quinta-feira, 30 de agosto de 2007

sunday morning coming down

Meu tio morreu no bar.Era domingo e ele tinha ido ver os compadres e tomar uma cervejinha de manhã.Tinha um time de várzea que ele gostava de ver enquanto o mundo todo tava na missa, mas eu não sei se o time ia jogar naquela manhã em que ele morreu.Gostaria de perguntar para ele.Ele bebia tranquilo .
Meu tio Tonhão, ele era foda...
Eu e ele protagonizamos uma viagem para Mongaguá que estará impressa na minha memória para sempre, aquela foi a minha road-trip que me definiu como homem e as nossas conversas sobre mulheres serão inesquecíveis.
Ele sempre ligava em casa e quando eu pegava o telefone era impossível não reconhecer sua voz grave (uma voz muito foda, era o nosso Johnny Cash) e aquele tom" E o nosso Parmera?" era inconfundível: quando entrei no Segundo Grau minha voz começou a ficar bem grossa e eu gostei quando uma menina me perguntou na escadaria do Alves se eu tinha bronquite e porque falava tão grave, se a minha voz já era grossa eu imaginava que ela ficaria igual a voz do meu Tio Tonho, sentia que estava no caminho...
Acho que eu era só um adolescente e todos mudavam suas vozes, menina.
Uma vez ele passou em casa depois do trabalho como taxista e foi uma tarde tomar chá com a gente lá na Vila.Que saudade de você, tio.Fazia sol naquele dia e eu me lembro do reflexo que batia no chão da sala pela janela, da gente assistindo aquela tevê enorme de antiga que minha mãe ganhou de uma patroa com a imagem embaçada pelo sol e a sua expressão era a de um homem que fazia tudo na vida pelo tesão e jamais mudaria; eu não tive muitas figuras masculinas paternas e fui crescendo como aquele pão caseiro que a gente faz em casa e nunca fica do tamanho e forma que a gente quer (sai todo torto e imperfeito), não tive isso na adolescência , mas tive o senhor, mesmo que ausente às vezes para me inspirar e escrevendo essa porra começo a chorar pensando que sempre ninguém acreditou no senhor, que era tido com um gauche que vivia flanando em empregos e andanças para lugares que ninguém sabia e eu que fazia e ainda faço o mesmo, não tenho vergonha de também o ser; o senhor foi uma das poucas pessoas livres que conheci na minha vida e eu gostaria de ser livre um dia como você foi .O senhor era incorruptível e uma vez me disseram que eu também era...
Ele era livre.
Quando eu era pequeno encontrei num velho armário um monte de recortes de jornais: eu estava procurando um jornalzinho que tinha uma matéria minha quando ganhei um prêmio por uma pintura sobre o trânsito, desenhei um semáforozinho tosco com as cores verde, vermelho a amarelo certinhas e um guardinha.Incrivelmente foi o segundo melhor desenho que fiz na minha vida e ganhei uma coisa por ele (sei lá o que era...) tamanha era a ocasião especial e incomum.
Fuçando aquele monte de jornais amarelos e mofados encontrei tantas coisas e até então a minha favorita era a história de um crime (eu era um muleque fudido obcecado com histórias e filmes de crimes; não mudou muito...), tinha um recorte de um cara que era um irmão de um traficante das antigas chamado Bonecão, foi assassinado com dezenas de facadas perto do bar que a minha vó tinha (ducaralho pensar que morei praticamente num boteco) em frente em casa .Eu sabia essa estória decor e acumulei muitos detalhes.
Mexendo nos recortes policiais que eu adorava, encontrei um em particular meio escondido, enfiado em baixo do papel do forro .
-Mãe quem é esse cara que tá preso?
E minha mãe me falou com muita pausa naquele tom que a gente encontra às vezes na vida e separam o que é mundo e o que é inocência, como aqueles separadores de livros enormes e verdes que tinham na velha biblioteca que eu flanava minhas tardes que ninguém sabia onde eu estava.O meu momento Kodak.
Meu tio pegou cana sim e a bronca dele eu não vou falar, tampouco vem ao caso.Ninguém sabe o que é ser enjaulado e ter sua jega até estar lá, fácil é dizer que todo mundo lá não presta e deve ser queimado e exterminado enquanto você pega um busão cheio de gente igual a você e se ilude que tem uma vida digna, assiste o Datena na sua tevê antiga e tem a consciência de que as pessoas do busão são diferentes de você; sim seja o contente dessa sociedade fudida que quer o seu consentimento para enfiar uma trave de futebol inteira no seu cu ao som de carnaval, imagens de Carmen Miranda e (ah!) uma faixa para você colocar no peito em verde e amarelo "Sou brasileiro e não desisto nunca".
Nelsão já dizia: "toda unanimidade é burrra".Meu tio gostava dele.
Na cadeia tem gente ruim e gente boa, tem de inocente a sangue ruim filho-da-puta que se orgulha do que fez , tem aqueles que pedem licença ao entrar na casa nova e aqueles "coitados" que roubam para comer com vergonha de entrar e medo na primeira noite, outros estupram e matam crianças, outros são estuprados lá mesmo, tem velho e muleque: os piores e os melhores num mundo em miniatura e grades .No busão também tem, no meu trampo, na sua faculdade, ao seu lado, nos motéis e em casas que imprimem papéis.Só que eles não estão presos.Serão um dia , talvez não...
Meu tio foi uma das melhores almas que já viveram.
Quando eu tinha 15 anos queria ficar longe de uma desgraça que aconteceu comigo e implorei que queria ir para Mongaguá e ver um lugar diferente na minha vida (foi a primeira vez que cresci), e ele estava comigo, andamos tanto pelas ruas a flanarmos juntos como Che e Granado em nossas motos fudidas de chinelo nessa road trip dos meus quinze anos, era o meu baile de formatura; vimos o senhor Manfrini que morria lentamente com câncer a contar suas estórias impressionantes de boxe e a jovem filha bonita dele que me olhava de vez em quando por essas tardes; lembro daquelas cervejas em casa embaixo da pia com as tampas enferrujadas e minha vó disse que elas tinham vencido e ele sacou essa:
-Mãe, cerveja não estraga não!Onde já se viu dizer que cerveja tem prazo de validade!!
E bebemos a nossa cerveja com um certo gosto metálico e delicioso.
A semana passada fez um ano que ele faleceu: exatamente dois anos após a minha tia Áurea também se despedir do mundo (falo dela um outro dia).Minha prima Tati (filha dela) que me encontrava num enterro a segunda vez seguida me disse:
-É, parece que a gente só vai se se ver agora nesse lugar...
Eu a abracei forte e não consegui falar nada.A mãe, o pai dela e o tio se foram.Mesmo cemitério.
Meu tio lá no caixão...
Eu segurei as suas mão frias e disse uma coisa em seus ouvidos.
Carreguei o seu caixão.Carreguei o da minha tia também e carregarei o de quem for importante na minha vida: ninguém pode me roubar o amor e respeito que tenho pelas pessoas que me inspiram nessa porra de vida, é a única coisa que não depende de empregador, carimbos ou protocolos, mesmo que isso seja unilateral.Carrego caixões.Bebo em nome deles e delas no boteco da esquina e levanto o copo em reconhecimento.Faço um toast silencioso.Tardes e noites que ninguém sabe para onde vou.
E lá se foi o meu tio enterrado no chão de covas abertas a céu aberto na terra marrom umas ao lado das outras, sem mármore ou criptas memoráveis: só uma plaquinha com o seu nome para não rezarem ou cuspirem pro corpo errado sob o vento de um quase meio-dia estranho.Cachorros dormiam no cemitério com as cabeças nas guias como travesseiros, eles pareciam tão tranquilos ...
Esses dias o meu pai me disse que teria acompanhar a exumação do corpo da minha tia para colocarem os ossos em gavetas do cemitério.O mesmo cemitério, pois as covas no chão são quase ocupadas diariamente e tem que se ceder lugar para outros.Minha mãe disse:
-Ai, credo!Deus me livre!
No carro ele me disse:
-Arthur, é uma coisa que todos pensam que é horrível, mas queria te dizer que todo mundo devia fazer.
Lançou essas palavras pelo ar e eu o olhei para ver o que queria dizer, como eu devia ter feito um dia quando era criança e não entendia.Olhar curioso de quem saber as coisas estranhas do mundo e ser fudido.Ele explicou:
-Eu fui na exumação do meu pai.E no meio daquele fedor do caralho, um monte de ossos e trapos eu vi que o meu pai não era aquele monte de sujeira: eu sabia que meu pai não era aquilo.
Eu balancei a cabeça.
É...
Meu tio sabia que meu pai um dia voltaria para ter esses papos que ninguém quer ter comigo hoje.
Ele era um membro do Clã Petrone, pai da Magali: negra mais linda do mundo, um palmeirense doente e apaixonado, um amante que sabia tanto de mulheres e o mundo da dor, viveu sozinho como quis e viu mais coisas do que devia e colecionava revistas relacionadas a assuntos variados de política, samba, futebol desde os anos 50, tinha quase todas as revistas da extinta revista Manchete.Eu herdei a sua coleção e para qualquer um pode ser um monte de revistas velhas guardadas num plástico em meu armário com mais filmes e livros que roupas, mas para mim é ele :meu tio Tonhão.
Esse que como Johnny Cash andou numa calçada de domingo de manhã para o Bar, que ia pegar mais uma cerveja para a sobremesa e se foi.Os amigos gritavam emocionados para a sua cova, faziam confissões "Antônio se foi ...meu amigo !E a nossa cerveja? eu vou tomar, fica tranquilo".
Eu te amo, tio: o senhor era incorruptível.

