quarta-feira, 7 de abril de 2010

um bilhete escrito num guardanapo de boteco, fim de semana, fim de noite

Tudo tá esquisito, linda.
É, a vida anda foda por aqui: pouca gente, inspiração ou vinho.
Falei de vinho e lembrei de você naquela tarde de chuva que a gente fugiu para baixo de uma árvore. Ficamos olhando a chuva quietinhos.
Depois aquele vinho vagabundo, supermercados e o teto do seu quarto com uma rachadura em formato de ovelha...
“Homem bobo” cê deve estar pensando. Pensamento normal, espontâneo.Típico.
Abençoado.
Bateu aquela coisa vazia que chamam de “saudades” (porque no plural?).
É. Bateu. E eu tô meio tonto.
Vou embora: não te escrevo mais.
Nunca mais.
Tá chovendo e eu nem tenho onde me cobrir.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

reis contaminado

A fórmula existe, Lídia?
Praqueles que buscam um suspiro de paz nas tardes solitárias a vida reservará caminhos estranhos. Caminhadas longas, cafés fortes reforçando o vício de ficar pensando nas tortuosas dúvidas vindas da boca vermelha de uma mulher.
Buscam receitas, livros e programas que ofereçam uma reciprocidade: uma alteridade em sentimentos confusos pelas teclas do controle remoto da TV digital.
Daí alguém, no meio de toda essa cacofonia, ergue-se, e uma voz corajosa e desafiadora ressoa:
-E se eu não encontrar a fórmula?E se eu desistir no meio do caminho, porra??
Um silêncio pelas avenidas sem carros ecoará e não haverá mais copos sendo virados pelo Centro.
Só haverá lugar para a incompreensão e dúvida perante o espantoso protesto dos que se sentem indignados.

sábado, 27 de março de 2010

o verão se foi

O verão se foi.
Guardamos nossas pranchas, bermudas e pipas. Hora de correr pelas ruas com cata-ventos, pular os bancos e brincar de Jedi com os galhos que caem das árvores na Praça Pôr-do-Sol. Não há mais sol, querida; não há mais o teu reflexo ou seus cachinhos de criança pela janela olhando a gente voltar da praia com os chinelos nas mãos.
Essa molecada suja, pobre com suas pranchas de isopor de supermercado que voltam domingo à noite num ônibus capenga com os amigos.
Na casa, os pais preocupados. Outros nem tanto.
Uma vez quase morri naquelas águas, nesse fim de verão.
Imaginei a morte embaixo das águas e o que eu não veria mais.
Meu papagaio velho preso no poleiro, na minha mãe-pai-irmão e bonequinhos de plástico.
O verão, Belmont.
O verão de 64, 77, 84, 00, 07 e os que virão.
Entra, lembrança! Tem um copo de cerveja com espuminha te esperando!
Uma lembrança de mãos dadas, de casal que anda de mãos dadas pela praia na chuva, um filme velho gravado numa fita cassette, um olhar para o mundo dentro da roda-gigante...
O homem de verdade atravessa tudo isso aguardando a solidão sem medo, que nem o moleque cruza os olhos para aquela janela e nunca mais vê aquela garota.

sábado, 6 de março de 2010

clark

As mesmas palavras todos os santos dias que não são santos.
Basta dizer que todas as vezes em que nos encontramos eu sentia que algo estava para ser dito, mas jamais era; e a gente ficava assim, meio que sem dizer nada. Olhando um pro outro que nem "filme bobo de romance sábado à noite".
Não foi fácil dizer que não queria mais aqueles momentos, até porque nem sabia direito o que aquilo significava: eu abdicava de um amor para escolher viver sozinho, na minha fortaleza, lugar onde os meus pais descansam agora.
Deixei de ser homem por ela, agora deixo de ser um para ela.
São fardos que o homem carrega, mas eu não sou bem um deles, mas aqui é o meu lugar e o céu que devo proteger. Conseqüentemente vou aprendendo.
Não nos vemos mais no trabalho, passo os dias amedrontado desejando nunca mais vê-la.
Impossível.
Deveria deixar o emprego também. Porque preciso trabalhar?Por quê??

