segunda-feira, 14 de setembro de 2009

dalton blues

Existem aquelas cores que eu não sei, elas estão em lugar para se descobrir.

Eu acredito que perdi algumas ao longo do caminho.

Vai e descobre!Como naquela noite em que tomou vodka sem pensar e a clarividência nasceu da morte de uma coisa importante, uma perda.

Ganhei algo naquela noite, que corre no meu sangue vermelho.

O Daltonismo raro que descobri na idade tardia proporcionou-me a visão que ganhei há pouco tempo, e essa vista me mostrou cores que ainda não dei nome. Enquanto escrevo, minha calça marrom (que dizem que é verde) serve de apoio ao caderno nas escadas do Teatro Municipal.

As folhas são brancas.

O mundo é cinza.

Meu cabelo preto-ficando-grisalho-balança com o vento sem cor.

A vida tem tantas cores, querida...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

incendiário

Hora de queimar alguma coisa. Jogar algo nas chamas e admirar o espetáculo hipnotizante da destituição de tecidos, células ou partículas. Que aquele fogo tremulando nas entranhas de uma fogueira na rua numa quebrada qualquer traga redenção aos que buscam o fogo. Esse fogo que dança como dançarina havaiana em cartoon old school, esse fogo associado ao pecado que a humanidade alcança e condena a mão de ferro e trovoadas no céu; aquele fogo que consumiu a Babel junto com o enxofre pingando dos céus. Aquele líquido que queima os habitantes que invadem a fortaleza naquele filme branco e preto. Queimar fotos, cartas e lembranças; quiçá teu cérebro pingando neurônios como o pinto pingando porra. Essa sensação antiga que fez o homem enlouquecer perante às chamas, e induziu o mais nobre mortal a atos parricidas e sangue no chão do Palácio de Calígula.
Eu incendeio coisas ouvindo New Order.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

monstrum

Aqueles que se tornaram monstros têm o aval da humanidade para um dia encontrar a redenção como Quasímodo e Frankenstein; Lúcifer apenas se encarrega de todo o fardo pavoroso e da mente atormentada durante esse longo processo até o seu derradeiro fim. Os monstros têm o conforto de Deus e a compaixão do Diabo nessa descida para o inferno em escada de caracol: ambos vão segurando essas mãos deformadas como pais preocupados, enquanto essas pobres criaturas vagam sem rumo num mundo de algodão, aonde as quimeras, asas e garras não pertencem; os excluídos da sociedade a uivarem para aquele enorme olho branco acima de nós num Sabá à meia noite.

Incompreendidos em sua nobreza monstruosa.

Só a Morte tem o poder de abrigá-los,seja na bala de prata, estaca ou suicídio; só assim, esses filhos das trevas encontrarão a paz que tanto almejam.

