terça-feira, 27 de janeiro de 2009

cartas no chão de gotham

Esse demônio baixa em mim, é meio estranho, Lúcia.
É, veio o inverno e eu achei que a gente ia se ver pela praça cantarolando uma música besta daquelas boas que você lê no lábio da pessoa na hora, mas acho que não te deu vontade de cantar por aqui no bairro, visto que eu não te vi no meu ônibus sempre cheio pelas manhãs.Tava frio esses dias e você não estava lá para segurar a minha mochila.
Todo dia brigo com o relógio e penso que a vida vai ser bem sacana comigo e te colocar na minha frente quando eu subir para mijar e te encontrar na saída do banheiro do boteco, daí não tem ninguém: seguro o meu pau mole e a cerveja me espera na mesa; mas é só sentar e começo a pensar nas noites que a gente pedia um lanche de calabresa no meio do caminho e beliscava uma pizza fria ao chegar em casa...
Lúcia, ao encontro de tudo estou aqui.Pego esse guardanapo da caixinha metálica prateada e te escrevo essas palavras para depois amassar e jogar por aí em Gotham: imagino essa carta no chão e que alguém estranho leia isso para que saiba do meu desejo.Imagino o que o estranho pensa, se você pensa e se somos assim tão imbatíveis na minha mente como personagens de Sin City.Se todos os ônibus, com todas as pessoas e seus mp3´s tocando rádio olharão para mim pensando em ti, em cada rosto que fito buscando a sua cara que não tenho certeza.Eu não me lembro muito do seu rosto às vezes, persigo cabelos iguais aos seus pela cidade para me dar conta que um pequeno detalhe é enorme.
Outro dia persegui uma garota meio familiar do Paraíso até a Consolação.Ela andava rápido.Quando vi, decidi ir para casa dali mesmo bebendo X-Tapa porque ali a cerveja era cara.
Voltando para casa a pé.Os homens se sentem miseráveis mesmo, tontos e decididos num sonho bobo descendo pelas avenidas e passarelas.Eu sou ridículo e aceito que tudo isso é patético.Cartas, cartas de amor não são ridículas, Portuga: são ridículas pra caralho; destinadas a viver numa caixa escondida na gaveta mais alta de um armário velho para te salvar numa noite que você quiser se sentir mais miserável.
Desde quando me tornei uma caricatura, Lúcia?Eu era mesmo engraçado?Lembro que uma vez nós rimos de morrer de uma piada boba minha e você me disse que eu não era triste.Eu lembrei do Cartola cantando “Quem me vê sorrindo...” na hora.Eu sou engraçado, acho que pelo menos eu era.Não, não sou: a gente riu é junto da mesma piada tosca em vários improvisos pelas madrugadas.Era ótima essa nossa piada.
Agora é hora do guardanapo encontrar um estranho.
Uma vez peguei um daqueles balões de gás que voam, ganhei numa festa de crianças em que comi beijinho exageradamente com meus amigos casados; você tinha ido ver a sua mãe essa noite.Amarrei uma carta no balão dizendo que te amava e que era muito feliz contigo.Ele voou pelos céus em meio a trovoadas de uma garoa tímida.
Será que alguém leu?
Porque se isso aconteceu, eu me sinto menos sozinho no mundo, sou um egoísta ridículo de cartas no ônibus desejando a minha doença para o universo nas horas que coloco o fone na cabeça e penso em você, Lúcia.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

minha herança é uma esquina e balas de menta

"It's so easy to laugh
It's so easy to hate
It takes strength to be gentle and kind
It's over, over, over
"
-the smiths-"i know it´s over




