terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

a morte do século (ou "o que eu fiz nas férias")

não estamos mais aqui.
na verdade, resta pouco. arrumem suas malas,
queimem seus cartões de crédito.
alinhem os quadros na parede pela última vez, crianças.
guardem os cadernos de receitas da mamãe no baú e saiam às ruas, como antigamente saíamos para admirar o pôr do sol na praça ou a passagem do circo na cidade e, garanto, verão um espetáculo singular: o meu corpo caído na rua, desacordado, mijado, cagado e cheio de chagas de um amor não curado. aninhem-se, pois eu prefiro ser admirado na minha decadência do que ser ignorado no esquecimento. pena nada, só memória, gente...
naquele dia, as crianças jogaram bola na rua e me deixaram ser uma das traves do futebol que rolava na rua da feira. o problema é que os carros passavam rápido, e elas gritavam “carro!“ e saiam do caminho cordialmente: e eu continuava parado, com orgulho, como a trave direita do time da rua de cima. intacto, sem dignidade, mas sorrindo. os carros contornavam o meu corpo jovem, franzino.
naquele dia.
naquele dia. naquele dia, a previsão do tempo foi cruel e disse, sem pesar, que ia chover granizo e eu fiquei lá, um corpo endurecido na praça pelo frio, úmido, os dedos sujos, a bermuda imunda e toda chance de redenção estaria dias à frente. uma senhora me jogou um cobertor e disse para eu ficar com deus. a redenção estava...
(adiantemos o bendito dia, o dia em questão, da redenção)
era um homem livre; na verdade; eu sou um homem livre. eu caminho pelas ruas sem ter que pegar ônibus ou bater cartão de ponto. naquele dia, um cachorro me acompanhou até a minha casa. eu disse:
-mãe, eu vou tomar um banho.
ela só me olhou. eu tava bem sujo. o cachorro atrás de mim. acho que a minha mãe chorou, sei lá. a vó, que não mexia um músculo desde o último derrame ocorrido na época em que a Laika foi para a lua, a avó doída e velha me acompanhou com os olhos. eu voltei, abri a porta do banheiro (e elas ali, só de olho) me viram pegando o cachorro. carreguei o vira-lata nos braços.
a gente tomou banho junto. o pelo sujo, uma corrente de sujeira pelo ralo, o sangue sujo da navalha social de Norman Bates escoava. xampu no totó.

no dia seguinte, eu acordei e fui para a escola. meu pai chegava de carro de manhã e me ofereceu uma carona.
“pai, a gente tem um cachorro em casa!”
ele descia a Raposo num carro do ano.
“que bom, filho”, não disse mais nenhuma palavra.
na escola, as coisas foram ótimas. eu amo a professora, ela é linda. entreguei a redação sobre os meus dias de alcoolismo e indigência na puberdade. ela leu na minha frente. palavras sobre os dias de trave na rua e carros passando em alta velocidade, dias de pedrinha de gelo.
ela disse que eu escrevia bem, que eu seria um ótimo escritor de ficção. achou bonitinho.
ela achava que era mentira, que era “ficção”. 
e na verdade era tudo mentira. isso era o mais legal, ser mentira.
eu dei o nome do meu texto de “a morte do século”; ela achou profundo; mas, na verdade, nem eu sabia o que aquilo significava; meu pai me dizia: “Carlos, você tem que estudar muito, filho, e elogiar as mulheres, sempre, e em todas as hipóteses, tentar parecer interessante dizendo coisas sem sentido e que vem na cabeça”. isso fazia muito sentido, pois tentar falar algo linear e racional me parecia idiota nos dias de hoje. e sempre elogiar as mulheres era algo que eu sempre fazia, pois parecia tão óbvio, sendo tão bonitas e com olhos tão brilhantes. eu amava as gordas, as magrinhas, as meninas com xampu de maçã verde na carteira da frente, as meninas de Adidas falso correndo em volta da escola de manhã na educação física, as meninas arrumando o cabelo e tomando sopa no recreio, colando papel de carta colorido nas pastas...meu pai me dizia muitas coisas e, que sorte, elas faziam sentido afinal de contas!.
(na verdade o tema da redação era “o que eu fiz nas férias”.)
mais uma mentira em texto. 
tínhamos tantas mentiras de verdade, gente que se esforçava em ser o que não é nas histórias. gente que dizia que sofreu muito, que passou perrengue, que juntou salário, gente que dizia que entendia o amor e amava a todos, gente que falava bonito, que dizia que era contra a violência e preconceito. "o problema é que as pessoas tomam a mentira como verdade, filho", minha professora linda me disse que eu seria um ótimo escritor de ficção e eu a amava por isso. sonhava com ela, casaria com ela quando crescer. eu escrevia mentiras, jamais quis que elas fossem verdade; desse jeito, elas seriam mais fortes e falariam mais de mim, não o contrário. do moleque do poste, dos meus sonhos, toda essa coisa que eu não sou e anseio em ser.
o cachorro me esperava em casa. ele estava perdido, era só isso. surgiu a história desse jeito, na inspiração estranha, os moleques jogando bola na hora que o cachorro me olhou, perdido. eu escrevi tudo aquilo. minha mãe só me deixou ficar com o cachorro depois de muita briga. ele tomou banho na mangueira na calçada da rua. balançou bastante o rabinho com a água caindo no pelo sujo. me lambia. eu sorria.
e eu fui lá na rua onde tombei por dias na ficção da redação da escola de férias, e joguei flores nos quintais daquela gente tão humilde e esquecida. cão perdido, anúncio no poste, criança doente. disse adeus para o cão e o devolvi ao seu dono. talvez uma criança sorrisse com o cãozinho em casa balançado o rabo bem limpinho com banho de mangueira.
eu não estava lá naqueles dias em que cheirei benzina e tomei uma bebida forte de um garrafão com uma caveira com ossos cruzados na chuva. eu perdi uma coisa que eu nem tinha e só escrevia… comecei a escrever minha redação de férias.
era fácil de entender:
eu odiava a humanidade
hoje,
com tudo isso acontecendo,