" On a Sunday morning sidewalk,
I'm wishing, Lord, that I was stoned.
'Cause there's something in a Sunday
That makes a body feel alone.
And there's nothing short a' dying
That's half as lonesome as the sound
Of the sleeping city sidewalk
And Sunday morning coming down."

-Pai, quando você verá os ossos?Eu vou também, é nóis...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

ozu-sanma no anji(1962)


Esse filme de Ozu é de uma beleza alcóolica inebriante: cervejas, copos, sakê e a sua vida sobre risadas de canto de boca quase tristes, o olhar para o fundo do copo e idas e vindas nos bares e casas de amigos; a rotina que definitivamente tem o seu encanto nesse filme de Ozu.
Ao sentar na cadeira do Centro Cultural e ver cores na tela é um coisa curiosa e quase que chocante após todos esses dias vendo os clássicos em duas, três sessões uma após a outra.Você pensa: "tomara que não seja um filme ruim de Ozu" porque você associa o preto e branco a tudo de bom desses mestres orientais, chega até a pensar que não deve ver mais filmes coloridos e que chegando na locadora a primeira coisa que irá fazer será rever "O Sabotador",na minha opinião um dos melhores filmes de Hitchcock...
E lá está Ozu em seu último filme em vida: morreria um ano depois depois de realizar esse seu " A rotina tem seu encanto" retratando os primeiros passos da gigante Tokyo em seu momento-feto regado aos neons (tímidos) apocalípticos que iriam inspirar o estilo do futuro-cyberpunk visto em "Blade Runner.
É o pós-guerra retratado de uma forma natural e cotidiana pela lente de Ozu no seu estilo inconfundível; tanto que após ver os filmes desse cineastas tão distintos você já sabe quem é Ozu ou Mizoguchi só pelas imagens iniciais.
Hinayama (Chisu Ryu, preferido de Ozu) é um velho viúvo pai de três filhos e ex-militar que leva uma vida aparentemente tranquila com os filhos mais novos: a sua filha Michiko está com 24 anos e cuida do irmão mais novo e do pai.
Uma reunião com velhos amigos de colégio irá colocar Hinayama em contato com muitas coisas alheias a ele: idas e vindas regadas a muito sakê lhe fazem reencontrar o velho professor da turma o famoso"Cabaça", um velho triste que agora vive de fazer noodle em sua humilde casa; os velhos companheiros se sentem mal por ver o velho mestre numa situação tão desconfortável depois da guerra e passam a chamá-lo para as bebedeiras quase que diárias.
Hinayama anda por aí...
Encontra pelos bares um velho conhecido de guerra que o apresenta a um bar estranho que coloca marchinhas militares a pedido dele, os dois se sentam no balcão e conversam sobre um mundo esquecido e doloroso para a história japonesa de uma forma divertida e angustiada.Tem uma cena maravilhosa onde os dois enchendo o caneco ponderam porque o Japão perdeu e o amigo de Hinayama diz :
-Estamos aqui bebendo whisky e tomando coisas que eles tomam ...E se o Japão ganhasse ?Estariam lá as americanas: usando perucas, mascando chiclete e tocando shamisen pelas ruas de NY...
Hinayama pára e diz :
-Bem, então foi melhor termos perdido mesmo!
E os dois riem .O cinema hollywoodiano jamais trataria uma tragédia como essa de uma forma tão descontraída e realista.Ainda mais depois de tão pouco tempo o Japão ter levado uma bomba atômica na cara, depois de serem escurraçados do Vietnam o cinema deles se ocupou em criar heróis em resgates sensacionais dessa guerra como se nada tivesse acontecido...
Vendo a vida de seu velho professor que numa noite triste de bebedeira lhe confessa que o pior arrependimento de sua vida foi ter tolerado a filha cuidando dele e abdicando da própria vida, Hinayama começa a entrar em crise e que talvez se torne um "Cabaça" se as coisas se acomodarem.O tema do casamento é uma constante em filmes de Ozu como o lindo "Pai e filha ", mas aqui ele não é carregado pela ótica do drama da filha e sim a do pai que entra numa crise existencial.
Existem sequências realmente hilárias e brilhantes e duas em particular mexeram comigo e o público (que compareceu em massa, eu achei demais a comunidade japonesa velhinha ter prestigiado):
-Num bar, Hinayama e seu amigo Shuzo Kawai bebem despreocupadamente quando a atendente pergunta onde está o outro amigo e sua jovem e recém esposa: durante o filme todo os dois tiram um sarro dele porque ele um dia vai morrer de trepar para dar conta do recado com uma mulher tão nova e exigente e que vive de "coleira curta" (o que meus amigos há um tempão atrás chamavam carinhosamente de "pussy control.) e bem, eles respondem para a atendente que estavam discutindo os detalhes do enterro!Que o amigo tinha batido as botas devido ao "trabalho duro"!E a mulher pergunta o porque !E começa a acreditar!Genial.
-Koichi, o filho mais velho de Hinayama tem um amigo,Miura, que quer lhe vender uns tacos usados.Um dia quando o pai descobre que Michiko nutre uma paixão secreta por Miura e lhe conta que o moço já estava comprometido mas que havia tentado arranjar um casamento para ela, a filha responde numa cena tocante diz "Pai, fico contente que você tenha perguntado para ele ."Hinayama pergunta se não estava triste: ela diz que não e sai sorrindo, o pai e o filho comemoram que ela tenha levado na boa.E logo em sequência desce o filho mais novo dizendo"Que aconteceu com ela?Porque tá lá em cima se despencando em lágrimas!"
Esse filme de Ozu se permite a um texto mais descontraído mas não se trata de uma comédia declarada: enquanto Hinayama vai descobrindo a verdade sobre o desapego e que quer um futuro bom para a sua filha antes que seja tarde, através de copos em lugares estranhos a gente que assiste vai descobrindo o que há por trás dessa rotina que parece que tudo está bem.E não se trata de um filme moralista sobre álcoolatras com lições bestas sobre os excessos, é sobre o desapego revelado através deles.O álcool profético.
É o que a gente vê em fundos de copos de cerveja pelos bares da cidade...
Hinayama olhando para o quarto da filha: cabides, ármários vazios.Solidão.Nenhuma palavra ou legenda: tudo traduzido pela lente de Ozu.
Depois de ver tanto sakê me deu vontade de tomar um e como já era tarde não dava para passar na Liberdade: passei no supermercado companheiro que me forneceu latões de Skol por 1,49 todos esses dias na volta para casa e procurei; encontrei uma linda garrafa de sakê com fotos de árvores de sakura na embalagem por 35 reais....
Melhor esperar a Liberdade.
Espere a primavera, Belmont...
Embriagado por Ozu: puta porre bom da porra.

