quarta-feira, 27 de novembro de 2013

mallo e mauzinha

– por 10 gramas o bagulho vai, a noite estica, filha.
(ele tava a fim de ir, tava na pegada de seguir à noite, então fomos lá naquela porra de festa zuada de sempre do Tino e a partir dessa frase do Mallo, a gente seguiu atrás de um pó; e fazer o quê? era o tal do Zeigeist, era o que a gente buscava na hora. era a nossa pegada)
– eu sei lá, eu quero sair correndo, voando por essa rua, Mauzinha!
(e a gente pulava os degraus de mão dadas, eu amava ele pra caralho, ele me dizia toda hora que eu era linda; porra, a gente dava as mãos, saía sorrindo à noite naquela pegada de chegar mais rápido na festa!)
-o Tino tá aí, Bezerro?
(Tino curtiu com a gente, e a gente já tinha o que queria, a bucha; Mallo pegou mais grana emprestada e a gente pegou um táxi; entramos com cuidado pelo quintal e seguimos para o nosso quarto; cheiramos tudo e era bom demais, não vou negar e foda-se; muitos morreram, muitos morrerão com essa porra, vão perder uma pá de coisas, mas a parada é que se pudéssemos congelar aquele momento no tempo; lá estava eu e meu amor de mãos dadas, voando os degraus pela noite e juntos na doideira: durma com esse barulho, imagem da felicidade distorcida da sociedade!; a trepada às vezes era boa, e às vezes era uma merda. depois que eu fui perceber, descobrimos que não havia esse “amor”, sabe? gostávamos da coca, depois disso – dessa maldita confissão consentida e mútua – ficou mais fácil curtir um pó, porra; era isso, a gente se sustentava, aturava; se gostava)
-Mauzinha, vamos comer um pastel? Mó fome, tem feira hoje, amor!
(levantamos, e aquilo era uma dica para levantar e começar a nossa busca pelo Santo Graal, tomamos umas cervejas que sobraram de outro dia, demos as mãos e saímos; pastel e caldo de cana de mãos dadas pela feira, um monte de gente dando um salve pra gente)
-Mauzinha, o Tygra me deu um vidrinho, filha! Porra, o pessoal é bom comigo, meu deus! Que fartura!
(vagabundo adulava o Mallo porque ele era uma boa companhia, tinha respeito por ele, e mesmo quando tava bicudão tentava ao máximo não deixar ninguém se fuder no meio da noite: pagava táxi, protegia o pessoal de treta errada nas festas quando um se estranhava com o outro, buscava o pessoal na delegacia e pegava a causa para ele; dessa forma, ele cuidava de casos até de graça; o pessoal da grandona foi subindo e prestigiavam o Mallo muitas vezes; a gente nunca ficava sem pó ou dinheiro; diziam que "o muleque era foda"; "ele livrava toda a rapa")
– Ó, o Lindomar me ligou agora e disse para a gente colar lá.
(e a gente ia. sem tempo ruim, eu tô dizendo que era bom pra caralho e não vou cair nessa de arrependidinha de Cristo sendo escrota com o mundo e pregando o arco-íris; hipocrisia não é comigo: a porra da branquinha me proporcionou os melhores anos da minha vida e eu ia garantir uma boa quantidade de memórias por m² até quando puder)
- Mauzinha, o Lindomar tá ali te esperando, vamos colar lá hoje também?
(a gente trocava de namorado umas vezes e tava tudo de boa; um dia esse Lindomar, amigo de rua do Mallo, disse que me achava mó tesão e tal; e esse cara tinha uma mina bem branquinha, chamada Felícia, linda; os dois combinaram esse lance de menáge e o caralho e o lance é que eu não gostei de chupar buceta, mas até topava trepar de vez em quando com o Lindomar; o Mallo curtia a Felícia, ficava lá depois me dizendo o que fez com ela e eu dava risada; depois da primeira vez a gente fazia esse lance raramente, só para renovar o repertório. todo mundo ficava feliz e gente renovava o estoque)
– Mais uma coleta, filha!
(dez gramas, depois das cinco a gente ficava empolgado, era o que o Mallo dizia de fazer um combo do Street Fighter: juntar umas duas coletas, três; o foda é que negócio um dia ia acabar, eu corria contra o tempo para salvar mais tempo)
– Vamos pegar um táxi e vamos pra Lapa? Tá rolando um Psy, trance e tal, filha.
(a gente ia, som de merda, gente chata… voávamos pro samba e pro buteco e destilávamos umas da Alcione, do Cartola e tudo se purificava; a gente se revezava indo pro banheiro, na pegada e no combo)
-Mauzinha, eu te amo!
(e eu acreditava)
– Vamos voar!
(demos as mãos e sobrevoamos as casas, na pegada de chegar logo em casa)
– Mauzinha, eu tenho uma coisa para te contar, filha…
(ele me pareceu estranho, parou a nossa corrida para casa, ainda segurava minha mão, parava de correr, estaladão daquele jeito, até deu para ver algo por trás daquela máscara que era sério)
-Mau… Mauzinha (segurou o meu rosto delicadamente) eu vou parar com essa porra de vida. Eu não aguento mais…
