domingo, 9 de novembro de 2008

o som dos passos

Hoje quero fuder.
Fuder com a tua vida, cara, não o seu cu ou a sua boca: fuder com o óbvio dessa vida tosca que você leva.Que eu levo.Mas há divergências (você pode argumentar que eu estou errado, mas não há tempo às vezes) e entre a minha vida e a sua, eu prefiro a minha na repartição,envelhecendo, lá, jogado com a máquina de escrever sem ver a sua cara como sempre fiz todos esses anos.
Me disseram que você fez piada quando eu conversava com as putas lá no Centro, que eu vinha tremendo conversando com as mulheres.Você viu isso?Eu fiquei puto, porque nesse lugar de merda todos tiram o maior sarro da minha cara há dez anos de uma forma silenciosa por que todos têm medo de mim.Já ouvi que tenho cara de psicopata, louco.Era o único respeito que adquiri na minha vida.E numa noite, ri de uma forma prazerosa constatando o que era o respeito.
E você,você é um bebezão que está na firma há menos de seis meses!
Vi você no corredor outro dia com aquela mandíbula toda simétrica e seus dentes brancos como os fantasmas de comerciais Colgate e tinha certeza que falava de mim para as garotas do escritório.Fui remoendo tudo e todos os problemas, dívidas, broxadas, surras e foras que levei na vida ,tinham o seu nome.
Daí, eu planejei te matar da forma mais cruel e lenta possível; de um jeito que a literatura, cinema ou quadrinho jamais imaginou.Conde de Monte Cristo se orgulharia de mim.
Pensei muito.Tanto, que doía a cabeça.
Depois, arrependido, decidi que um mês torrando meu cérebro em uma forma original de te matar, era ser perfeccionista demais.Você não merecia tanta dedicação da minha parte.Ninguém nunca mereceu tanta assim.
Eu era um bosta que não encontrava um jeito perfeito de cortar todos os dentes brancos da sua boca ou pendurar seu crânio de um jeito decente na Praça da República...
Eu tinha um canivete enferrujado.Ele está comigo desde criança.Decidi então te furar com ele: diversas vezes,repetidas e fortes na sua cara e depois no corpo todo.Já vi gente tomar facada em boteco: a faca entra e sai que nem um pinto com lubrificante; você parece papel, boneco de Judas, babaca de escola levando tapa na hora do recreio com um punhal te penetrando (não dá para fazer nada,as mãos batem no ar tentando impedir pateticamente); é lindo.Uma faca de açougue era perfeita, mas achei o canivete mais adequado, pois o fato de ele ter enferrujado, conspirava com a missão de ter estado numa gaveta por anos só para atravessar sua carne de uma forma suave e ferruginosa.Manchar teu sangue,contaminar algo que vai morrer.
Bem, você está lendo isso nesse momento na sua mesa.
Quando eu ver que terminou ou entendeu o recado e largar o bilhete para se proteger numa reação boba de defesa ou alerta, eu vou de encontro a você com o canivete enferrujado nas mãos e vou te perfurar várias vezes seguidas de uma forma cruel e vou enfiar todos os meus 43 anos de decepções no seu corpo torneado que você desperdiçou com exercícios numa academia para ser adorado, em facadas para destituir todo o seu tecido e te desfigurar para que o seu caixão esteja fechado e sua mãe chore sem poder te ver.
Depois, talvez me prendam.Talvez eu me mate lá.Talvez mate mais gente lá.
Mas, se você chegou até o fim do bilhete sem esboçar uma grande reação e sem rir da ameaça sem pensar que foi um colega do trabalho pregando uma peça boba, talvez eu lhe poupe.Se houve um grande crescimento pessoal ao ler esse bilhete nesse meio tempo da sua vida, talvez haja esperança para você.Para mim.
Mas não me venha com putaria, seu merda: coloque o bilhete de novo na minha mesa e não diga nada, certo!?
É, parece que esse é o fim do bilhete e se não pirar de vez ,você viverá mais e sua vida não acabará aqui.Não pelas minhas mãos.Mas não pense que se eu te ver morto um dia vou ficar triste.
Agora, você sabe o que fazer.Ande a até o final do corredor em direção ao meu cubículo.
O som dos passos em direção a algo que deve ser respeitado faz um homem pensar e envelhecer mil anos de experiência em alguns segundos que não terminam.E se você fizer isso ,talvez se torne um.
Um homem.Um homem que já teve medo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