eu só tenho uma raivinha...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

a turba

O grito da turba. Enfurecida, incontrolável e indomável.
-Mata! Vagabundo!
Um homem baixo, atarracado, gritava e implorava por clemência.  Acuado, o pequeno homem convulsionava de terror e transpirava no enxofre do calor do meio-dia. Entre foices, tochas e raquetes-elétricas-mata-mosquito; o pobre diabo rogava por sua vida miserável entre um cerco policial e a turba; os homens da lei esboçaram um sorriso, e exibiam o chamado “meliante” às presas sedentas dos espectadores mais exaltados: essas divindades onipresentes e ávidas pela ordem e bom senso da cidade. 
Durante o caminho até a viatura, os policiais conduziram o homem de forma orgulhosa e firme. Mata-leão, imobilizado, “mão para trás, porra”. Escoltavam o homem. Ansiavam, secretamente, que talvez não poderiam conter a população entre o trajeto até a viatura.
Ouvimos um estampido. Foi muito rápido. Um “pá”.
Seco, grave e retumbante no tímpano*.
(*)
!
Armas são puxadas. Senhoras colocam as mãos ao peito. Crianças se assustam entre as pernas dos adultos. Câmeras, celulares empunhados. Estão chutando a cara do homem cercado, os policiais empunham suas armas e dão tiros pro alto. O tenente grita:
-Já era. Deixa o lixo pro povo.
Mataram um homem entre pontapés, socos e peixeiradas. O SAMU chegou atrasado. O homem era suspeito de roubar e agredir uma senhora na Sta Efigênia, era o que diziam. Os policiais que imobilizaram o pequeno homem (com aquele mata-leão bem justo), carregavam mais de 35 mortes entre os ombros como quimeras vigilantes. O sangue ficou, escureceu no asfalto depois de um tempo.
– Joga Coca-Cola que sai, moço! – alguém gritou para o gari.
O povo. O povo era virgem e inocente, até então ...
As telas pixeladas iluminavam os  asfaltos coagulados do Centro através de uma vitrine imponente e bem organizada; exibiam as imagens do incidente em 45” Full HD de imagens bem nítidas 1080p; a edição do programa era única e tinha um propósito: desencadeava um processo ritualístico de transmutação aos olhos precoces e infantes da massa disforme (e monstruosa) chamada “Turba” - esse coletivo incógnito dos pesadelos – que, impassível, assistia ao jornal do meio-dia. Estava ali, percorrendo os olhos sobre as cenas do assassinato enquanto almoçava e, inevitavelmente, memórias coletivas da criatura vinham à tona em torrentes massivas de violência e senso de justiça inflamado; bombardeando violentamente o cérebro policéfalo e dantesco da entidade. Imagens; imagens indescritíveis que jamais deveriam vir à tona, compartilhadas e difundidas a todos os componentes daquela consciência coletiva e vigilante. Mastigava a comida lentamente. Já não resta mais inocência à turba, já não restam mais imagens chocantes a esses olhos condicionados, já não resta paz entre os que descansam…


Todos nós somos assassinos. Sem exceções. Eu e tu, e o rabo do tatu.