(ele começou; me disse que todos os parentes estavam na cola dele, que já tinham manjado toda aquela parada nas festas e que ele não conseguia nem disfarçar mais, que segurava os sobrinhos estalado e aquilo não agradava os irmãos, que em todas as fotos de família ele tava bicudão, acelerado no turbo, dando B.O, que achavam que ele tinha um futuro no escritório de advocacia, que queriam montar uma parceria com ele, alugar um lugar para ele trabalhar)
-Mauzinha, por favor… Faz isso comigo…
(ele me disse com a maior sinceridade… eu o amava, mas como eu disse, vi tudo aquilo desmoronar porque a gente não era de aceitar opinião de quem tava de fora, de gente que tenta dizer o que temos que fazer; disse para ele mandar todo mundo à puta que pariu, para nos mudarmos e seguir uma vida nova)
-Mau… esse bagulho tá acabando comigo…
(eu fiquei com raiva dele, saí correndo para longe xingando ele de filho da puta e o caralho; eu, na verdade, achava cedo demais pro show acabar, pro bar fechar, pra pista ser interditada… eu só queria dar um tiro, levantar a cabeça para trás em busca daquela cheirada que me elevou… que mudou a minha vida, que foi a melhor cheirada do mundo: quando um carinha que me pegava no banheiro me apresentou o pó, eu tinha dezenove anos, tava numa festa em casa de prima; depois daquela porra, tudo tava certo e eu buscava sempre aquela sensação de altura, de leveza, de tudo que eu não tinha sentido até aquela noite no banheiro; eu buscava aquele tiro, perfeito, até hoje; e eu tinha conseguido viver a minha vida assim sem ter que dar satisfações para ninguém… Mallo … nos conhecemos num boteco lá na Vila e ele tinha me olhado a noite toda, me acompanhou até lá fora quando entrei no táxi, esticou a mão pelo vidro e me deu um guardanapo com o seu número do celular e e-mail, escreveu embaixo “você é a menina mais linda que eu já vi, adorei o jeito que toma cerveja e fuma, e levanta a cabeça soltando fumaça com insolência; deixa eu te ver mais”: ele me ganhou naquela noite, e eu sabia que ele cheirava e foi perfeito até agora...eu achava que ele me traia agindo daquele jeito, com aquele papo de “vamos arrumar nossa vida, se limpar, trabalhar das seis às cinco da tarde, pagar aluguel e assistir sessão na matinê”... uma bela de uma decepção...saí chorando, larguei ele com aquele papo de bosta…. e ele foi atrás de mim… gritei, fiz escândalo na rua e chamei um táxi, e quando ele veio conversar comigo, dizendo que queria explicar, que tinha que fazer isso comigo, que não conseguiria sem mim, eu disse pro motorista do táxi que parou que aquele cara tava tentando me estuprar.. o cara puxou uma arma do bolso da jaqueta e disse para ele se afastar… deu um tiro no pé do Mallo... ele caiu, segurando o pé, estava inconsolável, chorou, e sentou na sarjeta e me olhou indo embora no táxi… eu ri com ele segurando o pé e se contorcendo… eu dei um sorriso vendo aquela cena… ele ali, pela janela, todo sem dignidade… o motorista me olhou e gargalhou, disse que tinha que andar com cano, que a profissão tinha disso, depois puxou mais papo e eu cedi, andamos pela cidade; ele passou a mão na minha coxa e o resto era história)
A voz de Mallo nunca mais existiu nessa história.
Fiquei sabendo que ele se mudou depois disso. Que tentou se limpar, mas a nóia tava muito brava, que via bicho de noite, achava que tinha gente indo atrás dele cobrando dinheiro, e uma pá de vozes que não sabia mais o que era real, fiquei até sabendo que numa dessas ele começou a se prostituir, dar o cu por pó, mas era boato, sei lá... Lindomar me contou que ele se juntou num quarto numa zona e morava lá de favor/pena.
Não foi o pó que acabou com ele. Fui eu.
O pó que me ajuda a viver nessa vida fudida, que me ajuda a trampar, a segurar meu filho, a dar um beijo no marido, a aguentar as festinhas de firma, no happy hour, as reuniões de família e a seguir com o espetáculo interminável de aberrações. Eu acabei com a vida do filho-da-puta: a gente amava tudo aquilo, o pó e as viagens intermináveis, a busca pelo nosso Graal diário, mas ele só curtia a escalada de mãos dadas, correndo estalado de mãos dadas comigo e fingindo que a gente voava. A gente amava o pó e ele nos dava o melhor amor que a literatura, a poesia e o caralho jamais imaginou. A gente estava lado a lado naquela loucura.
Hoje, o que mantém viva são os meus filhos, mas eu preciso dessa porra ainda, Mallo…
Que pena. Eu acabei contigo.
A ironia das ironias. O sarcasmo do sarcasmo.
Ainda amo dar uns tiros, mas sempre quando tô lá, colocando a cabeça para trás em uma busca solitária pela primeira viagem num banheiro quando era adolescente, lembro da gente, da gente voando de mão dadas numa velocidade incrível, a sensação de altura…