sábado, 18 de agosto de 2007

mizoguchi-ugetsu monogatari(1953)


Se eu tivesse uma avó japonesa certamente a véia estaria comigo para assitir essa poesia de Mizoguchi que reúne tantos elementos clássicos de contos japoneses.E envolve um período fértil de histórias, que foi o período da guerra civil e aquela treta maldita entre Oda e Tokugawa.
Tinha um monte de gente na sessão e uns 30% eram velhinhos e eu achei isso ducaralho.
Estava um trânsito absurdo e mesmo com o "nosso corredor", levei uma hora e meia para chegar; quase perdi a sessão, mas a culpa não é da cerveja, desta vez não obaa-san...
Eu adorei esse filme: é tudo o que um grande japonês-bastardo que nem eu usou como referência até agora.Tudo o que se admira e leva como referência dos contos e filmes japoneses sobre samurais, demônios, kabuki, guerra e amores impossíveis está ali.
E mulheres fortes.As "quase" irmãs de Oharu-chan.
Esse é o lindo "Contos da lua vaga depois da chuva", famoso "Tales of Ugetsu " para os gringos e se eu não me engano (uma teoria minha), talvez seja um dos filmes mais populares de Mizoguchi fora do Japão, tamanha é a dedicação de palavras que os gringos dedicam a ele em suas resenhas.
Começa o filme.Bem lotado mesmo, eu gostei de ver gente assistindo essa mostra e prestigiando: uma das melhores aqui em Gotham City.
Mas não é que me senta um cara do meu lado com umas bostas de umas revistas no colo "Home Theater" e "Men´s health" e um saquinho infernal de sei lá o que era, se é amendoim ou algum grão que a Men´s Health disse para ele obter os seus músculos e corpo torneados.
Um saco infernal: um filme silencioso e permeado por imagens dos campos no início sem a guerra e com uma fotografia linda (uma das mais lindas que eu já vi.sério) e esse filho-da-puta- narcisista fazendo aquele barulho de plástico que ele sabe que incomoda naquele silêncio e então (como se fosse adiantar algo) começa a comer bem devagar!!!!Um saco que se desdobra em milhões da barulhos a cada movimento mínimo ao som de uma coletânea de "Os sons mais irritantes já criados no mundo".Uma tortura ele pegando um de cada vez esse saco infinito de culhões de hamster ou sei lá o que a "Mens´s Health" diz para se obter mais potência no sexo.Matéria da capa...
E mastiga lentamente, como se não fizese barulho aqueles culhões pequenos!
E o saco não acaba!É infinito!É um saco mágico das terras dos Homens-Saco feito magicamente para atormentar os malditos (que como eu) querem ver o filme!O saco dura o filme todo!E quando termina o filme o maldito ainda está com o saco na mão comendo!!Um saco do tamanho de um pacote de Stiksy!!!O Milagre da multiplicação do saco!!
Bem...
Que fique registrado que eu o odeio.
Esse filme é formado por dois contos japoneses e o mais genial é que eles são um só e independentes na narrativa: num vilarejo de trabalhadores humildes vivem Genjuro (Mori, fantástico), um talentoso artista da cerâmica que trabalha com sua esposa Miyagi e o pequeno Genichi.Esse é o casal que forma um dos contos.Ao lado vivem Tobei, um desempregado que sonha em ser samurai (cunhado de Genjuro e irmão de Miyagi) e sua esposa Ohama (fiquei impressionado com a beleza dessa ótima atriz chamada Mito Mitsuko).
Os dois casais são ligados obviamente pelos fortes laços de família e o trabalho.Enquanto Genjuro no início do filme vai para a cidade grande tentar vender suas obras e sustentar a família (e se dá bem nisso inicialmente), Tobei é um desajustado que quer se tornar samurai, mas não tem talento algum para isso e ignora a condição da esposa e os deveres, chega a fugir mas é humilhado pelos samurais que dizem a ele que "não passa de um mendigo e deve arrumar uma armadura e lança".
O início da separação entre o curioso grupo se dá com a guerra civil chegando ao vilarejo desses fudidos trabalhadores e suas pequenas plantações de arroz.A câmera de Mizoguchi "passeia", inspirada, mostra esse dois momentos (paz-guerra) com uma beleza ímpar, principalmente quando o exército de Shibata chega a vila e aquela paz que os próprios moradores sabiam que não ia durar muito é abalada: os momentos são mais cinzas, monocromáticos e se vê que é uma arte saber fazer um filme em preto e branco com um fotografia dessas.
O grupo foge deixando toda a produção que ia lhe garantir o sustento.Genjuro e Tobei (que firmaram um acordo de trabalharem juntos ), irão perder tudo e isso não pode acontecer, tanto que deixam muita lenha no forno para que as peças não fiquem inúteis.Quando o exército for embora, prosperarão.A guerra.
E esse grupo perambula fugindo da guerra, mas é inútil.Tobei ainda quer ser samurai: chega a roubar uma parte de armadura.Genjuro milagrosamente salva a sua produção de arte.Estaria tudo resolvido, mas na viagem que salvaria as suas vidas para a cidade, piratas atacam o mar e Genjuro resolve deixar a mulher em terra para salvar ela e o filho: iria sozinho para a cidade com Tobei e Ohama.
E fica a mulher com o filho, vivendo em escombros com cheiro de queimado.Com fome .
Tobei rouba o dinheiro da venda e foge para comprar uma armadura sem dor na consciência .
Ohama vai atrás do marido desesperada e acaba sendo estuprada por homens que depois de gozarem e se divertirem jogam umas moedas na cara dela.Vira puta.
Genjuro se apaixona pela Lady Wakasa.E vai viver com ela .
Esses personagens desgraçados perambulam pelo Japão com fumaça preta para todo o lado e se vê um mensagem bem clara: os homens pelos seus sonhos e ilusões (Tobei que quer ser samurai e Genjuro que esquece da mulher que está cuidando de seu filho e parte para comer a linda fantasma Wakasa).E as mulheres se fodem mais uma vez, um exército de Genis :Miyagi sendo saqueada e se escondendo mais que o Adriem Brody em "O Pianista" e Ohama virando puta e desgostosa com a vida.
Uma desgraceira só.Uma poesia dura e bela.Inspirada, a câmera passeando por essas vidas desajustadas e separadas pela guerra.
Minhas cenas favoritas:
-Genjuro quando percebe que há algo errado em seu amor por Wakasa, encontra um monge exorcista que "tattooa" com kanjis várias rezas e selamentos para acabar com a ilusão.Eu achei muito loca a tintura, daria uma bela Tattoo.Uma cena perturbadora se inicia com a velha que começa a dizer como a Lady ficará sofrendo com a perda desse amor e ela começa a abraçá-lo pelas costas de um jeito assustador.E a reza começa a fazer efeito.Wakasa possue a expressão de ternura e inferno em sua fúria.
Essa cena é maravilhosa: luz de velas tremulando, a velha armadura do pai de Wakasa.Genjuro dando golpes com a katana no vazio.Demais.
-Tobei finalmente consegue ser um samurai respeitado por todos quando mata covardemente um samurai que havia decaptado o mestre dele a pedido do próprio e leva a cabeça desse que era um grande general poderoso e inimigo (hum...covardes de guerra e carniceiros que se aproveitam com a morte...já vimos isso últimamente ,não é?!): obtém cavalos, vassalos e muito dinheiro.Parando num prostíbulo ,começa a contar suas glórias de guerra que nunca aconteceram (esse ator se transmuta nessa hora: fala diferente, todo pomposo, físico muda.Atuação fantástica.) ,quando encontra Ohama (que mulher linda, pintada naquele estilo bem japonês!) saindo na porrada com um cliente que não quis pagar pela foda.Os dois se reencontram e num jardim a luz do luar, Ohama descarrega sua decepção dizendo que todo o dinheiro que ele ganhou com glórias que agora o usasse para comer a ex-mulher que virou puta por causa de uma merda que ele fez.Os dois se agarram chorando no jardim.
Filme poético.A guerra fodendo com o povo.As crianças perdidas em meio a isso tudo.O amor sobrenatural e ilusório, passageiro e pequeno perante a pobre Miyagi.Sonhos bestas de glórias numa época desgraçada com fumaça preta queimando em qualquer canto.
Mizoguchi é muito foda.
E na volta para casa andando com a cara perdida e colada no vidro do ônibus eu enxergava a fumaça por entre os arranha-céus da Paulista.Tem algo queimando no momento.
Mas ninguém vê.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

mizoguchi-saikaku ichidai onna(1952)