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

por favor, rohypnol

Já está tarde.
Papai já foi para a cama antes de nós, princesa da minha vida.
Agora estamos sós. Como era antes de você vir para este quarto pequeno com desenhos do Pequeno Príncipe. Mamãe já te alimentava.
Nós, contra o mundo nessa noite fria, fugitivas de um destino que recusamos. Porta aberta contra a rua que não abriga mais ninguém há muito tempo. Um bairro distante, uma terra infeliz para as de nossa linhagem.
Não vai tomar friagem, não!
Papai dorme lá no quarto grande decorado com pequenos losangos que eu odiei desde o começo, mas nos amávamos e eu achava que era o suficiente. Depois as panelas velhas de herança da sua mãe morta e os panos que serviam uma geração leprosa há séculos. Acumulados em prateleiras, buracos e cantos; tecidos vadios e sem graça.
”Dariam uma bela fogueira”, a mamãe pensa.
Seguimos em frente. Contra isso. Nós duas.
Papai dorme. Deixe ele que o sono é pesado nessa noite para sempre.
Vamos dormir, querida. Longe demais daqui.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

minha cidade de sintetizadores

Há dias tentava encontrar a "peça". Achei lá no meio da pista quando rolava “True Faith”.Todo mundo balançando a cabeça, curtindo a música, entrando aquele baixão, e eu lá olhando a cara dela na hora do crime.
Baixão animal.
Deixou cair o batom quando meu viu. Lábios grossos que já beijei muito.Tinha essas coisas de se maquiar toda hora, gostava: era uma mulher que ficava demais com aquele bocão vermelho de sangue, coisa rara em mulher que se emperequeta demais.
Ela me olhou lá no meio daquele pessoal, tocava uma música irônica, né?!Lá, lá tocava a música alta e as pessoas pagaram para dançar um pouco, “se libertar” eles dizem; eu, eu paguei para encontrá-la ali no meio da pista em meio àquele momento de deleite meu. Só meu, não das pessoas dançando, beijando, ou bebendo: meu deleite.
-Caralho...
Ela não falou. Li os lábios.Grossos.
Era para eu não estar ali naquela hora, ou momento, ou ano.
Ou país. Azar cruza com a gente toda hora, querida.
-Te achei.
Ela leu também no meio daquele barulho: era melhor que eu nesse lance de leitura labial. “True Faith” rolava, só aquela parte final do sintetizador: lindíssimo, cara.Lindíssimo.
Ela balançou a cabeça de medo, azar, sei lá. Começou a rolar um “Killing an arab”.
Te amo, DJ.
Dançamos muito essa lá no Madame Satã umas vezes, chegávamos em casa e eu colocava um Depeche Mode “The  Meaning of love” e a gente tirava a roupa com raiva, e a coisa saia como tinha que sair.
Saia. Entrava.Machucava de bom.
Eu brincava com facas naquela época e ela gostava, tanto, que aprendeu o ofício.
Gostava de ter o corpo tocado pela lâmina gelada, não tinha medo. A gente brincava, tudo era permitido.
Daí, de tanto eu brincar com facas, fiquei de castigo um tempão num lugar meio frio, ganhei umas tattoos novas nesse pico.
E ela era meio que a causa de tanto tempo com o chapéu de burro na cabeça. Mudou, cresceu, brinca com dinheiro de gente grande; creio que ela acha essa nova brincadeira muito mais “entretenimento” que a minha.
E eu achei ela ali: era a peça que faltava.
Riu de um jeito engraçado, de medo, sei lá. Como se soubesse que ali era difícil de fugir de mim.Gostei dela nesse segundo.
Não sei explicar, mas desisti ali (naquele momento) de castigá-la como eu fui na intenção.
Chegou um cara abraçando ela. Ela, gelada, com a cara fixa em mim, como se tivesse segurando um tesão; um gozo vindo subindo pelas pernas longas dela.Pernão de mulata animal ela tinha.Tem.Mantém.
O cara percebeu. Eu sorri.
E começou a tocar “Stop me if you think that you heard this one before”. A gente dançava muito essa olhando pro chão, pra lá e pra cá.
“only slightly less that I used to, my love”.
-Vai embora, sua vadia.
Ela entendeu. A cidade era minha de novo: para eu ficar em paz ela tinha que ir embora.
No final, foi uma troca justa.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte VI e fim