E a vida nem foi cruel comigo...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

o olho (ingênuo) do observador

O olho do Observador, o olho gordo, cheio de veias pulsando, flutuando.
-Diga, mortal: possuis alguma virtude para ser digno de tal tesouro?
Pensou um pouco. Aqueles baús enormes à sua frente, moedas, armas e coroas reluzentes. Meio desleixado, meio jovem; os cabelos ralos na tenra idade; as costeletas grisalhas e a barba profusa davam um ar de sabedoria ao mancebo. Uma masmorra grotesca, úmida e pavorosa. Fora desbravada em três dias de lutas com criaturas dantescas e mortais. Pilhagens pífias.
Agora, o Observador desempenhava o seu melhor diante do jovem… E aguardava, impaciente, por uma resposta do aventureiro; a morte, claro, se aproximava com a aparição súbita do monstro lendário. O jovem sabia disso...
Quatro segundos. Seis. Doze. Diversos tentáculos, com olhos revoltosos nas extremidades, tremulavam de inquietação e piscavam freneticamente. Ao centro, a enorme córnea flutuante era incomodada por espasmos de ódio convulsivo.
Vinte olhos na cabeça.
Pulsando. Olhos. Inquietos com a demora da resposta. Um grito:
- Tenho tesão pela vida! O Observador se surpreendeu pelo grito inesperado do mortal, que continuou: - Gosto de sexo. Gosto de foder muitas mulheres, beber o melhor vinho, gostaria de ter muitos criados,  ter mais do que posso...
O jovem tremia. A confissão era patética, porém carregada de uma força estranha.
O Olho começava a carregar uma expressão inenarrável de desprezo.
Silêncio.
Por fim, devido à pressão, e à confissão mal acabada, terminou a sentença em um grito sufocado, nascido do horror de encarar o olho monstruoso – como se a morte fosse iminente e não houvesse outra saída; diria suas últimas palavras naquele lugar esquecido pela criação -, encheu os pulmões com convicção, força, e um ar de ousadia:
– Quero mais... cada vez mais!!
As últimas palavras do jovem ecoavam na solitude daqueles aposentos exalando a ossos e angústia.
O olho do Observador ficou ali. Ponderando. Amaldiçoando. O corpo enorme, uma massa confusa nascida dos pesadelos da magia arcana, flutuava lentamente agora.
Silêncio.
O Observador examinava o mortal; em um estilo bem peculiar e de um jeito sobrenatural; o que conferia uma excentricidade enigmática à criatura. Flutuou, de maneira trôpega, de modo que suas enormes veias vermelhas pulsaram por entre a massiva, e vítrea, córnea no movimento súbito. Flutuou de um lado a outro. Fitava o vazio.
Aquela resposta o incomodava. Era isso.
Por fim, como se tivesse braços imaginários, deu de ombros à sua maneira:
- Não sei o que dizer...
O jovem tremia de pavor.
O enorme olho piscou lentamente, fitando um ponto imaginário à esquerda, como se estivesse decepcionado. De forma tímida, proferiu num tom decepcionado e melancólico:
- ... a resposta foi incorreta...
O Observador não fitava o jovem diretamente. Aquele ar “inquisidor” do ser imemorial, e que colocou pavor e desespero a tantos aventureiros destemidos, estava obliterado por algo momentâneo.  Admitia – secretamente – àquele momento, uma emoção estranha às suas vivências e objetivos profanos de guardião. Aquele sentimento não era compatível à sua missão.
O jovem ficou apreensivo com a criatura nesse estado, pensou em desembainhar a pesada espada de duas mãos, mas o Olho seria mais rápido... “Devia ter levado uma adaga pontuda … Agora é tarde… Morrerei”
– ...está incorreta. sim, é isso...
O Olho suspirou diante da resposta que soava como confissão. O monstro vivenciava algo incongruente à sua natureza. As conjurações realizadas pelo seu mestre jamais poderiam prever tais atitudes e reflexões. O Observador perdia-se em questionamentos.
(...tarde, tarde demais....)
Continuava o Olho aterrador:
– mas.. devo admitir que... sua resposta foi incomum, aventureiro...
Silêncio. Constrangimento:
-... apreciei tua resposta, mortal.
O jovem ficou confuso.
-É...
O Olho, enorme, parecia até expressivo no "abre-fecha" de pálpebras:
-Permita-me indagar algo, jovem mortal... Peço a ti uma resposta, somente isso.
O jovem disse confuso e empolgado.
– S- sim!! O que quiser, amigo!
O olho, que não gostou nada da intimidade, disse:
-Não é para tanto... Não é para tanto...
Silêncio.
Tensão.
-Diga-me: se o que te moves é o sexo e a luxúria, um certo conforto, digamos... por favor, sacie a minha curiosidade: por que  buscas o tesouro nessa masmorra perigosa e abandonada pelo teu mundo? Por que buscas, no lugar mais inóspito da terra, o tesouro do meu mestre; se poderia gozar, lá fora, facilmente, da companhia de uma rapariga libidinosa e pilhagens que lhe garantiriam o conforto? Arriscas a tua vida aqui… Qual a determinação? O que te motiva? A morte? O desejo do perigo? Eu não compreendo suas motivações... Eu já vi o seu mundo, não é preciso muito para se contentar nele, isso é evidente; os homens parecem viver confortavelmente se possuem uma choupana aos pedaços com água à beira do rio, uma colheita com nabos malcheirosos e mulheres e filhos pendurados aos ombros e pés; como uma doença contagiosa proliferando, e sentenciando, implacavelmente, a tua gênese mortal... Mortais patéticos, submetem-se a todo tipo de sensação e, no âmago, são inferiores, sem complexidade alguma... Meu mestre, meu mestre...