"Oharu, eu sei ...
Esses homens são uns filhos da puta: nomeie todas as tragédias do mundo, genocídios, massacres, holocaustos, governos totalitários, etc...
Qualquer uma.
E eu lhe direi :tem um homem coçando o saco atrás de uma mesa e tirando caquinha do nariz, eles não sabem trepar, não sabem o que é um clitóris, tem nojo de chupar buceta, mal sabem escutar e colocam suas frustrações de suas vidas patéticas e tristes se vingando da humanidade e principalmente das mulheres que não os querem.Esses tipos ...
Oharu-chan, gostaria que parasse de sofrer, mas acho que nada mudou desde então, queria lhe dizer tantas coisas, mas não posso, querida.
Porque eu seria mais um a te iludir.Você não merece isso: lembre-se dos poemas, linda Oharu-chan"
Gostaria de dizer isso para Oharu...
Olha, que filme fudido "Oharu- a vida de uma cortesã" de Mizoguchi Kenji .Esse eu perdi uns cinco minutos, ah ,mas a culpa é da cerveja e do meu caderninho "Melinda e Melinda".
Esse filme já é uma evolução da escola japonesa que bebe em fontes muito férteis e já nessa época, mestres como Kurosawa já despontavam no mundo ganhando prêmios pelo mundo afora ; não que essa coisa de "Oh, Prêmios" seja importante para se reconhecer uma obra, mas depois de uma bomba nuclear o mundo não acreditava que o Japão com a sua fúria artística gritasse para o mundo um "vai se foder, somos fortes e filhos de samurais!".Esses prêmios reconheciam isso.
E "Oharu" ganhou o Festival de Veneza como Kurosawa e seu "Rashomon"( fudido!eu tenhoem tenho em vídeo); diziam as más línguas que Mizoguchi queria superar Kurosawa e realizou essa história sobre o Japão Feudal com suas almas vagabundas encarnadas nessas mulheres (ou melhor). nessa mulher que é o sofrimento vivo desde adolescente.
Vendo um blog de um gringo sobre Oharu, o autor disse que convidou um amigo para ver o filme (segundo ele um "mizoguchi freak"), mas ele recusou dizendo que não queria ver, disse:
-"Nobody suffers like Oharu!"
E é a mais pura verdade, na realidade tantas mulheres sofrem como Oharu e eu diria que aquela música "Taca pedra na Geni" é pouco perto da vida dessa mulher que frequentava a corte imperial e por culpa do amor inicia sua decadência perante o mundo preto e branco de Mizoguchi.
Quando entrei no cinema ,Oharu olhava para uma estátua no templo budista e via um rosto e qual não foi a minha surpresa ao ver o velho Toshiro Mifune!O primeiro filme que eu vi desse velho samurai foi "Inferno no Pacífico " com Lee Marvin e era na época em que meu pai ainda estava em casa me disse:
-Veja esse filme, Arthur.
E lá fui desde pequeno me entupindo na madrugada com filmes; não era normal..
E eu vi, e toda hora que aquele antigo locutor da Globo anunciava o nome desse samurai numa voz cheia de chuvisco em nossa antena com bombril pendurado eu iria ver :creio que ele e Mickey Rourke se tornaram os meus atores preferidos já nessa época .Depois vi "Os sete samurais","Yojimbo" etc...
E ele faz o pobre e fudido Katsunosuke que se apaixona por Oharu: desde que a viu, esse pajem de um nobre é atormentado pela sua beleza e manda um poema se declarando para ela.Numa cena linda, ele diz que Oharu será visitada pelo seu mestre, mas quem aparece na hora é o próprio Katsunosuke, ele diz que pode não ser um poeta, mas o que sente é verdadeiro e Oharu luta contra esse sentimento na hora, mas acaba cedendo ao amor desse vagabundo-poeta, que a segura forte contra seus braços.Demais.
Condenada pelo Clã por se envolver com esse homem baixo, Oharu e sua família são expulsos do feudo e forçados a viver na pobreza longe da corte imperial e o pobre Katsunosuke é condenado a morte à moda antiga: decaptado por um samurai e sua katana num golpe certeiro, o que nem todo samurai conseguia fazer pelo que sei...
Começa a procissão de dor: Oharu recebe a última mensagem de Katsunosuke e deseja morrer , pois não devia ser um mundo justo esse onde se mata a morre por amar ou ser pobre ;recebe o convite para ser concubina do lorde: lá é odiada pela esposa dele, encontra na gestação uma razão pra viver, mas tão logo o seu filho nasce, nem pode amamentar o pequeno tirado dos seus braços ; a mulher com ódio e ciúmes ordena que mandem a embora.É banida de novo e vê a família cheia de dívidas pois os pais encheram o bucho de gula às custas da triste filha usada pela nobreza, o pai implora que vá trabalhar como cortesã para pagar dívidas, mas ela não dá a mínima para o dinheiro no trabalho e os homens nojentos que ali frequentam, inclusive um falsificador de dinheiro que feliz quando está a sós com ela diz numa cena meio chocante gargalhando como um diabo"estou tão contente,o dinheiro compra tudo mesmo!".Um jovem se apaixona por ela e rouba o dinheiro do lugar e todos pensam que foi por Oharu que ele fez isso, ele mesmo dizem"eles sabem que é por você"ela é encarada como uma puta que engana os homens, mas nada tem a ver com isso.Casa-se com um homem trabalhador mas ele é morto por assaltantes quando não quis largar o obi que comprara para a sua esposa.
E ela vaga pelo mundo, esse é um filme sobre almas fantasmas que nunca são notadas no mundo , sua beleza já não se destaca, Oharu-chan com tantas desgraças...
Olha, Geni é pouco :ela é roubada pela mulher de um casal que a adota, quase é estuprada pelo marido dessa puta que a obriga a cortar os cabelos com uma kodachi; chega a ficar careca.Acaba virando prostituta e acolhida pelas figuras esquecidas do submundo se embriagando com sake.Pensa no filho, enlouquece, pensa em Katsunosuke ,pensa se é possível sofrer mais por essas quebradas do Japão...
Bem,não quero contar o filme inteiro, mas duas cenas mexeram comigo em especial:
1-Quando Katsunosuke é condenado, ele pede como último desejo uma carta para a linda Oharu e dita suas palavras para um dos samurais:"Que ela ache um homem que a ame ..."(Pausa)"E que encontre um lar feliz com esse homem.Mas que seja por amor verdadeiro!(chora-grita)".Toshiro é foda, com a espada sendo afiada e essas palavras sendo ditas com emoção ,você se segura na cadeira."algo mais?"-diz o samurai."Sim.Que não haja mais níveis sociais nesse mundo" .
Caralho.É isso aí, Toshiro: eis a luta de classes desde o Japão Feudal .Você morre, você morre por ser Katsunosuke e seu crime é ser pobre.Punk.
2-Quando Oharu já velha, embriagada e doente trabalha num prostíbulo decadente é obrigada a ir atrás de clientes na rua, e ao fundo um castelo e um céu negro com nuves escuras passam rapidamente quando um dos clientes a empura e diz "Você é muito velha."
Um conto sobre desajustados, sobre exclusão no Japão feudal, poemas que geram desgraça e mulheres como Oharu: a válvula de escape de um mundo sem sentido .
E Oharu olhando para aquelas estátuas e vendo rostos.
Mizoguchi genial, poderoso e firme.Aqui não tem final feliz.Oharu sabe disso, nós que assistimos sabemos também.Cinema japonês é forte até hoje.Fúria artística como Godzilla emergindo do lixo radioativo: a mensagem era clara, só os idiotas enxergam um mero "filme de monstros" e Mizoguchi tinha essa fúria.Um monstro de arte.
Vem mais por aí.
Sejamos firmes ao ler poemas e ver rostos de quem amamos em estátuas ,Oharu-chan.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

ozu-hitori musuko(1936)