* = (O estampido, ouvido lá antes, no começo do tumulto, era uma bombinha. Uma criança a acendeu para assustar os amigos que se acocoravam entre as pernas dos adultos. O resto era resto.).

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

a máscara dos algozes

-Você está abdicando da minha proteção, Pierre?
Houve hesitação.
-Responda, por favor, Pierre … eu concedo o seu direito de resposta, dou a minha permissão para se expressar melhor, livremente, e esclarecer o que acaba de iniciar... Seja claro e cristalino como a água, filho.
Hesitação? Não, não houve, não … o homem – dessa vez – disse decidido:
-Gostaria que Vossa Eminência não interpretasse dessa forma, mas creio que significaria o mesmo, não?
Silêncio. Dois segundos. Continuou:
– Sim, devo dizer que estou saindo desse feudo para me dedicar a outras aspirações. Em suma, sim, estou abdicando da proteção e dos serviços que prestei à Coroa e aos campos.
Incompreensão sincera da parte do nobre.
Ao ouvir a declaração breve, sucinta e determinada de Pierre, o Cardeal não pôde evitar a realização involuntária de um antigo ritual: espontaneamente, começou a passar o anel da sua mão direita nos lábios; o acessório reluzente era parte de sua herança: o próprio Papa dera à sua tataravó como retribuição aos serviços de Deus. Lábios secos tocavam o metal dourado. Era uma espécie de “tique”, um espasmo involuntário que denunciava sua natureza, quando o silêncio da sua indecisão não se proferia em palavras. O anel gélido tocava os seus lábios. Por fim, saciando suas inclinações e, decididamente, incomodado, decidiu falar em um tom mais inquisidor:
-Pierre, diga-me, criatura: o que fará nesse mundo assolado por pestes e outras guerras entre a Coroa? E quanto a outros perigos? Como os infiéis?! Eu protejo a sua família, eu os resguardo, eu os protejo da guerra, e dos infortúnios da vida! Não tens plantação? Alimentação, trabalho e outros confortos negados a qualquer mortal fora desse domínio ?!
Mais uma pergunta. Mais uma.
Não, o Cardeal se deu por satisfeito na sua retórica. O anel brilhava, uma pequena fresta de luz invadia a sala.
Pierre o olhou profundamente, sem desviar os olhos:
-Tenho isso, tenho tudo isso... contudo, o fruto do meu trabalho serve somente para enriquecer o senhor e à Coroa, e não à minha família! Vossa Eminência não consegue escutar os lamentos da boca faminta da minha pequena Marie, que chora ao relento, doente de fome pelas madrugadas.! Vossa Eminência, sou um escravo, seu escravo, um homem que serve somente para ajudá-lo a ascender e enriquecer junto à Coroa: sou escravo do Cardeal Artaud. Na minha casa, estamos presos a esse domínio e não vemos o horizonte por trás desses muros. Meu pai morreu da mesma forma, pobre, trancafiado entre os muros e a guerra! Não desejo mais isso para meus filhos ou a mim mesmo! Eu já servi à Coroa! Já paguei os meus tributos! Servi aos propósitos e fui abençoado na própria Terra Santa pela glória da conquista e de Deus! Por favor, reconheça os meus serviços, Cardeal! Reconheça os meus feitos e conceda a benção da liberdade à minha família! Eu reconheço a vossa misericórdia!!
Pierre gritou ao final. Do lado de fora do castelo, os criados se entreolhavam e os guardas estavam atentos nos corredores.
O nobre sorriu, em um misto de escárnio e surpresa pela coragem do homem. Ou melhor, o escravo.
Silêncio.
-Pierre, eu admiro a sua coragem; talvez o seu futuro fosse mesmo nas Armas, e, quiçá, sua vida estivesse melhor nas campanhas que fizemos na Terra Sagrada em vez dos campos... retificarei aqui esse erro diante do semblante límpido de Deus; reconhecendo que, sem dúvida, o campo possui essa maldição... torna os homens cada vez mais preguiçosos e ociosos. O campo infecta a sua classe, vocês estão infectados! São tomados por pensamentos impuros quando estão longe da guerra ou dos propósitos da Coroa, ou melhor… quando estão distantes de Deus! O campo deveria ser somente um lugar para crianças e mulheres, e, como disse, esse foi o meu erro: colocá-lo de volta à banalidade de uma vida mundana! Você é um homem da guerra! Eu o deixei voltar com a sua família! Nenhum homem aqui nessas terras teve essa benção!! Precisamos de homens corajosos o suficiente para pegar em armas contras os infiéis, porém, não tolos o suficiente para desafiar com insolência seus mestres numa hora crucial!! Ingrato!
O eco pelas muralhas. O Cardeal prosseguiu:
– Mas … como eu disse antes, Pierre... hei de retificar esse erro agora! Guardas!!
Um comboio que fazia turno no gabinete externo do Cardeal adentrou a sala como um relâmpago. Cavaleiros empunhavam lanças enormes e afiadas como os dentes pontiagudos de Cerberus.
-Levem esse homem à masmorra. Amanhã de manhã ele será decapitado como exemplo a todos! Eu sou um homem justo! Justo! E não vou tolerar esse tipo de levante ou qualquer motim nas terras do Senhor! Leve a família dele às prisões  para morrer com os plebeus e os infiéis exilados nas trevas!
Pierre permaneceu no mesmo lugar, tranquilo. Ele sorria amargamente. Os homens, irmãos de armas, perplexos, não entendiam porque o bom Pierre deveria ser executado. Suas mãos eram atadas e colocadas contra a cabeça com violência.
-Homens, eu sou acusado de trair meu Senhor. Sou culpado deste crime, reconheço, mas esse homem enriquece às nossas custas com o nosso trabalho, submete nossas mulheres a trabalhos braçais intermináveis e a favores sexuais às escuras; todos sabem disso! Força nossas filhas a uma infância trancada, escravas dos campos e dos nobres que as violam à noite; nós, homens comuns, vivemos sem amigos, sem esperança, sem cultura! Somos subservientes e aceitamos essas condições! Sabem disso, não ?! Onde está esse Senhor e sua bondade?! Onde está a Terra Santa banhada com o sangue e crânios rachados de milhares de homens que eu matei com a minha espada? Homens de Deus também, eles eram pais! Pais, com mulheres à espera como vós!
Os homens o empurravam, perplexos com aquelas palavras. Em silêncio. Lanças cruzavam o seu pescoço à maneira da tradição militar da academia de Versailles.
-Sabem disso, não?
Gritou. Não houve resposta dos guardas.
-Malditos! Vocês sabem disso! Sabem melhor do que qualquer um!!