VI

A mais bonita de todas.
Jane, a “Christine sem a doçura”. Orgulho da beleza dos Bennett.
Beleza que não a salva do poço sem fundo da decepção do amor por Bingley que a abandona indo com as irmãs para Londres. Sabe, Jane não possui a grana necessária para surgir uma aliança blasé insuperável, portanto, as irmãs que a odeiam fogem com o irmão para Londres, longe de tal perigo.
Respiro, devo “estar lento” como diziam no meu bairro. Cá estou eu suspirando de pena por uma jovem que vê sonhos de algodão bestas demais sendo esmagados com a crueza do mundo.
Assim, a bela Jane vai conhecendo aquele fundo de espuma no copo que eu olho agora, só que o meu, vai descendo enferrujado há muito tempo nesse lugar. As páginas se desfazem. Bingley está longe. Christine está perto, lá embaixo acessando e-mail no notebook, vendo programas idiotas. Os nossos corações, Jane, se vão com eles, lá embaixo.
Aguardamos uma carta de Londres, Jane. Lá embaixo na cama, a TV tá alta, Christine ri alto como eu não ouvia há muito tempo. Nossa, há muito tempo mesmo. Um riso alto demais, arrepiante.
Que ecoa.
É o silêncio todo num sábado à noite. Risos dela.
Largo o livro por um momento pensando o que pode acontecer a Jane.
Mas...
O sótão carrega uma coisa pesada essas noites em que mal nos falamos, e o riso alto e debochado dela provoca um troço estranho em mim. Fico pensando nas noites que passamos assistindo TV e comendo pizza na nossa primeira casa.Um riso nos campos verdes do interior, várias épocas depois um riso ecoa, páginas nas minhas mãos e a indecisão de gritar para ela o que eu estava descobrindo.
Mas o que eu descobri aqui nesse sótão cagado de bosta de rato?
Largo o livro, beijo as páginas amarelas que me salvaram de não perder a cabeça; Jane, não beije as cartas da irmã de Bingley, essas cartas carregadas de veneno.
De repente, aquele impulso de ver Christine passa. Deito. Pego as páginas e volto a ler, pouso os olhos naquela letra arcaica e linda. “Não sei se a autora é bonita”- penso.
-Vem ver, querido!Tá passando aquela reprise do Saturday Night Live do presidente Reagan, lembra?!Vem!
Fico olhando ela assombrado. A minha imagem é patética. O cenário, igualmente.
-Nossa, que lugar desgraçado esse que você tá escolhendo para fugir de mim, hein?!
Diz isso linda, de um jeito divertido, como se a imersão naquela ficção fosse improvável, um conceito de filme de ficção-científica, uma piada de mau gosto.
Levanto calmamente e dou um beijo na testa dela.
Ela me abraça de um jeito caloroso, que demonstra não ter acontecido nada nesse tempo.
Acho estranho. Não retribuo o abraço caloroso que ela me deu, fico ali, tenso, demonstrando o orgulho dos velhos homens de escudo, sou um pouco Darcy, analítico-doentio em busca de uma retribuição por todo o meu sofrimento e confusão, por tentar amar ela novamente nessa casa. Por sofrer sozinho.
Ela sente. Me empurra com uma violência sutil. Sai andando com raiva.
Foi rápido.
Uma porta bate com força. Ecoa.
Estou me sentindo idiota. As páginas se desfazem.
Pouso o olhar nas páginas que estavam ali no chão, demonstro preocupação em ver elas ali tão abandonadas, “podem estragar, soltar a cola”. Me preocupo. Continuo me sentindo mal, idiota.
Volto a ser o rei de toda essa poeira que deveria ser queimada e esquecida pelos homens de escudos. 