o envelope pardo

-A-alô??
Silêncio curto.
-Novecentos.-respondeu meio sem paciência.
-T-tá...
Desligou o telefone.Depois de uma meia hora comprou um jornal, sentou num banco do Ibirapuera em frente à fonte e esperou uma meia hora.Leu o jornal meio entediado porque não entendia mais nada do mundo.Nem de futebol: o seu time não tinha mais Ademir da Guia há um bom tempo.
Quando deu sete e meia da noite, puxou um pequeno volume de uma mala, colocou dentro do jornal e levantou.Foi embora tossindo.
Um corredor calvo numa suadeira do caralho com uma bandana preta passou , sentou-se no banco e pegou o jornal.Olhou para os lados.Guardou o volume da página 7 do primeiro caderno no seu bolso traseiro.
Viu o show da fonte psicodélica do Parque.Jatos de água coloridos.Achou “legal”, mas um pouco idiota...
Depois disso, fez mais uma corrida até a saída.Pegou um táxi botando os bofes pra fora e amaldiçoando todos aqueles idiotas que se vestiam de Adidas.Inclusive ele próprio.
Chegou em casa, tirou a bandana da careca suada e fedida e a jogou na cama desarrumada.
Abriu o envelope pardo.
Deu uma bela olhada. 20 segundos se passaram.
Fechou o envelope, deixou em cima do criado mudo.Foi tomar banho.
Uns vinte minutos depois, uma mulher abriu a porta com muito esforço.Jogou a bolsa numa cadeira.Viu o pacote de cara.Óbvio.
Olhou para dentro do envelope, abrindo com os dedos.
Balançou a cabeça como se fosse uma coisa bem idiota.Era, na cabeça dela.
-Tô te esperando.-gritou meio brava na porta do banheiro , tirando a calcinha.
-Tá.
O careca abriu a porta de toalha e viu a mulher pelada na cama de perna aberta e com uma puta cara entediada de esperar.
-Você viu?-disse o careca
-Vi, vi sim.Que grande merda.
Ele balançou a cabeça meio triste.
Abriu o envelope, pegou alguma coisa dentro dele e foi para a cozinha.
Voltou com um copo nas mãos.
A mulher, puta de raiva por esperar, grita:
-E agora!?
Silêncio constrangedor de 5 segundos.Colocou o copo em cima da TV.Olhou para o relógio.
-Bem, agora tem que agüentar mais uma meia hora...

domingo, 26 de outubro de 2008

jukebox

Estamos aos prantos.
Eles dizem "choro”. É só um recurso, um estilo, uma palavra.Eles dizem que temos que comprar os livros dos homens que roubaram a infância do seu pai que queria ser abduzido, que tiraram a vontade da sua mãe de bordar patinhos num avental quando ela escrevia poemas bonitinhos sobre o primeiro amor.Eles dizem que é choro. É uma sensação antiga.Eles dizem que é dejá-vu.Eles dizem que as tuas palavras não valem nada e só os que persistem nessa vida serão os vencedores e herdarão um reino de recompensas e promessas antigas.
Eles dizem tantas coisas: que não plantamos nossas árvores no canteirinho da praça...
Que somos desgarrados e não temos mundos para colher, filhos para alimentar, namoradas para abraçar; às vezes somos párias mesmo (estão certos muitas vezes), uns desajustados.Seres que mal completaram ou alcançaram a maturidade.Os James-Deans-feios que não morreram jovens com um mínimo de decência para serem idolatrados pelo o que fizeram ou deixaram de fazer.
Normal.Todo mundo às vezes se sente como aquela hiena de desenho de Hanna Barbera.
Trocam de lado também: viram risonhos, dançam tarantella e cantam "Sympathy for the devil” num karaokê-yakuza da Liberdade se abraçando numa noite inesquecível.
Assim é a vida lá naqueles lugares: uma ficha na jukebox e uma série de músicas horríveis até chegar aquela que você colocou na máquina com carinho.Você fica lá batendo o pé, fazendo guitarrinha no ar e agitando sozinho-bêbado enquanto os holofotes te cegam. Cantando a letra até errado.Porra , é bom quando a sua ficha chega.
Eles dizem que é bobagem, ilusão.
Os porras nunca souberam esperar as músicas na jukebox.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

