês naquele apartamento e um monte de Doritos pelo chão nunca morrerão...
Cata um vynil,cata um cd velho,cata uma fita, cata uma coletânea, joga no seu mp3,cantarola que nem xarope no metrô!!!Eu te imploro!
Chora e faz o caralho.
Não importa .Que se foda.
Faz o que eu digo.Tem medo não:idiota a gente já é ás vezes na vida e não por fazer essas coisas.
Cê sabe.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

-tio,eu não sou tão óbvio assim.

Fui ao Playcenter há um tempo atrás (sei lá, 3 ou 4 anos) e tudo me pareceu diferente...
Houve uma vez (uma cara) em que eu e meu irmão enchemos tanto o saco da minha mãe para irmos lá que ela gentilmente nos levou num desses dias meio cinzentos e típicos de Gotham City aos sábados.Chegamos umas nove da manhã e caiu uma daquelas inesquecíveis chuvas de infância; e lá se foram as crianças a se esconderem em sombreros gigantes multicoloridos e mesmo na chuva sorrindo.Naquele desespero momentâneo, estrategicamente as barracas de "abrigo" eram verdadeiras lojas de tranqueiras em que se pagava pelas bugigangas inúteis na hora, ou envolviam um péssimo jogo de azar sacal como por exemplo encher as malditas bocas de palhaço com tiros-d´água...
Pensando bem agora (e isso só me ocorreu nesse instante), quem teve a doentia idéia de criar um brinquedo em que você aponta uma porra de uma arma para a boca aberta de um palhaço fazendo cara de feliz?
Bem..
Nunca consegui ganhar nessa coisa: sempre tinha um molequinho arrogante geralmente de cabelo preto engomado e penteado pela mãe usando umas roupas apertadas e shortinhos minúsculos que sempre era mais rápido que eu.Sempre.
Tudo que eu queria era um daqueles tigrinhos da Olimpíada de L.A : todas as crianças tinham aquela merda, porque eu não podia?Meu irmão acabou ganhando em algum brinquedo que não me recordo, talvez tenha estourado os miolos de algum palhaço pelo parque...
Mas quantas cores existiam naquele tempo cinza: brinquedos que eram uma verdadeira epopéia de diversão-tamanho-complexidade como aquela mulher gigante em que você literalmente "entrava" dentro dela a explorar os seus órgãos (muito didático), umas sombras-macumba em que você fazia umas poses e elas ficavam "presas" na parede do jeito que você planejou, o maravilhoso trem-fantasma ou Casa do Terror em que havia um caixão a passar pelas múmias gigantes e Lúcifers sorridentes de costeletas e cavanhaque que nos lembrava um dos nossos filmes preferidos quando éramos crianças :
-Bi,vai passar "Pague para entrar, reze para sair" hoje!
-Obaaaaa!!!
Era sempre num sábado de madrugada depois do Supercine, algumas vezes por ano ...
E tudo isso estava bem vivo na minha cabeça há uns 4 anos atrás quando fui parar lá numa circunstância bizarra que não vale a pena ser mencionada; tão vivo que ao atravessar as catracas fui me lembrando das crianças que não aguentavam de excitação e iam correndo apontando para todos os brinquedos, como naqueles flashbacks de filmes em slow-motion:
-Não corre!Dá a mão !-diziam as nossas mães em uníssono universal na película da minha mente.
E logo na entrada ficava o Viking!Nossa, como eu adorava aquele brinquedo!Barco viking gigante musicado pelo grito de terror gostoso de todos nós que éramos crianças, gritos bons: de quando se sente uma coisa pela primeira vez na vida e dá um frio na barriga por que é diferente e sublime, é bom...
Mas, cadê o Viking!?
Uns brinquedos mirrados, umas rodas gigantes caquéticas, montanha russa minúscula, umas rodas raves para criança com música eletrônica ruim organizadas por umas mulheres feias (!), uma simulação duvidosa de terceira dimensão que custava uns 10 reais para usar e creio que não deveria ser mais emocionante do que os óculos 3-d que eu mesmo fiz com papel celofane para jogar Nintendinho...
Curiosamente não haviam tantas crianças (não sei se era porque era terça) e sim muitos adolescentes que vão parando e conhecendo umas menininhas instantaneamente no caminho e apostando quem vai beijar mais do colégio: certamente mais interessante do que as minhas andanças procurando tigrinhos ou a máquina do "elevator action" para jogar uma ficha...
Ah sim, achei o Viking!
Numa tristeza infantil constatei que ele não me parecia o mesmo: era menor, mais feio, todo desbotado pelo tempo ou pelo descaso .Eu não tinha certeza se era o mesmo Viking de antes e não sei se era o brinquedo que tinha mudado ou eu.Mas os gritos, eles continuavam ecoando pelo o parque e foi a única sensação que tive que me era familiar, que já tinha sentido e ao ouvir aqueles sons agudos pelo parque fiquei com aquela cara de tonto emocionado ,com um sorriso meio torto e patético que me é particular.
Há uns 2 anos atrás a Dungeon em que eu trabalho foi reformulada e fomos à loja uma hora e meia antes para assinar a papelada (a mesma, mesmos números,termos) feito isso tínhamos uma hora e meia para lanchar, bater punheta ou encher a cara e chorar por mais uma existência nula em empregos autorizadas com o nosso próprio punho e auto-consentimento.Não sei de quem foi a idéia de ir ao Instituto Butantã.Mesmo.
E tudo era tão pequeno, vazio e difícil: como as cobras que se arrastavam tristemente pela mata sem graça e quase artificial, usando a sua camuflagem para se esconderem de um monte de humanos estúpidos e arrogantes.
Desde pequeno eu tinha uma fascinação por aqueles "serpentuários": pareciam umas casinhas de eskimó feitas daquelas paredes cheias de pedregulhinhos da tiazinha que não devolvia a nossa bola de capotão e atirávamos mamonas para deixá-la toda verde e horrível como vingança.
E hoje, depois de dois anos lá estava eu andando pelo "serpentuário", numa linda ponte suspensa que outrora foi construída para se olhar as cobras por cima, agora possuía uma visão privilegiada para o nada: haviam retirado as cobras há um tempão desse local e tudo que se via era o musgo que se acumulava na antiga "piscina" onde os pobres seres antes se refrescavam e recordavam que a vida no mato era boa, folhas mortas que lindamente iam caindo, dançando e rodopiando em espiral das árvores.
E lá fui eu subir na ponte de ridículos três metros de altura para não ver nada a não ser abandono e um tiozinho que limpava o chão com aquelas vassouras de folhas, ficou me olhando e eu sabia exatamente o que ele pensava, como Bandini sabia o pensamento de maldade dos trabalhadores da fábrica de sardinhas...
Eu sabia que eu era o único adulto que teve a curiosidade de subir ali para não ver nada em muitos anos.E ainda parei no meio da ponte e me apoiei com o queixo sobre os braços como o meu cachorro faz quando está entediado,só para contemplar "aquilo".
Apesar de feio, eu vi beleza naquilo .
Não sou mais criança, eu sei .
Mas ,tio,os meus pensamentos não são tão fáceis de se adivinhar :eu sei que parece patético ,curioso e previsível o meu andar e determinação ao subir nesse lugar que todos esqueceram ,mas eu lhe garanto que não sabia o que eu pensava quando me apoiei sobre meus braços como cachorro e sorri bem ridículo.E torto.
Isso já não é tão fácil, mas é um pensamento-lembrança que me fez sorrir como os gritos de um certo barco Viking e parques desse mundo...