Existe um mundo estranho lá fora que eu pouco conhecia ou quase não tinha contato: o das coisas grátis e de qualidade e em horários/dias humanos e justos.Eu posso dizer que essa mostra "Mizoguchi-Ozu" é uma das coisas mais locas que aconteceram em termos de cinema gratuito para nós que não temos dinheiro e possuímos um certo gosto duvidoso e obscuro.Basta isso.
O Centro Cultural é foda: depois de um momento antológico e ímpar na minha vida assistindo a mostra do grupo de teatro "Cemitério de Automóveis" esse ano eles aprontam essa mostra desses japoneses fudidos que influenciaram meio mundo no cinema (bom) afora.
Depois de acertar detalhes ilícitos e ilegais com um amigo no centro da cidade decidi ir lá no Centro Cultural ver "O filho único " de Ozu Yasujiro.Quando cheguei na bilheteria eu era o primeiro e aparentemente o único nego para esse filme; eu tenho uma sorte com balconistas educados sendo eu mesmo um de quarto dan nessa profissão ingrata:
-É ..oi ...Ah, por favor, eu vim pegar ingresso para a mostra de cinema japonês...
-Ah, mas não tá aberto ainda.Mostra?
-É ...
-Ah!-fez uma cara feia.E emendou:
-Volta mais tarde.
-Mas...é...não é uma hora antes que dizem para pegar o ingresso?Umas sete e quinze?
-É.
-Que horas são mesmo?
-Não sei .
Uma moça que estava atrás de mim na fila me disse: sete e treze.Falei:
-Ah,tá bom...Mais tarde (olhei para a moça do relógio) daqui uns dois minutos eu volto, tá bom?
Depois dessa fui olhar umas fotos de balé que estavam numa mostra lá no pátio ( na verdade foi uma), sei lá o que que era aquilo.Voltei para pegar o ingresso...
Quase perdi a sessão, pois estava num barzinho ali dentro (caro pra caralho) bebendo cerveja e escrevendo bobagens no meu caderninho e mesa; perdi a noção da hora .Não tenho relógio e vivo perguntando a hora só quando ela realmente importa para mim.Coisa feia hein, Belmont.
Assistir a esse filme foi uma experiência fudida de boa, pois era uma exibição em 16mm e acredito que ver daquele jeito a tela deveria ser uma experiência bem próxima como a que viram na década de 30: com seus borrões, riscos e som cortado.E é assim que deve ser o cinema ;achava uma bosta aqueles fillmes colorizados por computador que a Globo exibia orgulhosamente no começo dos anos 90.Imaginei um cinema japonês cheio as senhoras chegando com seus kimonos e sombrinhas e os senhores que já há um tempo usavam ternos desde quando as máquinas chegaram por lá em Kyoto.Isso, de acordo com o desenho "Samurai x(rurouni kenshin)...
Esse trabalho de Ozu viria a ser o seu primeiro filme sonorizado e saber disso me deixou muito empolgado, senti um privilègio de estar ali naquele lugar.Esse é um filme histórico do cinema mundial e o bom é que eu não estava vendo no Corujão da Globo dessa vez.
Fala-se de sonhos no filme: o filho único que está vendo os seus únicos amigos da escola indo embora para Tokyo estudar e sua mãe pobre da classe trabalhadora japonesa que não pode realizar o sonho do filho, pois a educação lá é muito cara.Quando essa trama é apresentada, você já sente uma identificação (eu senti) e creio que se esse filme fosse apresentado para as mães brasileiras na mesma condição social, elas certamente iriam balançar a cabeça e concordarem em seu íntimo que esse problema ultrapassa as fronteiras (até hoje) ;somos todos japoneses e de qualquer nacionalidade nesse mundo, darling...
"Se liga negão ,o mundo é injusto..."
Na segunda parte do filme a mãe se sacrifica para mandar o garoto para Tokyo e a cena é linda , pois ela se despe de todo e qualquer desapego como mãe e reconhece que esse será o melhor caminho para o filho ,e somos japoneses ,pois nossos pais nos diziam quando éramos pequenos( eu me lembro disso)"Faça o que eu digo..."
O resto a gente já sabe.
O garoto se forma e como somos japoneses sabemos que o destino de todos que cursam a universidade nem sempre é o daqueles das brochuras de universidades que eles distribuem nas ruas: aquele pessoal branco/sorridente num jaleco qualquer e saudável.Sabemos que os sonhos nos movem, mas não se sabe aonde e em quais condições.
Ryosuke (o filho já formado) é pobre, odeia o emprego e mal consegue sustentar a jovem mulher e o filho recém-nascido, quando a mãe decide visitar o filho na Tokyo dos anos 30 pede dinheiro emprestado para todos, se enche de orgulho e faz uma montanha de algodão doce de aparências para que a mãe veja o quanto ele prosperou; mas ele tá fudido, nego, sem dinheiro ,sem sonhos e com vergonha de si mesmo e o filho chorando pequeno...
Eu não pretendo contar o filme inteiro, mas uma cena em particular me impressionou, tamanha a sua beleza, lirismo, tristeza de sonhos e constatações.
Andando num campo lindo e ao fundo de uma fábrica (que segundo Ryosuke "diz queimar muito lixo pois tem muito lixo em Tokyo"), a mãe e o filho sentam-se sob o chão de terra e plantas tremulando com o vento.Ryosuke diz para a mãe velha:
-Mãe, a senhora não está desapontada com o que me tornei?
A mãe não entende.
-É que eu não estou contente comigo mesmo, mãe.
E nesse cenário acontece uma das cenas mais tristes e belas do filme ,esse papo de mãe-filho cru, direto e sem máscaras.É tudo um "desespero silencioso", como vi um cara escrever num review da net, sem aquele clima de filme hollywoodiano exagerado ,moralista e irreal; o cinema japonês é isso.Dizem que Ozu influenciou toda sétima arte por lá, com seus plano-sequências maravilhosos desde então, silenciosos e sem apelos para o óbvio: Ryosuke faz essa confissão para a mãe durante todo o tempo num sorriso doído ...
E eu me identifiquei com esse momento .Os nossos sonhos nos movem e sempre precisaremos deles, mas o destino é uma estação diferente na estação; chega um momento na vida em que você é o Ryosuke e se faz essa pergunta.
Saindo do cinema após esse momento cinematográfico fantástico, uma cena triste e surreal se criou a minha frente: umas crianças de rua estavam numa espécie de casinha laranja no gramado fora da CC com um buraco convidativo que parecia aquelas casinhas de índio no desenho do Pica-pau, em cima da entrada cortada a improviso,se lia a seguinte inscrição :
"Aqui ,as suas angústias são bem vindas."
E eu me senti o mais japonês de todos .Me chamo Ryosuke, nego.

domingo, 5 de agosto de 2007

você é o/a cara/mina no terraço.