O jovem o olhava atento e incerto. O Olho continuou:
-... meu mestre fez uso das artes arcanas, feitiços, runas e sacrifícios para o meu nascimento; a fim de proteger esse lugar... ele escondeu esse tesouro... talvez ele só quisesse me colocar aqui para criar mais terror e morte... por acaso ele pensou que precisaria de "mais" coroas? Mais joias? Ele precisava de mais mulheres? Por que me abandonaste aqui com esse propósito? Por poder? Pois já tinha o bastante, esse tesouro, conhecimento... Quanto é o bastante para o mortal?
O olho baixou a guarda. O silêncio invadia a sua mente de quimera, convulsa em questionamentos.
-.. diga-me.... por quê?? A última perguntou soou como uma súplica.
O jovem pensou. Olhava o desabafo do Observador desarmado...
Respirou fundo. O nervosismo. Por fim respondeu, desinibido:
- “Olho”, para gozar de tantas donzelas nesse mundo e ter o que almejo, há um elemento indispensável: é preciso moedas e posses; trocamos tudo isso por outras coisas, trabalhamos, é a nova forma de viver que inventaram... é o que fazemos lá fora, é um símbolo. Se trabalho, ganho uns poucos quinhões que troco por uma felicidade momentânea.. Se vou aos prostíbulos, gasto muitas moedas das pilhagens que faço. Se eu me tornar um nobre, um rei … O jovem olhava para o teto da masmorra, delirando: - ...serei um homem de posses! De castelos! Não precisarei trabalhar mais nos campos! Terei criados, colheitas! Tudo isso pela força de trabalho desses que se contentam com essa miséria que tu, Olho, ilustrou tão bem… eles multiplicarão a minha riqueza com as suas choupanas toscas à beira do rio!  Eu não sou herdeiro dos nobres! Eu sou mais um filho da miséria. Esses meus criados serão gratos pela miséria que possuem, e poderão trocar míseras moedas de cobre por leite e palha! Dessa forma, posso ter a mulher e o castelo que quiser, tudo, ao menor piscar de olhos! Posso ter o melhor guerreiro ao meu lado, de espada e elmo em prontidão para me defender. A melhor cama, comida! As moedas, as joias … tudo isso… é proporcionado aos homens, amigo. Poder, luxúria e uma sede de insaciabilidade. Cada vez mais, amigo. É para isso que os tesouros servem agora! Precisamos de mais, sempre mais... há homens lá fora, semelhantes demais, com pensamentos diversos, dispostos a tudo para isso; teu mestre, certamente...
O olho buscava o fim daquela sentença quase como uma súplica, uma misericórdia. O jovem continuou:
-... seu mestre, perdoe-me, Grande Olho... seu mestre, certamente, possui mais do que precisa, ele se diverte com a morte... talvez ele não precise de “tanto”, claro… mas há homens lá fora que precisam, que matariam teu mestre sem titubear para ter esse monte de ouro. Homens que fariam coisas piores do que a própria morte. Eu faria isso. Juro! Eu aceito a morte pelos meus propósitos porque a compensarei dez vezes mais caso viva. Quero essa posse (olhou à volta), quero tudo... Por isso foste invocado, amigo... para proteger estas posses, as coisas do seu mestre, esse tesouro inominável. Talvez ele, seu mestre, esteja morto agora … somente para isso… e das trevas observa o seu tesouro que produz tantas mortes... quiça, só por orgulho... nunca temos o bastante, Olho. Tudo mudou lá fora...
O Olho flutuou, meneando o estranho corpo numa expressão corporal inenarrável; apenas um enorme globo envolto por tez quase animalesca.
Uma casca enorme envolta em convulsa e incômoda resposta.
Fechou os olhos. Todos. Vinte.
Três segundos. Permaneceu flutuando. Inexpressivo. Por fim rompeu o silêncio da própria existência, semicerrava as enormes órbitas.
-Tudo bem... Não me chame mais de "amigo", entendido?!
Os tentáculos brilhavam sutilmente com eletricidade.
-S-sim..
Disse calmamente, em uma cortante sinceridade e determinação de morte.
-Se o disser de novo, ou me chamar de "Olho", sua pústula modorrenta, mato você lentamente, corto todos os seus membros. E depois o forço a assistir os trolls, e outras aberrações do mundo das trevas dessa masmorra, se alimentando da sua carne podre. Diga, "amigo" mais uma vez! Faça isso novamente, jovem! Faça... O Observador flutuou rapidamente para cima do aventureiro. Sua saliva ácida caía por entre os lábios tumorosos. Gritou novamente, expelindo ácido por todos os cantos. A fúria encarnada: - FAÇA! Eu o desafio, seu desgraçado insolente!!!
O jovem caiu no chão. O hálito do Observador causou um asco terrível no pobre jovem. Mijava-se por entre a cota de malha, pateticamente. Com muito custo, segurou um princípio de vômito com as mãos trêmulas.
O Observador gritou. Seus dentes e tentáculos brilhavam:
– Compreendes?!
– Sim – s- sim!!! Não, não digo mais. JAMAIS!
O enorme olho piscou de ódio, os tentáculos baixaram e murcharam tremulando por um momento. Um misto de ódio e incompreensão.
-Vai! Passa logo daqui, desgraçado! Levanta-te e carregue o que puder desses baús, leve esse seu cheiro de mijo, merda e carne para longe daqui! Você tem pouco tempo antes que eu mude de ideia.
O homem chorava de pavor. Começou a encher os bolsos e sacos com moedas de ouro; principiou a arrastar uma enorme arca com uma das mãos; e com a outra, movia um enorme trono encrustado com joias e brilhantes. Desajeitado, e com a adrenalina e o pavor pulsantes do momento, conseguia levar uma enorme quantidade de tesouro em direção à saída da masmorra. Produzia uma hercúlea força nascida do desespero.