Parado na calçada com um cigarro na boca.
Eis ali o dono da padaria com o seu intervalo de fumante constante; deve ser bom fumar, as pessoas encaram isso como um dever e se o patrão fuma também, ele entende que a gente pode e deve fumar.Acho.
Então o dono da padaria fuma com aquela cara afetada, como se tudo fosse um martírio estampado no rosto e a vida fosse um inferno.Mas o dono da padaria é um cara casado com uma mulher linda e ela trabalha no caixa.Sempre sorri para mim quando compro Fandangos e me dá bala a mais no troco.Balas daquelas verdinhas com gosto de menta.
Ela sorri e balança o cabelo loiro.Às vezes acho que sorri mais para quem compra pão do que para seu marido, aquele que fuma com uma cara amarga de quem não ri nem de um gibi bobo faz tempo.Ela sorri, conversa sobre bobagem e diz Bom dia/tarde e noite.
Ele fica ali parado toda a tarde.
O que acontece com essas pessoas?
Elas fumam, sorriem, ficam putos do nada e voltam para seus postos depois de um tempo.
O dono da padaria me parece um homem triste.
A mulher me parece mais feliz, mas na soma é mais triste do que o seu marido; mas não fuma fazendo cara de cu.
Daí eu vou lá e compro um Fandangos de tarde.Decido pegar um Marlboro para experimentar, ver se ela irá sorrir e me dar balas.
-Obrigado, viu!Volte sempre!
Ganhei a mesma bala.Mesmo sorriso.Sou fumante.
Eu achava que ela ia me tratar mal, me odiar como o marido que fuma lá fora amaldiçoando as pessoas na calçada.
Penso.Fumo.
Começo a tossir muito pensando na mulher loira do caixa.Tenho raiva dela por ser tão falsa e me tratar como todos.Fico triste do nada, a fumaça sobe pela janela em uma baforada torta pelos prédios.
Não sei fazer anéis de fumaça.Nem para fumar eu presto.Não fico bonito com cara de cu quando estou triste fumando.Até Bogart ficava.
Passo lá outro dia e digo:
-Você fuma...?
Ela sorri:
-Não.
-Ah, tá...
Pego a bala e saio correndo.A voz dela me atordoa; fico tremendo por ouvir a voz dela se dirigindo a mim.Me dá um poder, sinto que posso beijá-la.Topo com o marido horrível fumando na esquina com desgosto.Acendo meu Marlboro e fumo sorrindo, solto uma leve fumaça em direção a ele com desprezo.
Quase um anel se desenha no ar e sobe pela tarde na Vila.
Em uma tarde infernal pela Pôr do Sol, descubro que penso demais nela e que talvez a morte desse pensamento me deixaria uma pessoa mais tranqüila e menos patética; acompanhando esses sentimentos, solto fumaça pelo ar como se fosse o que há dentro de mim.Fumo, como se quisesse tirar algo, como se a vida fosse tudo fumaça e os cientistas todos uns fumantes enrustidos.Milhares de propagandas, câncer e impotência sexual: fumo, fumo e fumo mais.Afasto a mágoa na esquina como o dono da padaria.
Como o dono da padaria...
Decidi comprar um Lucky Strike naquela tarde de grandes descobertas precoces onde não fiz questão de esconder nada e gritei como um presidiário quando gozei pensando na minha moça da padaria, a cueca lá, toda manchada ganharia mais companheiras.Manchas, manchas em todas as cuecas marcadas à caneta com o B de Belmont.
Penso que a amo.Imagino ela vendo um filme comigo.
”A morte em vida começa assim” -penso eu, um garoto da Vila tosca em meio a casas enormes em volta da velha praça.Se deus existe ele ouviu o meu lamento.
Lucky Strike.Outros gostos.
E então aquelas luzes azuis e vermelhas tomaram todo o ar e na esquina onde ficava o dono da padaria.Um nóia assaltou a padaria e deu um tiro na cabeça da minha amiga que me ajudou a fumar naquele período onde a fumaça entrou na minha vida.Dizem que ela não reagiu, o ladrão viu algo e puxou o gatilho.Bobo, que só eu , pensei que talvez ela naquela vida desgraçada onde todos olhamos para o céu, quisesse dar uma bala de menta e um sorriso para o seu assassino.
Não se viu mais o dono da padaria.
Eu, como Matt Dillon em “O selvagem da motocicleta” assumi o que os outros deixam de fardo para a gente e tomei a esquina para mim: lá em direção a Igreja onde tem uma banca decadente que não vende nem jornal, passei a minha adolescência fumando escondido e vendo mulheres,cachorros e carros passarem.Comprava um Fandangos na padaria nova onde não se via as manchas de seu sangue no vidro escrito "entrada" ou a sua doçura, moça loira.
Lá no mirante da praça, eu fumava e olhava para essa cidade com o seu céu cinza que a gente tira de dentro da gente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