Ontem à tarde estavam cortando as árvores no bairro.
Todos estavam na rua passeando e curiosos pela "agitação" tão incomum na área, eu me sentei no terraço da garagem e fiquei vendo os caminhões que chegavam para carregar as centenas de kilos de folhas e galhos mortos.Na praça eu não havia reparado em certas coisas, como por exemplo as outras árvores e palmeiras que balançavam contra o vento.
Perguntei se elas já estavam ali e imaginei que estavam plantando novas no lugar, mas era um idéia bem idiota: por que plantariam novas se carros e caminhões vazios se enchiam pela porra da rua inteira com terra e folhas?
Bem, na verdade eu queria uma resposta (nem que ela fosse irracional) só para entrar na minha cabeça do porque delas estarem sendo arrancadas...
Ao passear pelas ruas com o meu cachorro, tudo o que se via eram montes e montes de pilhas disformes e verdes sem significado, salpicadas com terra.Isso me lembrou de uma tempestade que vi uma vez na vila quando era adolescente: uma chuva de vento violenta que derrubou árvores e tudo que viu pela frente.E lá na rua todos foram "admirar" os estragos: postes e fios cairam em carros, animais mortos ,telhados arrancados ,vassouras e bacias tirando a água de casa.Aquilo era uma situação em que você balançava a cabeça concordando silenciosamente que coisas no mundo merecem respeito e nem sempre tem uma explicação...
A casa do meu tio que ficava logo abaixo a minha no mesmo quintal se enchia de água com qualquer chuva, pela sua estrutura precária em que foi construída na época dava uma dó quando lá estavam eles de bota tirando água inutilmente pelas bacias ( às vezes furadas) e íamos ajudar.A minha casa era um pouco mais alta(acontecia pouco isso), mas como era velha e toda esburacada tinha problemas de infiltração em todos os cantos e lá estavámos nós colocando bacias e panelas pelos furos enormes dos tetos.Uma vez quando eu estava na oitava série, estudando na mesa da cozinha levantei e fui mijar, enquanto segurava o pau escutei um barulho enorme de destruição: a porra do teto caiu exatamente onde eu estava!Umas vigas enormes de madeira e concreto pesado iriam rachar a minha cabeça como um melão atirado contra um taco desses que a gente brinca na rua com bolinha de tennis, fiquei imaginando se me mataria na hora ou ficaria um vegetal para sempre; imaginava também minha mãe entrando e chegando e me vendo naquele estado.Foi o que pensei :em crânios arrebentados e eu de pijama todo ensaguentado.
Não foi uma experiência que me mudou para sempre como você vê as pessoas falando "nossa isso mudou a minha vida ,eu fui salvo"...
Pelo contrário, eu não dei a mínima.Se morrer, tinha morrido e não havia nada o que se pensar; como as árvores e animais que eu via em meio a água com seus rostos surreais expressando tristeza ou sofrimento.
Ah, e o Yusuke ia me visitar com a Botan se eu morresse:isso seria legal.
Eu não me senti exatamente como Locke em Lost, foi mais ou menos como Bruce Willis em "Unbreakable":as pessoas é que se admiravam mais que você.
"-Coitado do moleque ,morreu estudando !"
Meu, o caralho que eu quero morrer estudando!
E só para concluir, essa não foi a primeira vez que isso aconteceu: uma vez depois disso o teto do quarto da minha mãe ruiu e eu estava deitado com ela na cama e por menos de um metro não caiu em mim.Aí você para pra pensar no assunto com mais calma.
"-Coitado do moleque ,morreu dormindo com a mãe do lado!"
"-Mas que caralho um homem daquele fazia na cama da mãe ,que bebezão!"
É ...
Você pára pra pensar nessas coisas e as possíveis explicações envolvidas; se arrancam as árvores, tanta gente morta, porque você quase morreu com tetos desabando, parece que nada te satisfaz e você vive só se perguntando e questionando.Um mar de perguntas e pontos de interrogação destruindo os telhados das nossas mentes fudidas.
Você é o/a cara/mina no terraço dessa merda de vida, observando coisas serem arrancadas e plantadas sem sentido num processo sem fim ou respostas como no Lost.
Certas coisas não tem explicação, são momentos em que não se pensa muito no que aconteceu e isso me parece o mais trágico: é tão rápido que só se admira a destruição e vigas que poderiam estar em cima de você.E às vezes elas estão...
Talvez seja um momento em que a Natureza não pensou direito e resolveu destruir com poesia uma parte do mundo ,e ela chora de arrependimento pois vê os homens chorando e nunca choraram por ela...
Se existe um significado nisso, é que certas coisas não são marcadas a ferro e fogo :sentimentos e naturezas se confundem, sim se confundem nesse mundo e talvez não seja a última vez que você vê certas coisas nesse terraço.
Você pergunta por que se importa.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

-tio,eu não sou tão óbvio assim.