O Observador o assediava, provocava. Enquanto o homem chorava e gritava de força inumana, arrastando os pertences adquiridos; próxima, a criatura flutuava a seu lado, exibindo os enormes dentes que salivavam ácido; os tentáculos, com diversos olhos nas extremidades, tocavam suavemente os cabelos do homem enquanto este se afastava cada vez mais rápido com o hálito de morte do monstro:
– Já me encheste com  a sua pilhéria do mundo dos homens! Com a sua sabedoria de merda! Fique rico, poderoso, foda todas as mulheres, crianças e homens que quiseres... mas lembre-se, invólucro de merda: o "Olho", seu maldito saco de carne e ossos, fará uma visita quando tiveres êxito... o "Olho" espera ser muito bem recebido pelo mortal travestido de nobreza. O Olho, mortal patético, fará uma visita: não como "amigo", mas como inquisidor, entende? A cada "amigo" e "olho" que proferia, a criatura espumava de ódio e sarcasmo. O mortal, cansado e prostrado de medo, respondeu:
-S-S-S-Siiiim!!
Continuou. Implacável.
-O “Olho” tem a curiosidade "mórbida" de saber se o tesouro está sendo usado para fins de corrupção e depravação, como bem defendeste aqui nesse antro de morte e aberração mundanas. Entendido?!
O jovem chorava de alegria. Meneou com a cabeça.
-Vá! Corra com o seu tesouro e saia daqui o mais rápido que puder, seu invólucro de carne repugnante!
O jovem se foi. O Olho o observou. Arrastava o tesouro e resfolegava pateticamente. Jogava o corpo por cima das arcas, e exibia uma força inesperada. A luz da tocha, amarrada ao seu corpo, afastava-se lentamente entre os aposentos e morcegos da masmorra. Por fim, desapareceu da frente do Observador...
Restava o olho do Observador. Perdido. Brilhando na masmorra escura.
Olhos. Olhos nas trevas eternas de sua função... Desempenhara, até então, o seu melhor na penumbra. Basicamente, era o que fazia melhor durante eras, e com muita competência: observava, refletia, e ponderava. Feito isso, interrompia todo e qualquer pulso vital. Sua missão.
...
Um silêncio perturbador o tomou pela primeira vez naquela masmorra. O silêncio, esse tão apreciado e velho companheiro, agora o assaltava com aguda insistência... A consciência o perturbava.
Ali, pela primeira vez, na masmorra úmida e amaldiçoada, pensou que, talvez, poderia melhorar o seu senso crítico de monstro, e inferir outros significados ao propósito das posses que era guardião. Diálogos do poder.
Solidão.
Trevas nas masmorras.
Algumas centelhas, tímidas, de filosofia e metafísica invadiam aquele calabouço repleto de joias, ouro abundante e espadas mágicas imemoriais. Os morcegos e criaturas não o incomodavam há tempos. Afinal, era uma aberração que reinava absoluta naquele lugar. Um adversário invencível. O Observador ponderava, questionava. Pensava em sua missão durante aqueles anos incontáveis. Olhou, e à sua volta só havia tesouros e posses.
Ficou pensativo na resposta do homem; aquilo provocara alguma coisa naquele velho ser imemorial das trevas.
O Olho observou pela primeira vez a sua condição social nessa Idade das Trevas.
Saiu dali, determinado. Cruzou o caminho por entre diversos corpos de homens e monstros em direção à entrada da masmorra. Ossos, só isso. O que significavam? Aliás, o que significava a sua existência? "Questões", pensava enojado enquanto a luz tomava o horizonte. A entrada. Uma visão inédita. A porta pesada de mármore, entreaberta, contendo escritas rúnicas, convidando os aventureiros à morte desesperadora e solitária.
O enorme olho central semicerrava a visão; assim como os demais vinte, menores... Os tentáculos se retraíam. A luz do sol, cortante, obliterava a imponência dos múltiplos olhos, habituados às trevas e solidão. O mundo exterior, odiado por ele com todas as forças demoníacas, estava mudado. Castelos, colheitas e vilas eram avistados ao horizonte. Pastos verdejantes. Gados.
O jovem o vencera ali. Embora não soubesse ao certo como isso tinha acontecido, a certeza da derrota era uma emoção nova e inquietante.
Porém, ele, o Observador, alcançaria mais. Muito mais.
"Mais". Era grato pelo maldito saco de carne de qualquer forma... A gratidão era acompanhada de um desdém igualmente profundo pelo ser humano. Sorriu.
Uma lágrima nascia. Descia por entre a enorme córnea. Agora, àquele momento, sonhava com destruição, mutilações e reinos monstruosos; em triturar ossos e buscar “mais”.
"Cada vez mais".
As palavras retumbavam. Sentia a carne em seu corpo. Todas as células e átomos. Um certo tipo de orgulho odioso. Da magia à carne. Finalmente... "Um destino irônico".
Suspirou. A lágrima, que escorria lentamente durante tal epifania, salgada e ácida, cortou a tez escamosa e repugnante em seu trajeto; deixando uma cicatriz enorme que percorria da enorme órbita vítrea central até o lábio superior retorcido. O olho esticou a língua por entre os lábios queimados. O sabor amargo da lágrima o deliciava. Queimava. Sentiu o gosto de algo, finalmente.
Era sublime. Tudo.
Entre tantas aberrações fora da masmorra, talvez, com aquele tesouro, poderia ser mais uma entre tantas quimeras.