Na execução, Pierre gritou o mesmo protesto enquanto sua cabeça era colocada na guilhotina.
-Sabem que somos escravos, não? Não sabes, irmão Gerard? Por trás dessa máscara negra, sabes disso!!
Gerard era o seu melhor amigo. Em horas infelizes era o carrasco, pois era solteiro e testemunhara quimeras horríveis como pesadelos nas empreitadas nas terras infiéis. Era o seu amigo, companheiro de bebida e de lembranças de guerra. Trajava uma máscara horrenda de pano negro e seus olhos fitavam as lâminas afiadas e os olhos do amigo.
Puxou a corda.
Recolheu a cabeça do amigo que sangrava pouco. Sempre se impressionava com isso, com o fato de que o corte bem rente no pescoço provocava pouco sangramento nas ligações.
Enquanto estava prostrado e aguardando a lâmina, Pierre pensou na sua bela mulher viúva e na pequena Marie. Um sorriso lhe veio à face antes do derradeiro fim. O último grito que Pierre dera era o mesmo. Sobre todos serem injustiçados.
No fundo, alguns sabiam que isso era a mais cristalina verdade. Outros discordavam, beijando o anel papal do Cardeal. Alguns sabiam, outros não. O senhor do castelo prevalecia, levando o seu povo a crer que era o eleito para protegê-los, ainda que contra a vontade deles, os homens e mulheres se ajoelhavam a seus pés;  e quem era Pierre para contestar que a sua representatividade era inefetiva? Quem era aquele homem?
“Pierre era só um homem”, refletiu o Cardeal olhando a cabeça cortada de Pierre. Um só homem no meio de tantos, que beijam o anel do senhor do castelo. Ele não era nada, ele não contava. Ele era, afinal, só isso: um homem!
“Mas, talvez, secretamente, ele poderia se tornar o herói daquela gente suja e maltrapilha...”
Por um minuto, no âmago da sua indiferença,  o senhor do castelo ponderou que talvez a sua ajuda fosse prejudicial, que, quiçá, naquela praça teria auxiliado um mártir a forjar a sua própria derrocada...
..mas não.
Beijou o anel da sua mão. Ele precisava. Reconforto. Paz novamente. Era o mês de maio e todas as suas vontades seriam atendidas, pois o povo estava do seu lado.
Novamente, o silêncio tomou a praça com o final da execução e a vida seguia normalmente.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