as bombas atômicas da minha infância

Tem um sonho que me acompanha desde que era pequeno.
Nele, toda a vez que subia para buscar pão na Natingui explodia uma bomba nuclear lá na Vila.
É preciso registrar que eu odiava buscar pão: não há nada mais entediante para um garoto estar brincando com os seus Comandos em Ação ou jogando Atari e ouvir a mãe gritando “Vai buscar pão!” umas mil vezes.Pra não falar que era uma fase normal de alienação-infantil perante esses problemas, devo dizer que esse hábito me acompanha até hoje: não comemos mais pão francês, só aquele Panco (antigo Seven Boyz) com mortadela e queijo naquela chapa de pobre que você enfia na boca do fogo diretamente para esquentar.E queima tudo...
Desisti de buscar pão.
E lá estava o sonho: eu, criança, indo com o saco do tamanho da Lua naquela padaria maldita com as suas abelhas-mutantes-do-filme-Sci-Fi-dominical-do-Sílvio-Santos rodeando todos os sonhos açucarados, línguas-de-sogra e fazendo os pobres moleques preguiçosos (como eu) ficarem com o cu na mão de serem picados.
Peço cinco pãezinhos e corro batendo com a mão, afastando as abelhas que insistem em me picar, essas abelhas que insistem em morrer.
É, elas morrem: deixam lá o seu ferrão enfiado na nossa pele e vão voando para morrer num lugar calmo cheio de flores e pólen, as asas ficam mais pesadas...
Dormem no cemitério das abelhas como Baleia sonhando com os preás.
Deve ser triste ser abelha.Mesmo não gostando delas, o eu-criança do sonho achava triste esse destino.
Jogo as moedas no vidro e espero a mulher contar.Agradeço como tonto desde pequeno esses seres que vivem atrás de balcões; mais tarde seria eu que estaria lá ouvindo desaforo e esperando os meus namoros fugirem na aurora de uma rotina cheia, dura e besta.Olhando o dinheiro nas minhas mãos e escrevendo sobre a vida dos outros que se encenava na minha frente.Fechando o caixa e contando tudo de novo.
Desço as escadas lindas da padaria no sonho: e só agora vi o prazer que sentia na época em estar descendo, pulando os degraus brancos com os meus chinelos velhos, cabelo espetado e camisa do Bloco do Boi.No final, não era tão ruim estar lá, ia pensando em como seria a próxima fase do Megamania no Atari.
É, bem ali, sorrindo, sempre olhava a Rua São Macário, aquela rua enorme/alta que ficava ao lado da padaria, onde descíamos de skate e os mais velhos no estilo skate-punk tinham o shape de Fernandinho Batman, onde brincávamos de Goonies e eu descia com a minha bicicleta azulzinha Caloi toda fudida e fechava os olhos: eu era o Watson/Sherlock do filme “Enigma da Pirâmide” a descer naquele cacareco pelos céus da minha infância.Nossa, eu fechava os olhos enquanto a bicicleta descia com tudo.Eu fechava os meus olhos quando fazia isso.Voava.