late night, maudlin street

Winter coming
Winter for sure, For sure
Oh, winter for sure
Winter - the snow, winter moves on


The last night on Maudlin Street
Goodbye house - goodbye stairs
I was born here, I was raised here and
I took some stick here
Love at first sight may sound trite
But it's true, you know
I could list the details
Of everything you ever wore
Or said, or how you stood that day
As we spend the last night on Maudlin Street
"Goodbye house, forever!"
I never stole a happy hour around here
Where the world's ugliest boy
He became what you see
Here I am - the ugliest man
Oh the last night on Maudlin Street
Truly I do love you
Oh, truly I do love you
When I sleep with that picture of
You framed beside my bed
Oh, it's childish and it's silly
But I think it's you in my room
By the bed (...yes, I told you it was silly...)
And I know I took strange pills
But I never meant to hurt you
Oh, truly I love you
Came home late one night
Everyone had gone to bed
But you know, no one stays up for you
I had sixteen stitches all around my head
The last bus I missed to Maudlin Street
So, he drove me home in the van
complaining: "Women only like me for my mind.."
Don't leave your torch behind, a power-cut ahead 1972, you know
And so we crept through the park
No, I cannot steal a pair of jeans off a clothesline for you
But you without clothes
Oh I could not keep a straight face
Me - without clothes?
Well, a nation turns its back and gags..
and I'm packed
I am moving house
A half-life disappears today
With every hag waves me on
Secretly wishing me gone
Well, I will be soon
Oh - I will be soon, I will be soon..
There were bad times on Maudlin Street
They took you away in a police car
Dear Inspector - don't you know?
Don't you care? Don't you know about Love?
Your gran died and your mother died
On Maudlin Street
In pain and ashamed
With never time to say
Those special things
I took the keys from Maudlin Street
Well, it's only bricks and mortar!
Oh.. truly I love you
Wherever you are
Wherever you are
Wherever you are
I hope you're singing now
Oh I do, I hope you're singing now

                                              MORRISSEY

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

n . d . a


Precisamos de alternativas.De respostas que nos satisfaçam imediatamente.Ignoremos o que está por vir, pois o que realmente importa é a satisfação: indolor, rápida e com um friozinho refrescante como uma bala de Hall´s de sabor exótico Nos dê alternativas: não nos importamos que elas sejam só duas e que elas não satisfaçam os nossos medos ,aquele momento com o nosso travesseiro babado onde ficavam os nossos sonhos.Joguemos aleatoriamente os nomes num saco.
Dos sonhos ,só nos restam cabelos nos travesseiros .E nosso egoísmo.
Nos dê alternativas.Poucas.Não importa se a) ou b): nossas esperanças estão depositadas em nomes; representam a dualidade de folhetim vista em novelas, o Ying Yang do rotineiro, do que se fala em filas do banco e se cala perante os nossos suspiros vendo a vitrine de uma bela TV gigante no Centrão.Temos alternativas então, oras!Se temos! Esqueçam dos números ímpares e tudo que é singular nessa terra fodida.Então agarrem os teus números e pensem em algo que gostariam de fazer enquanto os dois nomes serão escolhidos naquele saco fedido e aquela mão gordurosa agarra o papel A4 recortado com a sua alternativa.
Daqui a quatro anos façam o mesmo.
E assim sucessivamente.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

um sorriso gótico volta nas madrugas...