Fui ao Playcenter há um tempo atrás (sei lá, 3 ou 4 anos) e tudo me pareceu diferente...
Houve uma vez (uma cara) em que eu e meu irmão enchemos tanto o saco da minha mãe para irmos lá que ela gentilmente nos levou num desses dias meio cinzentos e típicos de Gotham City aos sábados.Chegamos umas nove da manhã e caiu uma daquelas inesquecíveis chuvas de infância; e lá se foram as crianças a se esconderem em sombreros gigantes multicoloridos e mesmo na chuva sorrindo.Naquele desespero momentâneo, estrategicamente as barracas de "abrigo" eram verdadeiras lojas de tranqueiras em que se pagava pelas bugigangas inúteis na hora, ou envolviam um péssimo jogo de azar sacal como por exemplo encher as malditas bocas de palhaço com tiros-d´água...
Pensando bem agora (e isso só me ocorreu nesse instante), quem teve a doentia idéia de criar um brinquedo em que você aponta uma porra de uma arma para a boca aberta de um palhaço fazendo cara de feliz?
Bem..
Nunca consegui ganhar nessa coisa: sempre tinha um molequinho arrogante geralmente de cabelo preto engomado e penteado pela mãe usando umas roupas apertadas e shortinhos minúsculos que sempre era mais rápido que eu.Sempre.
Tudo que eu queria era um daqueles tigrinhos da Olimpíada de L.A : todas as crianças tinham aquela merda, porque eu não podia?Meu irmão acabou ganhando em algum brinquedo que não me recordo, talvez tenha estourado os miolos de algum palhaço pelo parque...
Mas quantas cores existiam naquele tempo cinza: brinquedos que eram uma verdadeira epopéia de diversão-tamanho-complexidade como aquela mulher gigante em que você literalmente "entrava" dentro dela a explorar os seus órgãos (muito didático), umas sombras-macumba em que você fazia umas poses e elas ficavam "presas" na parede do jeito que você planejou, o maravilhoso trem-fantasma ou Casa do Terror em que havia um caixão a passar pelas múmias gigantes e Lúcifers sorridentes de costeletas e cavanhaque que nos lembrava um dos nossos filmes preferidos quando éramos crianças :
-Bi,vai passar "Pague para entrar, reze para sair" hoje!
-Obaaaaa!!!
Era sempre num sábado de madrugada depois do Supercine, algumas vezes por ano ...
E tudo isso estava bem vivo na minha cabeça há uns 4 anos atrás quando fui parar lá numa circunstância bizarra que não vale a pena ser mencionada; tão vivo que ao atravessar as catracas fui me lembrando das crianças que não aguentavam de excitação e iam correndo apontando para todos os brinquedos, como naqueles flashbacks de filmes em slow-motion:
-Não corre!Dá a mão !-diziam as nossas mães em uníssono universal na película da minha mente.
E logo na entrada ficava o Viking!Nossa, como eu adorava aquele brinquedo!Barco viking gigante musicado pelo grito de terror gostoso de todos nós que éramos crianças, gritos bons: de quando se sente uma coisa pela primeira vez na vida e dá um frio na barriga por que é diferente e sublime, é bom...
Mas, cadê o Viking!?
Uns brinquedos mirrados, umas rodas gigantes caquéticas, montanha russa minúscula, umas rodas raves para criança com música eletrônica ruim organizadas por umas mulheres feias (!), uma simulação duvidosa de terceira dimensão que custava uns 10 reais para usar e creio que não deveria ser mais emocionante do que os óculos 3-d que eu mesmo fiz com papel celofane para jogar Nintendinho...
Curiosamente não haviam tantas crianças (não sei se era porque era terça) e sim muitos adolescentes que vão parando e conhecendo umas menininhas instantaneamente no caminho e apostando quem vai beijar mais do colégio: certamente mais interessante do que as minhas andanças procurando tigrinhos ou a máquina do "elevator action" para jogar uma ficha...
Ah sim, achei o Viking!
Numa tristeza infantil constatei que ele não me parecia o mesmo: era menor, mais feio, todo desbotado pelo tempo ou pelo descaso .Eu não tinha certeza se era o mesmo Viking de antes e não sei se era o brinquedo que tinha mudado ou eu.Mas os gritos, eles continuavam ecoando pelo o parque e foi a única sensação que tive que me era familiar, que já tinha sentido e ao ouvir aqueles sons agudos pelo parque fiquei com aquela cara de tonto emocionado ,com um sorriso meio torto e patético que me é particular.
Há uns 2 anos atrás a Dungeon em que eu trabalho foi reformulada e fomos à loja uma hora e meia antes para assinar a papelada (a mesma, mesmos números,termos) feito isso tínhamos uma hora e meia para lanchar, bater punheta ou encher a cara e chorar por mais uma existência nula em empregos autorizadas com o nosso próprio punho e auto-consentimento.Não sei de quem foi a idéia de ir ao Instituto Butantã.Mesmo.
E tudo era tão pequeno, vazio e difícil: como as cobras que se arrastavam tristemente pela mata sem graça e quase artificial, usando a sua camuflagem para se esconderem de um monte de humanos estúpidos e arrogantes.