E nessa rua, lá no meu sonho, eu parava para olhar a descida e a vista que ela proporcionava.Surreal.
Lá longe, algo laranja caía na Vila e era tão forte aquele cometa caindo que logo fiquei surdo.Estourava como um rojão batendo no chão,soltava vento forte para todos os lados e ia espalhando fumaça para o alto como uma árvore alta em raízes superevoluídas; um cogumelo se erguia.Eu segurava o pão hipnotizado com o espetáculo,sem ouvir nada,vendo aquela coisa laranja jogar o vento com seu peso, a vista e o pôr-do-sol que se anunciava para os moleques recolherem as pipas e irem para casa tirar sua camisa encascorada de brincar.
E era lindo o fim do mundo lá na Vila com as pipas pelo ar.
Eu sonho com isso há tanto, tanto tempo que não sei dizer.É um sonho repetido, tranqüilo e igual em todos os detalhes.Eu sonho com isso antes de saber o que era um cogumelo atômico, a bomba atômica ou as razões para alguém inventar isso.Eu já devia ter visto filmes e imagens com a bomba, mas...
Eu devia ter uns 9 quando começou.A gente vivia mais, não era preso e vivia na rua, não via televisão dia inteiro ou ficava carregando o celular na bateria nessa idade.Sábado tinha luta livre: Gigantes do Ring!
Pensava na bomba atômica da minha infância no último dia do ano.Hoje.
Em como a espera é algo tranqüila e descompromissada, em como eu não tenho ansiedade pelo o dia e o ritual em si dessa passagem de ano.Nunca visto branco (coloco a camisa do Misfits),não pulo ondas e tenho sido aquele que é conhecido por fazer tudo ao contrário, aquele que veio do Mundo Bizarro; as pessoas dizem que te respeitam desse jeito como a Bridget Jones e que sou isso ou aquilo, mas cedo ou tarde a gente vira a piada numa mesa com gente chata e que não sabe beber, piada na cama de mulher que te amava com um cara- idiota-rindo-com-bafo-de-café-caro.Não há retrospectiva, só bombas e amigos; isso é parte integrante da nossa vida como as ilustrações das figurinhas nos álbuns que a gente tenta completar.
Esperamos as bombas no final de ano.Nos meus sonhos.Ela lá tranqüila.Os fogos hoje à noite com as únicas pessoas que me aturam todos esses anos e vice-versa.Pensarei em vocês todos, com certeza, mas não é por que é ano novo, mas por que eu sempre penso em todos que fizeram parte integrante da minha vida.Minhas figurinhas de álbum.Minha ficha de Pinball.A bomba tá lá no sonho até hoje.
O ano novo chega por aqui.
Quem sabe hoje à noite eu sonhe com a bomba e me assuste com aquele arrepio de criança que não tenho há tempos,hein?!Aquela coisa proibida de ver um filme de terror escondido da mãe ou brincar de esconde-esconde e uma garota linda te abraçar com medo de barata...
-É isso que significa a bomba no meu sonho, Holden Caulfield?Aquele arrepio?Nada apocalíptico?
Ah, as bombas atômicas da minha infância...