Sim,depois de 2 meses o podcast 404 na fita está de volta.
E dessa vez, carregando o legado das trevas:só som gótico !
E mais :temos Kabrunco (meu parceiro no crime) em sua primeira aparição (os fãs dele irão ter orgasmos... ) ,zumbis e uma frase que não sairá da sua cabeça tão cedo...
E,
Volta ,Madame Satã!!!!!!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

kurt,1959

Buddy Holly era um velho amigo meu no tocador de discos.
Eu não conhecia Ritchie Valens pessoalmente, mas o seu som entrou pelo rádio do meu Porsche Spyder uma noite quando voltava da faculdade e no dia seguinte já estava em casa acompanhando o velho Buddy.
Big Bopper era uma lenda naquela época: você era considerado um retardado primata se não tivesse ouvido o seu set interminável de músicas na rádio durante cinco dias! Ele até emagreceu por causa disso.
Eu estava lá e ouvi o equivalente a uns dois dias de programação, fiz parte daquilo.Meu neto me perguntou outro dia e eu esbocei um sorriso tolo, como se tivesse esperado a minha vida toda para dizer aquilo.
Eles morreram num pequeno avião. Numa moeda atirada para o céu. Todos eles eram muito jovens. Se não morressem, outros tomariam o seu lugar, pois dizem que o avião caiu depois de quase uns 3 minutos...
Não foi exatamente um bom dia para se voar no céu.
Três lendas mortas numa só tacada do destino e dos elementos. Quando soubemos do ocorrido, nos reunimos no campo de futebol da Universidade e tocamos as músicas deles pelos alto-falantes dos corredores. Timmy era o nosso DJ e tomou a rádio à força e eu fui o seu cúmplice. Tomamos vinho no campus e beijamos as garotas ao som de "Lonesome Tears". Era a nossa desculpa e elas nos consolavam, adoravam jovens mortos como todos nós.
Uma noite inteira no campus só nossa. A polícia chegou e prendeu todos. Depois de 2 horas nos soltaram: o pai de Loraine era o melhor advogado de L. A, e alegou que "os jovens estavam sobre o estresse de uma perda irreparável na música americana".
Nos livraram de tudo. Eu me senti rebelde e os caras também.
Eu só me lembrei disso porque uma noite vi no noticiário que um tal de Kurt Cobain tinha estourado os miolos em um quarto escuro. Ele era um ídolo para a molecada e sua banda era famosíssima pelo mundo afora.
E eu nunca tinha ouvido falar.
Minha mãe não sabia quem era Buddy também; o meu pai - que era xerife da polícia aposentado - achava aquilo (o rock`n roll) um caminho para a homossexualidade que não tinha mais volta. Eu achava aquilo estranho, pois aqueles nomes estavam em todos os lugares. Achava os meus pais alienados, mortos por dentro numa negação de um tempo inútil que se ergueu por força e eles não tinham controle algum.
Mas eu não sabia quem era Kurt também...
Se você me perguntasse o que eu comi no jantar de ontem no Jimmy´s eu saberia te responder por que eu sempre peço o maravilhoso bacon com ovo frito que a Sra O´toole faz todos os dias, há mais de 20 anos. Mas eu não saberia te dizer o que a minha velha Maggie fez ontem em casa.
Eu não saberia te dizer nem que dia é hoje! Porque diabos eu haveria de saber da banda de Kurt!
Mas porque isso me chateia? Porque me lembrei daquela noite com uma certa vergonha de mim mesmo?Uma autocondenação sofrível de se sentir miserável me tomou, e eu era o mais pobre diabo na face da terra.
Por quê?
Acho que chegou o dia em que me tornei papai, me tornei mamãe...