Desde pequeno eu tinha uma fascinação por aqueles "serpentuários": pareciam umas casinhas de eskimó feitas daquelas paredes cheias de pedregulhinhos da tiazinha que não devolvia a nossa bola de capotão e atirávamos mamonas para deixá-la toda verde e horrível como vingança.
E hoje, depois de dois anos lá estava eu andando pelo "serpentuário", numa linda ponte suspensa que outrora foi construída para se olhar as cobras por cima, agora possuía uma visão privilegiada para o nada: haviam retirado as cobras há um tempão desse local e tudo que se via era o musgo que se acumulava na antiga "piscina" onde os pobres seres antes se refrescavam e recordavam que a vida no mato era boa, folhas mortas que lindamente iam caindo, dançando e rodopiando em espiral das árvores.
E lá fui eu subir na ponte de ridículos três metros de altura para não ver nada a não ser abandono e um tiozinho que limpava o chão com aquelas vassouras de folhas, ficou me olhando e eu sabia exatamente o que ele pensava, como Bandini sabia o pensamento de maldade dos trabalhadores da fábrica de sardinhas...
Eu sabia que eu era o único adulto que teve a curiosidade de subir ali para não ver nada em muitos anos.E ainda parei no meio da ponte e me apoiei com o queixo sobre os braços como o meu cachorro faz quando está entediado,só para contemplar "aquilo".
Apesar de feio, eu vi beleza naquilo .
Não sou mais criança, eu sei .
Mas ,tio,os meus pensamentos não são tão fáceis de se adivinhar :eu sei que parece patético ,curioso e previsível o meu andar e determinação ao subir nesse lugar que todos esqueceram ,mas eu lhe garanto que não sabia o que eu pensava quando me apoiei sobre meus braços como cachorro e sorri bem ridículo.E torto.
Isso já não é tão fácil, mas é um pensamento-lembrança que me fez sorrir como os gritos de um certo barco Viking e parques desse mundo...

domingo, 29 de julho de 2007

...(reticências,palavras ditas bem baixinho,pombos e seus destinos)

"Resíduo"

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
vazio de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.


sábado, 21 de julho de 2007

mais um blog no mundo...

Malditos pretensos escritores a povoar o mundo com sua prole tosca de palavras e comentários aleatórios e alienados; bando de fodidos que não trepam ou trabalham e querem viver a vida com um caderno ou um computador à sua frente escrevendo livros de uma banalidade sentimental ou de uma falsa aura de decadência; uns filhos-da-puta com fórmulas mágicas sobre como serem contentes, enriquecerem rápido, trepar melhor e fazer mulheres gozarem jatos ,como fechar um negócio (capa com um sujeito branco de cabelo curto em terno social dando um soco no ar de vitória,u-hú!) ou simplesmente criar uma filosofia barata baseada em rituais ou "hábitos" para preencherem o vazio da alma humana que já está petrificada nas trevas de uma caverna há muito tempo, elaboram tratados e "O Segredo":
-O Segredo da puta que o pariu, o Oitavo hábito da felação, o que podemos aprender com os gansos (um guia sobre como enfiar um tubo goela abaixo do merdinha para comermos o nosso patêzinho), o monge pedófilo e o executivo sadomasoquista, o vendedor pitbullshit, pai rico-patrão pai pobre-traficante, a arte da guerra para republicanos, saí da Microsoft para cagar o mundo, seu cliente pode se fuder mais etc,etc ,etc...
Lair Ribeiro:
"Quem é esse Tab Jones? Pagam a esse cara milhares de dólares pra usar um dildo, agarrar o saco e fazer as luzes brilharem na cruz. Homem bons morrem de fome nas ruas, e lá está aquele IDIOTA...sendo ADORADO!!".
É, Buk...
Escritos, poesias, contos e agora essa praga de blog que entope a internet."Agora"???
E lá estou eu fazendo parte de um exército de palavras e fontes amigáveis que escondem minha péssima ortografia e caligrafia, cool num design sóbrio e posso ser achado no Google facilmente só pelo meu nome ou a palavra-chave BLOG,voilá :lá estou em 300000000000000 quaralhões de letras "O" junto com um monte de medíocres iguais a mim...
Nasce mais um blog no mundo .
Nasce, morre e ressuscita a necessidade de escrever num samsara interminável: um verdadeiro veneno que tomamos todos os dias escrevendo em caderninhos, riscando o banco do ponto de ônibus, pixando "pedro gomes", escrevendo poesias nas carteiras do cursinho e versinhos de amor não correspondidos numa mesa de bar.
Eu sou mais um .
Lá estou eu, e se você me ver um dia na rua ou no Google eu o aconselho a fugir.
Porque eu escrevo; pretenso escritor povoando o mundo com sua prole de letras deficientes e sem barrigas de tanquinho...
Me dá tesão, foda-se, é o que gosto: mas não me orgulho, ah isso não...
Mais um blog no mundo.Declarado.