                                                        fin

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazon (ou como nos tornamos reis) parte V


A lâmpada do sótão balança, moscas voam. Noites se passam.
Merryton na minha cabeça. A pior coisa que pode acontecer a uma família vitoriana é perder o seu lugar de conforto para um primo puxa-saco de nobres, metido, incrivelmente irritante; e que acima de tudo, pode te deixar na rua com seus pais velhos sem banquetes intermináveis.
Assim entram as filhas lindas na busca de um marido, para ajudar no destino dos pais, mas me parece que não é uma procura sem sentimento pelas meninas; acho que tem algo a ver com certo cuidado de destino “adaptável” da parte delas. Fico com pena do pobre senhor Bennett, dotado de um sarcasmo incurável e que parece ser um ótimo parceiro para conversar em bares. Lembra meu papá, que se foi numa cama dizendo que queria me ver em faculdade americana.
Lizzy jamais casaria com um idiota desses. Mas a casa anda em risco, sabe...
A nossa casa não tinha esse risco, foi herança do tio de Christine. Era a salvação do nosso casamento no meio do mato, um sarcasmo digno do senhor Bennett e de papá.
Podemos dizer que o tio de Christine é um pouco parecido com esse primo dos Bennett, o senhor Colllins: o Sr McKegan foi um ex-pastor anglicano que andou a América de norte a sul pregando para pessoas entusiasmadas, mas não foi a religião que o consagrou, e sim, sua perícia como veterinário renomado: seu nome está em todos os artigos respeitados na medicina dos sabujos caçadores de raposas.
Christine dizia que o achava quieto demais.
-Ele se parece com essa casa, isso aqui tem o cheiro dele. -disse uma vez com certo nojo.
Então, chega esse tal de Collins, pouco sociável, chato pra diabo e de inspiração ridícula; vem colocando o perigo de reivindicar sua casa; Lizzy talvez sendo sua esposa, acalme o delírio de poder do primo com a sua mão em casamento. Assim, Collins poderia deixar a casa para o velho Senhor Bennett descansar em paz na sua biblioteca, assim como o Sr McKeegan deixou para a sua sobrinha querida.
Obrigado, Tio McKeegan.
Bela cerveja inglesa enferrujada o senhor tem.