– Malditos sacos de carnes…

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

last train to coney

Isso é absurdo. E é uma pena. É um infortúnio, meu irmão…

E pensar que a vida toda estivemos aqui, diversas vezes, tilintando nossas cabeças nos trens da central, pensando numa morte mais rápida entre o trajeto arrastado ou numa forma criativa de inteirar a passagem para a volta... Buscando na memória (enquanto a cabeça vai batendo no vidro ou enquanto seguramos nas barras) a fagulha de um sorriso perdido na boca de uma garota linda enquanto mordiscávamos um cachorro quente na fila da roda gigante ou uma briga gloriosa consentida pela inconsequência – sempre! – sob a ultraviolência necessária daquelas noites...

Ah, o conforto do devaneio... de não dever nada a essa pintura em uma moldura torta em uma parede chamada ______; ah, a bem-vinda alienação de sentar em uma mesa sem telefones espertos; somente a cerveja despejada nos copos de requeijão, e um bocado de inconsequência para distrair os nossos ouvidos e algumas risadas que serão sufocadas entre alguns suspiros matutinos. Ergamos nossos pulsos enfurecidos! E enquanto isso, o mundo gira e voltamos para a casa mais vivos; cuspindo sangue, com navalhas nos bolsos furados e dentes no travesseiro, dormindo (perdidos) entre a ponte dos nossos sonhos.

É bom se sentir vivo (e fudido ao mesmo tempo), com a indignação brotando em nossa alma como metástases benignas; contaminando o nosso corpo por inteiro e recrudescendo à nossa origem contestadora; aos nossos corações que insistem em gritar, bradar ao mundo aquela corrente de vômito engasgada que despejaremos numa boca de lobo dia desses! Cada vez mais vivos, sempre.

Foi naquela vez que nós, os esquecidos, atravessamos a cidade com os olhos da criança aprisionada e que gritava desesperada de dentro da nossa caveira dolorida e assalariada; os rebentos da noite morrendo entre as desilusões das nossas mães tristes que imploravam para não verem nossos nomes no obituário ou no caderno policial; o último ato da vida em uma performance mortal. Lutávamos para manter o ar dentro do peito acumulado; brigando e batendo um nos outros para aprender – de forma dura – que a vida é uma travessia dura entre as quebradas mais improváveis.

Bem-vindos, Guerreiros!
O último trem para Coney Island está passando.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