É na Morte esperando Deus.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

marina japonesa


Era conhecida como Marina Japonesa.
Ficou amiga da minha mãe através de uma vizinha nossa que era uma evangélica-prostituta-fervorosa; não sei bem ao certo como se deu essa amizade estranha ou quais foram as afinidades: o fato é que a estranha Marina Japonesa começou a freqüentar a nossa casa num dado período nebuloso da minha infância.
Creio que ela devia ter uns dez anos a mais do que eu, mas aparentava mais; e se a gente para pra pensar nisso, é justo com algumas pessoas que isso aconteça, pois a vida (para uns) é medida naquelas balanças antigas e enferrujadas de quitanda que roubam peso de tiazinha que não enxerga bem.
Envelheceu mais rápido; e “idade não é crime” como já dizia o velho safado.
Vivia numa casa enorme que destoava das nossas casas fudidas da Rua da Feira onde tudo lá era muito cinza, com seus quintais de chão rachado, muros com cacos de vidro e (vez ou outra) uma palmeira/coqueiro tremulando a enfeitar de uma forma dúbia o cenário da nossa rua.
Marina era japonesa de verdade, formada em arquitetura e o pouco que se sabe dos seus pais é que todos morreram um a um na sua casa enorme em meio aos anos que a envelheciam com aquela balança trapaceira.Seu irmão mais velho se foi mais ou menos na época em que a conhecemos: conta-se que o pobre diabo morreu dentro da enorme casa e Marina ficou tão abalada com a perda do seu único companheiro que só depois de dez dias da sua morte teve coragem de chamar ajuda, saiu carregando o corpo do irmão em decomposição nos seus braços pelo chão de sua casa.O chão começava a rachar na sua casa...
Ela gritou ajuda para nunca mais.
Ninguém nunca soube como era a sua casa por dentro.Os meninos na rua faziam apostas para ver quem ia entrar lá e gradualmente a pobre Marina que não fazia mal algum se tornou a Bruxa do nosso pobre folclore para os moleques da rua...
Ao passar dos anos, os cachorros foram os seus únicos amigos naquele palácio da decepção e ao tocar a campainha de sua casa, os latidos eram o único som daquele lugar, via-se que ela sorria desse jeito com aqueles amigos sujos com suas línguas para fora e rabinhos balançando; conviviam bem e isso era o que importava para ela.
Vizinhos não gostavam do barulho e dizem lá no Velho Mundo que se você quiser enlouquecer, o homem vai dar um jeito de te ajudar nessa tarefa: começaram a envenenar os pobres amigos da Marina, jogar ácido nos bichos na hora da feira...
Eu não sei porque penso em Marina às vezes nessas horas, aquele lugar tinha tanta figura que me faz pensar na vida.Sei que sentia raiva dos filhos da puta que faziam isso com ela e os cachorros; outros têm em sua infância modelos para se inspirar, eu, eu tinha pessoas como Marina: essas que inquietavam e me davam gosto por algo.
Ela freqüentava a minha casa e ouvia a minha mãe: basicamente a japonesa só dava uma risada aguda e muito estranha quando a minha mãe falava qualquer coisa.
Quando as duas não podiam se falar, Marina deixava uns bilhetes dizendo que tinha sido seqüestrada ou que ladrões estavam fazendo algum tipo de chantagem sombria com ela.Ao sair da escola eu achava esses bilhetes de manhã e sempre lia primeiro; o engraçado é que eu não achava aquilo coisa de gente louca, eu achava que algo mais acontecia no mundo e era apenas bom saber disso.
Saímos da Vila e pouco a pouco não se tinha mais o pastel de Feira naquela rua, nem os cachorros lindos e maltratados de Marina ou a cara dela de timidez quando me via.
Eu acho que penso nela porque quando era pequeno cheguei em casa e tinha um embrulho enorme com um cartão: era um fichário, folhas de caderno e um cartão.
Jamais esqueço a carta super bem redigida e com letras enormes.
Eu vivia enchendo o saco da minha mãe para ganhar um fichário e a louca e amável da Marina Japonesa foi a única a me dar: eu gostava do sorriso dela de timidez quando me via.
Se ela me amou de alguma forma, acho que foi correspondida agora e para sempre por mim...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

um autodidata

Tem um copo de veneno em cima do piano, gosto forte exalando morte ao toque de teclas brancas de marfim.Veneno ruim, cálice de vampiro.Tem um copo de veneno que vai provocar calafrios, angústia e desespero perante a minha morte iminente, estrebucho de porco torturado, caixão aberto com algodão nas narinas.
No piano em que não sei tocar uma melodia sequer- tampouco o “Bifinho” ou o “atirei o pau no gato”- enchi o cálice e despejei veneno de barata, pó ralo e partículas sufocantes elaboradas por químicos dedicados.
A minha morte e das baratas garantida, o final de um aspirante a músico massacrando as telas brancas.
Brancas.Pretas.Música de veneno afinada com a decepção e a alegria de um filho dedicado.A harmonia em afinadores velhos, papai conduzindo minhas lições e mamãe arrancando os cabelos e engolindo.
Taça transparente.Champagne barato nos Natais em que estive fora de casa, tomando Corot e despertando a minha ira contra objetos inanimados.Louça branca de casa, guardada em caixas pesadas: mamãe guardava tudo, pois achava que eu dia elas teriam utilidade.Esse dia não chegou para ela...
Para mim, eis o copo de veneno em cima do piano.
Eis a minha vida ecoando pelo som, líquido e madeiras que ergueram o piano.Tábuas fortes, Luthiers habilidosos na França martelando incessantemente esperando a morte de uma Era sufocada pelas Máquinas.O pó invadindo as narinas entre pregos, martelos e serragem poluindo o ar. Dólares, francos e rapé.
E minha vida ecoando pelos anos.Rangendo.Batendo em copos, quebrando caixas.E corvos bicando Sidra Cereser, não, Champagne!Filho, Papai te ensinou Bach e você não entendeu.
Esse copo em cima do piano.
Essa vida sem uma canção entre tantas em que compus. Um autodidata.
Esse piano intacto através dos séculos.
Esse veneno feito às baratas que descem pela goela dos homens.
Essa vida sofisticada, que acaba do mesmo jeito há tanto tempo na humanidade.