comercial de margarina

Agora. Oito e meia da noite. Cenário: uma sala de estar. Sofá, mesinha de vidro no centro, toalhinha, tevê na estante e umas fotos espalhadas sobre um móvel achado na rua. Um quadro pendurado na parede, abstrato e exageradamente colorido. Personagens: Marília (Má) e Lara. A primeira tem 25 anos e a outra, 28; Marília, a dona da casa e da sala de estar, acabou de pintar o cabelo de uma cor experimental e Lara passou lá para ver a novidade e aprovar, tomar uma cerveja e falar besteira depois do trabalho. Marília está desempregada: trabalhava em um escritório de advocacia com pesquisa e, ocasionalmente, ajudava com os contatos com os clientes; foi mandada embora após 3 anos em um estágio que se estendeu longe demais. Lara faz edição de vídeo de um programa de muito sucesso na tevê paga e consegue pagar as contas com uma bela sobra. As duas, senhoras e senhores, neste exato momento, discutiam sobre o preço da bondade e seu efeito na humanidade. Não era uma reflexão profunda como o tópico da noite sugeria: apenas um monte de observações e algumas frivolidades entrecortadas com álcool. Ambas estão sentadas no sofá, e está passando na tevê uma série sobre uma família de anões. Marília adora o programa, e Lara fica dividida sobre a qualidade desse “entretenimento” (aspas dela), ou se as tomadas favorecem a edição/se o roteiro acaba valorizando a “intenção” do programa. Marília falava sobre a bondade e felicidade enquanto observava o programa, e soltava comentários sobre as imagens de uma antiga tevê de tubo.
– Anõezinhos e anãzinhas... tão fofinhos!
– Pegaria, Lara?
– Não, para …. tudo tem limite … depois do que eu já passei com gente mimada, acho que me lembrariam uma criança, sei lá … Seria estranho trepar, né?! Como será que...
...
Marília riu. Era sexta-feira e as duas não se importavam nem um pouco em ter que ficar em casa bebendo e vendo tevê/discutindo assuntos aleatórios.
– Esse casal é meio bizarro, né? Os filhos são bonitinhos, acho que vão se dar bem, se pá …
– Má, qualquer um se dá bem nessa brincadeira, qualquer um se arruma, mas precisa ter a vontade de se dar bem, né? Esse povo que fica reclamando “que quer um amor, que quer dormir de conchinha” e fica em balada ruim, com música ruim, de sexta a sexta, gritando um na orelha do outro e conversando sobre um monte de besteiras tem que tá a fim disso... esse tipo de gente jamais quis encontrar um amor ou porra nenhuma, para arrumar alguém só tem que ter um pouco de "cojones" e estar a fim disso; ficar indo em balada barulhenta dando beijinho e trepando ocasionalmente é meio que uma escolha neutra. Já fiz muito isso, e tava ok no momento. Se todo mundo tá de boa assim, deveriam se aceitar, e não há nada trágico nisso... agora, filha, não fica reclamando pras “amiga” no Face postando fotinho de coitadinha se você não quer isso… até uma anãzinha, qualquer uma pode se arrumar, poxa... mas precisa estar disposta a isso.
Marília ficou pensativa.
Lara cortou o silêncio, dando um gole na cerveja.
– Precisa ter saco, coragem para amar alguém, para assumir isso... Pra buscar isso. É uma escolha. Uma escolha foda se pá...
Marília jogou a cabeça para trás. Apoiava o peso no sofá.
– Acha que eu me “arrumo”, Lara? Eu não quero no momento, sério, não quero ninguém; não quero trepar, não quero beijar, não quero Tinder apitando, gente me mandando mensagem a toda hora; eu tô a fim disso, sabe, de ficar de boa…