adágio, neon

Eu apoio meu queixo sobre os ombros dela. Sinto, desconfio, que todas as respirações – e contrações futuras – serão mais excruciantes. Demoradas. Nos olhamos e, pela última vez, temos a secreta e inexaurível angústia/certeza que o destino nos separará de forma cruel. Implacável.
Foi assim, desta forma vim parar nesta cidade. Como um pedinte, um mendigo que busca de bairro em bairro, cidade-cidade, um canto distante do inferno; onde – ao menos – pode-se fechar os olhos sem se preocupar em ser espancado ou cuspido.
A distância, lá atrás, era um problema. Hoje, é uma benção.
O último níquel foi gasto na pinga mais vagabunda da história. Nunca fui muito chegado a esse veneno, mas a trajetória  à frente faz você ser mais humilde e esperar menos das coisas; dito isso (e engolido o álcool), tomei rumo às ruínas de um lugar engolido pelo tempo e pelo desastre das políticas públicas inefetivas. Ali, naquele lugar, o vento era carregado de ferrugem das caixas de azeite de um porto que já foi próspero; onde homens tinham empregos e orgulho das coisas tolas e as crianças viviam correndo entre as gaivotas que planavam brincando com o vento. Vejo que ali, mais ao centro da orla central, há uma praça e a última inscrição em spray neon de um profeta que deixou ali uma lembrança:
“Adágio, lento e inebriante ao movimento das cordas”
Hoje – após o colapso – aquela cidade devorou-se a si própria. Entre dejetos, animais, salários-mínimos e bonecas quebradas; expeliu qualquer traço do homem e nada mais esperava da carne. Consumia a poeira, (e dela) vivia uma nova síntese da vida: ali se criara, corroendo o casco de navios, casas e latões; como que num câncer ferroso que engole a tudo e todos numa fome insaciável. Essa era a vingança da cidade contra os homens. Sua sina era consumir. Devolver.
Essa era a cidade que chamei de “lar” após a longa despedida. Entre o cheiro de perfume e abraço com gosto de café.
O tempo – inominável – plantou algo em mim. E dentre todas as casas abandonadas, nenhuma me aprazia. Depois de deitar em todas as casas imundas, decidi que não teria uma morada fixa. Em muitas casas eu reinaria, em muitas casas, eu, o homem, deixaria o seu traço torto; contaminando e envenenando – novamente – o excesso ferroso da miséria que assolou aquele canto esquecido por deus. A angústia ainda mora em mim. O adeus reencenado.
A poeira engoliu.
Eu seria o vírus. A metástase.
No entanto, aquele recanto dos prostrados me acolheu de forma inesperada; e como um pai leproso, beijou o filho mirrado e famélico com suas pústulas e tumores à mostra. Acolheu-me e estendeu generosamente o seu dom funesto ao primogênito original. Era como uma brisa ferrosa e asquerosa sussurrasse em meus ouvidos, e me conferisse uma críptica mensagem dizendo que os seus domínios deveriam ser “desbravados”.
Engoliríamos o mundo.
Engolfaríamos as ruas com o cheiro da brisa leve da chuva e todo o ar seria leve. A água salgada começava a me acompanhar, banhando os meus pés para onde eu caminhava. Os pés nus, ordenados pelo instinto, pelo sussurro da cidade. Eu cairia e me jogaria como a uma criança em suas algas, afogando entre o sal; abençoei as águas quando entrou no meio da cidade e encontrou-me no meio da avenida com os seus tumbleweeds de jornais que anunciavam o suicídio de Getúlio, a cachorra espacial Laika ou as notícias garrafais do conflito armado em Saturno. A areia banhava as tiras das minhas sandálias, engolindo toda essa sujeira e degeneração do mundo, outrora, dos homens.
Disse-me:
-Seguiremos. Juntos.
Eu caminhei, e o ar ferroso  e o oceano pútrido eram os meus asseclas. As crianças corriam quando nos avistavam, os animais se debatiam freneticamente e os homens perdiam algo fisiológico ao nosso lento – e inevitável – encontro. O rastro do mar e o meu passo eram incansáveis.
Andamos, e o mundo todo era aquela cidade; de uma província  veio outro mundo de concreto e não aturamos mais o barulho. Depois de tantas visões, sussurros e trevas; a imensidão aquática engolfou o longo caminho e já não havia mais nada. As casas, todas elas, eram o recanto. Meu.
Todas as casas.
Todas as moradas me acolheram. E todas, sem nenhuma exceção, eram a composição do ar e mar que banhava os meus pés.
Eu cheguei ao meio do mundo e continuei. Oceanos. Ilhas. Ruínas.
O mundo era o meu lar. E eu o abençoava. Acolheu-me de tal forma que quis me dar às extensões divinas. Minha dor – a dor do homem que pousou e nunca mais a viu num abraço de morte e despedida – era o bálsamo do sopro de vida para aquelas águas e ela, de uma forma sombria, cedeu o seu poder sem pedir nada.
No entanto, os pés cansaram.
O mundo acabou. Tantos gritos, máquina e concreto abaixo das águas. Nossas águas.
Os pés cansaram quando cheguei novamente à praça. O sangue se unia ao sal. A cidade estaria ali. Intocável.
Lá estava uma figura.
Ela acenou.
Ela chorava.
Lá estava ela.
Eu a abracei e disse:
-Amor, você não sabe o quanto andei para te encontrar.
Ela me beijou nos lábios. Cheiro de café, leve e sutil. Disse, sorrindo:
-Eu sei sim. Agora o mundo é nosso. Jamais nos separaremos.
Duas almas se beijaram no mar lodoso em algum confim do universo.
Todas as moradas eram nossas.
E, do poder da destruição das almas, sempre algo mais indomável se criaria.
Nos beijamos. Os corpos.

E eu apoiei meu queixo sobre o ombro dela.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

quarto vazio

Desceu as escadas. Suas mãos deslizavam pelos corredores sem tinta. O prédio era pequeno. BNH, aluguel razoável. Despreocupado. Mastigava chiclete. Pulava os lances da escada. Três pequenos andares. Logo, chegou ao destino. Mulecada brincando com cachorro. Pega-pega. Grades à sua volta. Gritaria estridente. O lixo ficava num quartinho cheio de moscas. Camisinhas no chão. Vassouras. Brincou que era um astronauta. No lixo do prédio, crateras. O espaço, imundícies. Desbravava. A prima veio atrás, curiosa. Ele era tímido. Ela era esperta e vivaz. Eram jovens. Eram crianças. Eram nada mais que vidas em contínuo e desesperado desenrolar de acontecimentos interessantes, povoados de dias longos e todas as situações insólitas e fascinantes que jamais viveriam novamente; eram duas crianças, filhos de pais que eram irmãos de sangue, que se odiavam secretamente e que praticavam o estranho  - e sagrado -  direito de crescer, trabalhar, odiar e ensinar a ingratidão e indiferença a seus filhos. Crianças. Eram filhos de pais separados, que eram irmãos, que não eram muito próximos e não deram as mãos no leito morte da mãe ou do pai; o pai de um deles era um bêbado, o outro era apático e frio. Eram pais que não tinham laços. O astronauta. A menina esperta. O lixo. O quarto.