sábado, 16 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte IV


IV
Não chego exatamente a criar uma aura de tristeza e desespero vendo Christine ir embora da minha vida numa casa que acabamos de herdar de seu tio, olho, respiro fundo; ela passa ali de vez em quando na sala de camisola, desce ao banheiro e confunde as luzes novas da casa: eu já decorei todas, gosto daquele lugar e explorei ele todo. Não me sinto triste e acho isso perigoso.
-Ok, vamos acabar a nossa história no meio do mato. -disse uma vez para ela dormindo.
Se eu fosse um inglesão com crise no casamento, daria um baile com mulheres de decotes fartos, ou ia meter bala na cabeça de raposas com sabujos enormes correndo para me sentir distraído. Homem com escudo.
Não sei bem se seria divertido. A idéia das raposas, sabe. Já a dos decotes...
Bailes?!
Não sei dançar, não sirvo nem para ser o senhor Darcy, personagem amigo do ricaço Bingley; é um desses caras que carregam uma certa arrogância-misteriosa-simpática; mas é culto e bem educado. Eu sou bruto, filho de mexicanos pobres que cruzaram a fronteira fugindo da Migra, nasci no duro Bronx, junto com a escória que a América insiste em matar legalmente todos os dias; não sou nobre. Já o senhor Darcy é esse cara enigmático, bem nascido, que não se mistura facilmente com a nobreza - se bem que me parece que ele é mais nobre que todos os inglesões-caçadores-de-raposa.
Numa conclusão estranha, chego a me simpatizar com ele de alguma forma: ao desenrolar das páginas amareladas, ele não parece carregar um escudo nas mãos e sua habitual frieza blasé, contrasta com alguma coisa que não sei bem ao certo o que é; ele possui uma argúcia de Dr. House por ter encontrado em Lizzy um objeto de estudo para os seus momentos de devaneios solitários, um problema agradável para a sua cabeça de monstro inocentemente analítico: Darcy vê em Lizzy um alívio de ver alguém que não é óbvio.
Eu curto o Darcy porque ele sacou que a Lizzy é bonitona. É isso!
Eu gosto de mulheres que não são óbvias, Darcy. Foi assim que conheci uma dessas há muito tempo lá naquele ônibus da faculdade em excursão para L.A: tudo colorido, bikinis, óculos escuros e camisetas horríveis do Bon Jovi; e lá estava ela com o seu vestido de alcinha branco e azul, de certa forma provinciana, uma coisa linda que destoava de todo aquele exagero-yuppie-eighties; carregava no ombro uma bolsa toda estilizada com uma pintura estranha de um velho esquisito.
Depois de um tempo, fui saber que era de William Blake.
Ignorante de Literatura que sou, dando vida a paginas velhas agora...
Essa visão despreocupada dela foi o bastante para mim, me provocou, igualzinho ao senhor Darcy olhando um monte de gente aparentemente sem graça em Merryton; aquele ônibus foi o meu baile barulhento efervescendo inconseqüência em que eu observava os movimentos da dança com cuidado. Se fosse rápido, óbvio, passava tudo rápido.
Não deixei que isso acontecesse.
Ajeitei os óculos escuros de praia naquele dia e reconheci que estava perto de alguém que me intrigava. Foquei nela, a que não era óbvia, senhor Darcy.
Quando contei para os meus amigos sobre a moça de vestido azul e branco na parada que o ônibus deu em um pub irlandês, ninguém me apoiou: zoavam dando baforadas de cigarro na minha cara porque ela não era óbvia.
Não me importei, ao contrário: deu coragem, tesão.
Lá nos conhecemos melhor e nos beijamos nesse lugar que se chamava Bloody Irish: o nome de várias coisas importantes que exaltávamos em nossas vidas ao longo da nossa história; era o filho que não tivemos, era um nome só nosso. Um lugar.
Era a antiga senha do computador.
Hoje, ela usa o seu nome na senha. Desconfiei que podia ser.
Por isso entrei fácil no notebook, por desconfiar que pensasse só nela.

domingo, 10 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte III


III

As páginas se soltam. Desfazem. A cerveja tem mais gosto de ferrugem a cada noite que passo com esses manuscritos na barriga.
O cheiro é intoxicante. Preciso limpar a sujeira do sótão. De algumas coisas.
Uma página rasgou na segunda noite, foi ali, na minha mão que aconteceu. E me deu um troço estranho de respeito, como o pai de Lizzy que tem um certo apreço por seus momentos na biblioteca particular. Me perguntei por que um velho tem tanto apreço por um momento com livros, foi um questionamento relâmpago, um resquício de uma coisa besta que nascia dentro de mim.
Então, senhor Bennet, hoje eu entendo. Livros podem ser a cerveja enferrujada que desce goela abaixo em dias de inverno nesses campos verdes vitorianos.
Com essa catarse vergonhosa de crise de meia idade, encerro um pensamento que julgo importante; e ainda fico preocupado com o rasgo no livro. Tô velho mesmo...
E gostando do livro.
Na segunda noite de leitura, eu levo uma fita especial para atar as páginas velhas em respeito à Elizabeth (e porque não, sua família). Fui numa tarde no Maine em busca de algo para consertar o que vinha me salvando. Pesquisei na internet sobre a fita especial para reparar páginas, lá, no notebook sagrado de Christine...
Aguardo respostas e as páginas (já restauradas com a fita especial) não se soltam mais com facilidade. É um tesouro nas mãos de um plebeu.
Christine só me perguntou se eu tinha usado o note. Disse que sim. A senha não era mais o nome do bar em que nos beijamos pela primeira vez.
-Mudei faz tempo, não faz drama por isso. -disse ela, colocando os óculos.
 “Dramático” - sou um dramático agora.