– E eu respeito! Porra, se respeito! E eu estou completamente bêbada... As duas riram muito. Lara continuou: – Essa é a tua escolha, porra! Você tá ótima, todo mundo fica falando que você tá bonita, tá mais sorridente, mas isso um dia passa da forma que você decidir… agora essa autopiedade de todo mundo me enche o saco! - Lara estava indignada.
Marília riu.
-Eu acho que me arrumo, mas acho que eu sou muito "boazinha"; a merda sempre ronda a gente, Lara. Sempre.
-O que quer dizer com isso? Que você é tão cheia de virtude que é incompreendida? Para com isso, Má! A gente é tão tosca, zuada, e cheia de defeitos como todos; a bondade é o quê?! “Ser fiel, ser correta, filantrópica, dar esmola”?! Isso tudo é indiferente, não conta ponto em nada; sabe o porquê? Porque essa tabela não existe!
Marília levantou.
– Quer outra cerveja?
– Ãhan…
A família discutia. Anões discutiam.
– Eles querem ser felizes. - disse Marília da cozinha
– Eu acho que eles são… - Lara disse baixinho no sofá; olhava os anões sentados na mesa e comendo um jantar farto.
Marília voltou.
– Toma! – jogou a latinha.
– Opa.
Barulho de latinha abrindo.
Olharam o casal dando lições de moral aos filhos.
– Será que todo mundo vai ser feliz nesse mundo, Lara? Porque, sério, olhando esse programa de anões, eu acho que eles são felizes, sim, mas não me parece que o mundo, o pessoal que trabalhava comigo, minha mãe, o tiozinho do dog da faculdade… sei lá, eu não sei o que é essa porra de felicidade que tanto falam. Eu acho que a felicidade é tipo um câncer que te come e te faz arreganhar a boca e dar risada de qualquer questão idiota.
Lara riu.
– Você tinha que ver a sua cara agora, olhando para um ponto imaginário lá naquele quadro horroroso e divagando “esses anões são foda demais e a humanidade é uma bosta”. Foi muito bom!
As duas riram. Ficaram em silêncio.
A TV despejava um monte de coisas sobre anões e família.
– Lara, eu acho que a gente é amiga, que a gente dá risada de um monte de coisa que só a gente riria … e isso é um pequeno pedaço do paraíso vindo numa prestação que vai demorar para fazer sentido, que é a felicidade que tanto falam em comercial de manteiga…
-Manteiga, não! Margarina, por favor.
Deram mais uma risada se entreolhando. Riam de besteiras.
– Mari, a vida é isso: esse monte de gente falando sobre a felicidade e a gente assistindo no sofá; a pergunta é: "você quer ser essa família"?
Silêncio.
Marília olhou para baixo e respondeu.
-Não agora.
-Nem eu.
Olharam a vida da família de anões e ficaram em silêncio durante um bom tempo. Depois disso, voltaram a falar sobre frivolidades. Num dado ponto da noite, Lara decidiu ir embora. 1 e meia da manhã. Marília chamou um táxi para Lara. Se despediram.
– Um beijo, sua depressiva-admiradora-de-anões!
– Um beijo, sua dissimulada metida a Mestre Miyagi.
A sala vazia.
A TV ligada pela madrugada.
Um silêncio.
O quadro horroroso.
Marília suspirou.
Subiu ao quarto com uma cerveja na mão. Ligou a pequena TV. Barulho de estática, não tinha TV a cabo no quarto; lembrou que a antena quebrou e precisava comprar outra. Desligou o controle remoto. Um silêncio absurdo. De repente tudo tava tão esquisito. Apertou o botão do celular e ligou a lanterna; iluminou todo o quarto. Riu um pouco da cena, da luz iluminando aqueles móveis, das sombras. Continuou bebendo sua cerveja deitada na cama. Depois de um tempo, a lanterna do celular apagou. Tudo parecia melhor assim...
Continuou bebendo mais algumas latas. Na cama. Só pensava. Lá fora uns barulhos de garrafas contra a parede, um estrondo distante, gatos no cio...
Ligou o celular e digitou uma mensagem.
“Lara, eu te amo. Sempre te amei.”
Depois apagou a mensagem.
– Não agora, agora não…