Somente um fragmento perdido no tempo.
A prima nunca conseguiu brincar com o primo.
O astronauta preferia voos introspectivos e era pouco versado na arte da companhia.
A espertinha, com sardinhas e um gorro vermelho, era brilhante. E – estranhamente – era apaixonada pelo primo. Ambos com oito anos.
Só viram o beijo pelos atores da TV.
Só viram as pessoas pelas grades.
Assistiram, impassíveis, diversas reuniões de família sem perceberem o quanto eram indesejados no mundo.
Um quarto vazio cheio de lixo virava exploração.
Um garoto entediado, para ela,  era um amor retocado pela incompreensão e afeto juvenis.
Eram recortes, vidas que davam um tempo, sacolejavam entre dias estranhos e gritos sufocados nos telefones celulares dos pais; sobre risadas nervosas de bêbados em festas de família e, ocasionalmente, o afeto de estranhos que os amavam mais que tudo na vida. Mas eles jamais saberiam de tudo isso em um quarto do prédio cheio de lixo, sêmen, baratas pequenininhas e todas as revistas Veja recortadas e despejadas no lixo.
O astronauta.
A garota esperta, curiosa.
Naquele ano se separaram: um foi para o interior e outro para um bairro mais pobre.
Um era do interior.
O outro da periferia.
Escola boa, escola pobre.

Dez anos depois se encontraram numa festa de família.
O astronauta, um garoto igualmente entediado que repetira 3 vezes o ensino médio e via os amigos irem para a faculdade; e a garota esperta, trabalhadora, recepcionista em uma escola de natação e estudante de Biblioteconomia à noite.
Não tinham mais nada em comum.
Nem mesmo o quarto.
Ela o achava feio.
Ele achava que a prima era a garota mais linda do mundo.
Eles se separaram sem trocar uma palavra ao outro naquela noite.
Ele aprendeu a sufocar os desejos, os sonhos, e a conviver com a excruciante e sufocadora existência sem brilhantismo ou os amores violentos dos poetas suicidas.
Ela era grande demais para o pequeno. Viveu mais do que podia.
Aos vinte e nove anos, a garota esperta estava em um ônibus voltando das compras para o seu pequeno empreendimento de abrir um sebo quando um tiroteio na rua começou. Bala perdida, alojada no crânio, entrou pela têmpora esquerda, perda de massa encefálica.
Duraria horas. Hospital.
Ele não pôde ir ao enterro.
Fumou um cigarro. Chorou.
Pensou no quarto de lixo e todo o amor que não teve dela ou do mundo.
Virou as costas, pegou sua mochila e entrou em um ônibus para nunca mais voltar a essa cidade cheia de lixo, camisinhas e memórias imundas.
Jamais foi visto. Não importa o seu destino, não importa o que ele se tornou, não nos interessa se foi bem-sucedido na vida, se teve posses ou se teve muitas mulheres...
Ele saiu daquele quarto para sempre. Não era mais criança, não sabia mais como extrair beleza dos lugares feios.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

o horror cósmico extradimensional assola o terceiro mundo

Noite de 22 de setembro de 1992. Dez horas da noite. Campo minado da periferia.
Um despertar confuso. Vozes e sussurros difusos pelas esquinas sem lixeiras. Caos e cacofonia no blecaute paulistano,  aonde só ouvimos os gritos e cânticos que despertam o Alfa em ondas cerebrais minimamente calibradas para o retorno do eterno monstro que descansa nas profundezas.
Eis o nome entoado. Imemorial. Tevês quebradas, monitores com estática, o pulso eletromagnético das trevas reduz às migalhas todo o avanço tecnológico que o homem se vangloriava; meros passos confusos rumo à incompreensão da mortalidade: não há nenhum programa no ar, nem mesmo a trilha sonora  de músicas repetidas da novela ou do jornalista burguês vociferando contra a classe trabalhadora; e eu, um mero proletário, um funcionário de uma loja de departamentos que deixará um Mega Drive como herança, acompanho o fim derradeiro da humanidade pela janela da minha casa alugada, e é lindo: os enormes tentáculos descendo como uma horda de anjos enfurecidos e engolfando os prédios do conglomerado financeiro da Avenida Paulista,  rachando o Masp ao meio.
Não há resistência. Estamos encantados, ébrios com a ideia da destruição do conceito da humanidade e ansiamos pela nova concepção do renascimento cósmico.
Não ofereço resistência e me permito ao delírio. O grito da turba com raiva que esmigalha cérebros, ossos e patas é inimaginável. Estamos a um passo do último suspiro da  última criança nascida no parto do fim do mundo: grávidas que deixaram a sua prole no chão imundo e manchado da noite dos Antigos; riem da insanidade e tampouco se importam com o mínimo impulso moral ou o resquício do que chamávamos de “comportamento”. O recém-nascido e o horror da imagem refletida numa poça de um buraco que jamais foi tapado pela Prefeitura.
Mas já estávamos acostumados a isso. É o que a Luz dos Tentáculos nos transmite, traduz, converte aos que ousam ver:  uma visão tão clara que nos sentimos leves. Uma promessa tão intensa e tão sincera, que é quase como a promessa do Céu que não tivemos em nossas prestações eternas em 120 vezes pela moradia.
O último homem a morrer não se importou com nada. Nem mesmo com a honra de ser o último a cair no chão mal pavimentado do terceiro mundo onde tantos pereceram. Esse homem... sou eu.
Hoje, faço parte de algum lugar com barulhos de vento, poeira e a desolação das estrelas...