Buddy e os outros morreram ao fazer uma aposta de lugares. Jogaram uma moeda para o ar.
Que eu saiba, não havia jogado moeda nenhuma para o alto até agora .Não apostei nada, mas perdi alguma coisa no meio do caminho entre uma altura vertiginosa. Certamente.
E isso foi tão rápido, que nem me dei conta.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

going underground
















Some people might say my life is in a rut,
But I'm quite happy with what I got
People might say that I should strive for more,
But I'm so happy I can't see the point.
Somethings happening here today
A show of strength with your boy's brigade and,
I'm so happy and you're so kind
You want more money - of course I don't mind
To buy nuclear textbooks for atomic crimes
And the public gets what the public wants
But I want nothing this society's got -
 

I'm going underground, (going underground)
Well the brass bands play and feet start to pound
Going underground, (going underground)
Well let the boys all sing and the boys all shout for tomorrow
 

Some people might get some pleasure out of hate
Me, I've enough already on my plate
People might need some tension to relax
[Me?] I'm too busy dodging between the flak
What you see is what you get
You've made your bed, you better lie in it
You choose your leaders and place your trust
As their lies put you down and their promises rust
You'll see kidney machines replaced by rockets and guns
And the public wants what the public gets
But I don't get what this society wants
 

I'm going underground, (going underground)
Well the brass bands play and feet start to pound
Going underground, (going underground)
[So] let the boys all sing and the boys all shout for tomorrow
We talk and we talk until my head explodes
I turn on the news and my body froze
The braying sheep on my TV screen
Make this boy shout, make this boy scream! 

Going underground, I'm going underground!
                                                                      THE JAM 

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

o gumitado (lobo III)

Comecei a sentir umas palpitações numa certa noite do mês passado.Apertava o peito como se fosse explodir.Alguns caninos pareciam ficar maiores nessas horas, doía muito a minha boca.Sangrava.Gosto de vômito chegava na língua e voltava.
Medo da transformação.
Comprei a vodka mais vagabunda no supermercado.
Ironicamente, ela tinha um husky bem lupino no label.Guardei a garrafa para uma ocasião maldita e especial e ela chegou no mês passado.
Durante toda a tarde assisti a tv falando dos estranhos assassinatos e mutilações ocorrendo no bairro do Butantã: tinha entrado numa nóia brava e não conseguia pisar para fora de casa.Não atendia mais o telefone.Procurei na net as notícias, fatos e pistas sobre os meus crimes.
Me senti mal pra caralho.
Todas as minhas vítimas eram garotas.Lindíssimas.Algumas voltavam da faculdade, chegavam tarde pela Raposo; outras eram trabalhadoras: uma trabalhava numa farmácia, outra numa loja de conveniência...
Porque todas eram mulheres?Terei eu me tornado num lobisomem-gay?
Depois de parar para pensar muito e fritar a porra do meu cérebro, pensei que o prazer da morte em frenesi e destruição sem sentido devia ser uma coisa perversamente sexual.
Seria estranho morder o tórax definido de um cara que lê Men´s Health, mesmo para um lobo com sangue no olhar...
Por isso o “meu lobo” matava as mulheres?Mordia profundamente ela no meio das pernas.Mordia a nuca, agarrava alguns cabelos por causa da força absurda, as garras cortavam as bundas.Os jornais pensavam em estiletes e citavam o “Maníaco do Butantã”.Aparentemente o tal “maníaco” não violentava, mas a natureza da violência era toda sexual.
Cenas horríveis.Eu não via mais sentido em continuar com isso.
Bebi a garrafa toda.
E me joguei na cama.
Acordei ainda na madruga.De susto.Já era quase dia.Minha boca doía muito.
Devia estar com febre porque acordei suando muito.O corpo todo meio úmido.
Quando acendi a luz, vi a cama toda ensopada e com um cheiro forte; eu não estava com febre, tinha vomitado na cama inteira vodka Baikal.Vomitei dormindo, aquele vômito seco levemente ocre de bebida, aquele gosto de Nicholas Cage morrendo em Las Vegas.

Não havia comida: somente a bebida transparente lupina, nenhum arrozinho , fandangos/fofura ou dogão do Carioca da Usp...
E numa parte da cama, uma concentração enorme de álcool empapava o colchão, algo da vomitada parecia ter “escorregado” para fora da cama.Fiquei com medo que tinha me transformado e assassinado o meu cachorro.Terror.