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

mallo e mauzinha

– por 10 gramas o bagulho vai, a noite estica, filha.
(ele tava a fim de ir, tava na pegada de seguir à noite, então fomos lá naquela porra de festa zuada de sempre do Tino e a partir dessa frase do Mallo, a gente seguiu atrás de um pó; e fazer o quê? era o tal do Zeigeist, era o que a gente buscava na hora. era a nossa pegada)
– eu sei lá, eu quero sair correndo, voando por essa rua, Mauzinha!
(e a gente pulava os degraus de mão dadas, eu amava ele pra caralho, ele me dizia toda hora que eu era linda; porra, a gente dava as mãos, saía sorrindo à noite naquela pegada de chegar mais rápido na festa!)
-o Tino tá aí, Bezerro?
(Tino curtiu com a gente, e a gente já tinha o que queria, a bucha; Mallo pegou mais grana emprestada e a gente pegou um táxi; entramos com cuidado pelo quintal e seguimos para o nosso quarto; cheiramos tudo e era bom demais, não vou negar e foda-se; muitos morreram, muitos morrerão com essa porra, vão perder uma pá de coisas, mas a parada é que se pudéssemos congelar aquele momento no tempo; lá estava eu e meu amor de mãos dadas, voando os degraus pela noite e juntos na doideira: durma com esse barulho, imagem da felicidade distorcida da sociedade!; a trepada às vezes era boa, e às vezes era uma merda. depois que eu fui perceber, descobrimos que não havia esse “amor”, sabe? gostávamos da coca, depois disso – dessa maldita confissão consentida e mútua – ficou mais fácil curtir um pó, porra; era isso, a gente se sustentava, aturava; se gostava)
-Mauzinha, vamos comer um pastel? Mó fome, tem feira hoje, amor!
(levantamos, e aquilo era uma dica para levantar e começar a nossa busca pelo Santo Graal, tomamos umas cervejas que sobraram de outro dia, demos as mãos e saímos; pastel e caldo de cana de mãos dadas pela feira, um monte de gente dando um salve pra gente)
-Mauzinha, o Tygra me deu um vidrinho, filha! Porra, o pessoal é bom comigo, meu deus! Que fartura!
(vagabundo adulava o Mallo porque ele era uma boa companhia, tinha respeito por ele, e mesmo quando tava bicudão tentava ao máximo não deixar ninguém se fuder no meio da noite: pagava táxi, protegia o pessoal de treta errada nas festas quando um se estranhava com o outro, buscava o pessoal na delegacia e pegava a causa para ele; dessa forma, ele cuidava de casos até de graça; o pessoal da grandona foi subindo e prestigiavam o Mallo muitas vezes; a gente nunca ficava sem pó ou dinheiro; diziam que "o muleque era foda"; "ele livrava toda a rapa")
– Ó, o Lindomar me ligou agora e disse para a gente colar lá.
(e a gente ia. sem tempo ruim, eu tô dizendo que era bom pra caralho e não vou cair nessa de arrependidinha de Cristo sendo escrota com o mundo e pregando o arco-íris; hipocrisia não é comigo: a porra da branquinha me proporcionou os melhores anos da minha vida e eu ia garantir uma boa quantidade de memórias por m² até quando puder)
- Mauzinha, o Lindomar tá ali te esperando, vamos colar lá hoje também?
(a gente trocava de namorado umas vezes e tava tudo de boa; um dia esse Lindomar, amigo de rua do Mallo, disse que me achava mó tesão e tal; e esse cara tinha uma mina bem branquinha, chamada Felícia, linda; os dois combinaram esse lance de menáge e o caralho e o lance é que eu não gostei de chupar buceta, mas até topava trepar de vez em quando com o Lindomar; o Mallo curtia a Felícia, ficava lá depois me dizendo o que fez com ela e eu dava risada; depois da primeira vez a gente fazia esse lance raramente, só para renovar o repertório. todo mundo ficava feliz e gente renovava o estoque)
– Mais uma coleta, filha!
(dez gramas, depois das cinco a gente ficava empolgado, era o que o Mallo dizia de fazer um combo do Street Fighter: juntar umas duas coletas, três; o foda é que negócio um dia ia acabar, eu corria contra o tempo para salvar mais tempo)
– Vamos pegar um táxi e vamos pra Lapa? Tá rolando um Psy, trance e tal, filha.
(a gente ia, som de merda, gente chata… voávamos pro samba e pro buteco e destilávamos umas da Alcione, do Cartola e tudo se purificava; a gente se revezava indo pro banheiro, na pegada e no combo)
-Mauzinha, eu te amo!
(e eu acreditava)
– Vamos voar!
(demos as mãos e sobrevoamos as casas, na pegada de chegar logo em casa)
– Mauzinha, eu tenho uma coisa para te contar, filha…
(ele me pareceu estranho, parou a nossa corrida para casa, ainda segurava minha mão, parava de correr, estaladão daquele jeito, até deu para ver algo por trás daquela máscara que era sério)
-Mau… Mauzinha (segurou o meu rosto delicadamente) eu vou parar com essa porra de vida. Eu não aguento mais…
(ele começou; me disse que todos os parentes estavam na cola dele, que já tinham manjado toda aquela parada nas festas e que ele não conseguia nem disfarçar mais, que segurava os sobrinhos estalado e aquilo não agradava os irmãos, que em todas as fotos de família ele tava bicudão, acelerado no turbo, dando B.O, que achavam que ele tinha um futuro no escritório de advocacia, que queriam montar uma parceria com ele, alugar um lugar para ele trabalhar)
-Mauzinha, por favor… Faz isso comigo…
(ele me disse com a maior sinceridade… eu o amava, mas como eu disse, vi tudo aquilo desmoronar porque a gente não era de aceitar opinião de quem tava de fora, de gente que tenta dizer o que temos que fazer; disse para ele mandar todo mundo à puta que pariu, para nos mudarmos e seguir uma vida nova)
-Mau… esse bagulho tá acabando comigo…
(eu fiquei com raiva dele, saí correndo para longe xingando ele de filho da puta e o caralho; eu, na verdade, achava cedo demais pro show acabar, pro bar fechar, pra pista ser interditada… eu só queria dar um tiro, levantar a cabeça para trás em busca daquela cheirada que me elevou… que mudou a minha vida, que foi a melhor cheirada do mundo: quando um carinha que me pegava no banheiro me apresentou o pó, eu tinha dezenove anos, tava numa festa em casa de prima; depois daquela porra, tudo tava certo e eu buscava sempre aquela sensação de altura, de leveza, de tudo que eu não tinha sentido até aquela noite no banheiro; eu buscava aquele tiro, perfeito, até hoje; e eu tinha conseguido viver a minha vida assim sem ter que dar satisfações para ninguém… Mallo … nos conhecemos num boteco lá na Vila e ele tinha me olhado a noite toda, me acompanhou até lá fora quando entrei no táxi, esticou a mão pelo vidro e me deu um guardanapo com o seu número do celular e e-mail, escreveu embaixo “você é a menina mais linda que eu já vi, adorei o jeito que toma cerveja e fuma, e levanta a cabeça soltando fumaça com insolência; deixa eu te ver mais”: ele me ganhou naquela noite, e eu sabia que ele cheirava e foi perfeito até agora...eu achava que ele me traia agindo daquele jeito, com aquele papo de “vamos arrumar nossa vida, se limpar, trabalhar das seis às cinco da tarde, pagar aluguel e assistir sessão na matinê”... uma bela de uma decepção...saí chorando, larguei ele com aquele papo de bosta…. e ele foi atrás de mim… gritei, fiz escândalo na rua e chamei um táxi, e quando ele veio conversar comigo, dizendo que queria explicar, que tinha que fazer isso comigo, que não conseguiria sem mim, eu disse pro motorista do táxi que parou que aquele cara tava tentando me estuprar.. o cara puxou uma arma do bolso da jaqueta e disse para ele se afastar… deu um tiro no pé do Mallo... ele caiu, segurando o pé, estava inconsolável, chorou, e sentou na sarjeta e me olhou indo embora no táxi… eu ri com ele segurando o pé e se contorcendo… eu dei um sorriso vendo aquela cena… ele ali, pela janela, todo sem dignidade… o motorista me olhou e gargalhou, disse que tinha que andar com cano, que a profissão tinha disso, depois puxou mais papo e eu cedi, andamos pela cidade; ele passou a mão na minha coxa e o resto era história)
A voz de Mallo nunca mais existiu nessa história.
Fiquei sabendo que ele se mudou depois disso. Que tentou se limpar, mas a nóia tava muito brava, que via bicho de noite, achava que tinha gente indo atrás dele cobrando dinheiro, e uma pá de vozes que não sabia mais o que era real, fiquei até sabendo que numa dessas ele começou a se prostituir, dar o cu por pó, mas era boato, sei lá... Lindomar me contou que ele se juntou num quarto numa zona e morava lá de favor/pena.
Não foi o pó que acabou com ele. Fui eu.
O pó que me ajuda a viver nessa vida fudida, que me ajuda a trampar, a segurar meu filho, a dar um beijo no marido, a aguentar as festinhas de firma, no happy hour, as reuniões de família e a seguir com o espetáculo interminável de aberrações. Eu acabei com a vida do filho-da-puta: a gente amava tudo aquilo, o pó e as viagens intermináveis, a busca pelo nosso Graal diário, mas ele só curtia a escalada de mãos dadas, correndo estalado de mãos dadas comigo e fingindo que a gente voava. A gente amava o pó e ele nos dava o melhor amor que a literatura, a poesia e o caralho jamais imaginou. A gente estava lado a lado naquela loucura.
Hoje, o que mantém viva são os meus filhos, mas eu preciso dessa porra ainda, Mallo…
Que pena. Eu acabei contigo.
A ironia das ironias. O sarcasmo do sarcasmo.
Ainda amo dar uns tiros, mas sempre quando tô lá, colocando a cabeça para trás em uma busca solitária pela primeira viagem num banheiro quando era adolescente, lembro da gente, da gente voando de mão dadas numa velocidade incrível, a sensação de altura…

E a vida nem foi cruel comigo...