Direcionei a luz para o chão e tinha “algo” ali.E numa voz embriagada eu descobri com terror o que era:
-Você bebe muito!Já te disseram isso?
Deixei cair a luz no chão e caguei no pau de medo.Lá estava a pequena criatura deitada e esparramada com os seus bracinhos ridículos e finos; tinha um nariz enorme, não tinha cabelo e estava se cobrindo com a minha camisa do Ramones.Eu poderia jurar que era alguma coisa que o Angeli poderia ter desenhado, por que aquela porra de narigão bizarro era muito do traço dele!!
Todo babado e molhado tentava se mover ,mas caia como bêbado quando se apoiava.
Eu tremia.A luz focou no corpo quando caiu.Ele disse de um jeito irônico e divertido:
-Qual é!O senhor Lobão do Butantã com medo de um merdinha que nem eu!
O medo se juntou à raiva.Combinação perigosa.O porra tinha um leve sotaque carioca.
-Que que você sabe disso?
-Calma, Lobão: eu tô mais bêbado que você , cumpadi e...
Olhou para a garrafa de vodka do husky.
-...Nuossa!Quatro real esse veneno?Se lascar, ”meu”!Eu que agüento tudo depois.
Deu uma ênfase irônica ao nosso jeito de falar de Gotham.
Peguei um travesseiro e ameacei levantar.
-Hahaha!Você vai me matar com travesseiradas, Lobão?
-Para de chamar assim, caralho!
Meu cachorro levantou com o susto.Observou aquela porra esparramada lá no chão.Tava curioso: a boca tremia como se fosse morder, algo raro no meu sabujo que não era de treta.
-Pega!
-N-n-n-n..não !Por favor, senhor sabujo.
Cobria os bracinhos ridículos que pareciam ossinhos de frango que a gente rói com os dentes; com medo do meu cachorro ;tremia de medo e frio .
Mas ele começou a lamber o merdinha.
-Hahaha!Olha, Lobão!Ele gostou de mim!Devia começar a acreditar em instintos animais...
Olhou para mim com um sorriso sacana:
-Ah!Eu esqueci que você já tem um!!!!Hahahahah!!!
Eu tive que admitir que o bostinha tinha um sarcasmo digno da família.O que era aquela porra?Meu filho??Como sabia que eu era um monstro??
Aquilo saiu de dentro de mim!?
E...
Che cazzo!!
Ele era carioca???

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

o alzheimer de todos nós

Giz de cera.
Lembrei da palavra que me parecia tão engraçada quando pivete: crayon.Tinha uma caixa deles comigo quando criança.
Era uma caixa toda espalhafatosa com desenhos de casinhas ,solzinhos e nuvens na embalagem ; dava a idéia de que uma criança era a autora da arte.Tava escrito "crayon" do lado da caixinha!
E eu me lembro perfeitamente da caixa!Dos desenhos que fiz num sulfite de tarde na escola .Do comercial da Faber Castel...
Me lembro de tanta coisa, que vivo às vezes só para lembrar : daquele desenho antigo que ninguém lembrava na roda de boteco ,do show que eu assisti há muito tempo,do que os meus amigos lembraram ontem por mim e daquela mina que existe na minha cabeça.Me pergunto se é normal lembrar de tanta coisa .Ultimamente tenho tido uns lapsos,coisa de noiado mesmo :falam comigo "lembra do que a professora falou?" e na minha cabeça aparece aquele "Now Loading" bem rapidinho .Uma imagem de um disco girando bem rapidinho.
E lembro com algum atraso.
Lembro que esse texto tinha algum propósito ,mas esqueci.
Me veio a imagem do estojo de crayons tão nítida na minha mente que eu tropecei no meu silêncio pra chegar rápido nessas teclas e escrever.Bater na máquina com raiva,escrever pra caralho.Eu me lembrei de algo e esbocei um sorriso .Morri na praia com alguma idéia olhando pra mim,se debatendo triste na palma das minhas mãos.Desapontada.
Às vezes essas coisas passam na cabeça da gente .E lá está você, dando um sorriso andando por aí ou numa fila que não anda mais.
Acho que quis escrever para não esquecer mais.
É...
Acho que foi isso.