domingo, 21 de dezembro de 2008

filosofia de quadrinhos

Para que servem as palavras no papel?

Tímidas, raivosas, ou incompreendidas?O papel pode queimar, molhar, mas é mais fácil difícil acontecer isso para um papel do que para um ser humano.
Às vezes você tá lá se sentindo o fodão e (pum!) te dá um ataque cardíaco .Cê morre e a vida se encerra no meio de um espetáculo não muito popular com ingressos caros.Miguel Falabella dá risada de você na Broadway de seu teatro ruim.O papel, meu chapa, continua lá naquele caderno ensebado e empoeirado do teu quarto,da sua mochila que toma chuva e enruga as páginas: não sofre combustão espontânea ou dilúvio como desastre natural.O papel é mais forte que a gente e as palavras o deixam mais fodão que o próprio Thor.
É o Martelo com o seu nome que só você pode carregar.

domingo, 23 de novembro de 2008

meu pai era um ladrão de trem

Mike.
A vida nos ensinou que os homens devem ser fortes e destemidos como Daniel Boone. Crianças têm todo o direito de chorar, porém o pranto possui, unicamente, a função de protegê-las do mundo áspero e seco das lágrimas de um adulto. Ao longo do tempo, filho, perceberás que as coisas parecem nos cercar como as sombras inevitáveis que mudam de ângulo quando o sol se esconde à tarde.
É como se fosse "aquele peso"... Uma corrente que te puxa.
Saiba que seu pai já sentiu isso, e que todos os homens e mulheres de verdade já tiveram aquela incerteza de acordar na própria casa e não saberem onde estão. Filho, é uma sensação de tatear a parede fria do seu quarto, e achar que é uma placa com um anúncio em outra língua. All right, mate?!
Saiba que os dias, estes (às vezes) se tornarão impossíveis até para o mais simples semicerrar dos olhos. Cuidado, pois estes dias são como paredes que te apertam num labirinto. Paredes, paredes frias... Sabe do que eu digo?! Se ao acaso souberes que teve um dia como esse, filho, esteja ciente que este significa um desafio; um confronto que nós devemos passar por todos os meios necessários. Todos.
Mike, verás que esses dias são como pequenos momentos, fragmentos de tempo que te aproximarão a todos os homens e mulheres, de igual para igual. O mesmo handicap, Mike. Lembra das lutas de boxe que assistíamos à noite nos quiosques?! São dias em que todos batalham não só uma luta gloriosa para a humanidade, mas, sim, o da própria sobrevivência.
Se você me perguntasse se a vida é difícil, eu tenho que lhe dizer que "sim". Mas se me perguntar que ela é impossível, eu lhe direi que "não". Definitivamente.
Seja forte, Mike, seja o homem que quebra as paredes. Que luta justo no ringue.
Seja tudo o que quiser, Mike.
Seja o filho que eu queria que estivesse ao meu lado. Você foi o melhor amigo que alguém pôde ter na vida.
Se eu não escapar dessa, cuide da Mundinha, e chore o que tiver que chorar no dia do meu enterro; mas, se no dia seguinte tiveres lágrimas em seus olhos, irás encontrar sua primeira parede. Nomeie-a e a atravesse de mãos dadas e unidas com sua mãe.
Filho, eu te amo.
A vida segue de alguma forma, você vai ver...
                                                                        Ronnie

domingo, 9 de novembro de 2008

o som dos passos

Hoje quero fuder.
Fuder com a tua vida, cara, não o seu cu ou a sua boca: fuder com o óbvio dessa vida tosca que você leva.Que eu levo.Mas há divergências (você pode argumentar que eu estou errado, mas não há tempo às vezes) e entre a minha vida e a sua, eu prefiro a minha na repartição,envelhecendo, lá, jogado com a máquina de escrever sem ver a sua cara como sempre fiz todos esses anos.
Me disseram que você fez piada quando eu conversava com as putas lá no Centro, que eu vinha tremendo conversando com as mulheres.Você viu isso?Eu fiquei puto, porque nesse lugar de merda todos tiram o maior sarro da minha cara há dez anos de uma forma silenciosa por que todos têm medo de mim.Já ouvi que tenho cara de psicopata, louco.Era o único respeito que adquiri na minha vida.E numa noite, ri de uma forma prazerosa constatando o que era o respeito.
E você,você é um bebezão que está na firma há menos de seis meses!
Vi você no corredor outro dia com aquela mandíbula toda simétrica e seus dentes brancos como os fantasmas de comerciais Colgate e tinha certeza que falava de mim para as garotas do escritório.Fui remoendo tudo e todos os problemas, dívidas, broxadas, surras e foras que levei na vida ,tinham o seu nome.
Daí, eu planejei te matar da forma mais cruel e lenta possível; de um jeito que a literatura, cinema ou quadrinho jamais imaginou.Conde de Monte Cristo se orgulharia de mim.
Pensei muito.Tanto, que doía a cabeça.
Depois, arrependido, decidi que um mês torrando meu cérebro em uma forma original de te matar, era ser perfeccionista demais.Você não merecia tanta dedicação da minha parte.Ninguém nunca mereceu tanta assim.
Eu era um bosta que não encontrava um jeito perfeito de cortar todos os dentes brancos da sua boca ou pendurar seu crânio de um jeito decente na Praça da República...
Eu tinha um canivete enferrujado.Ele está comigo desde criança.Decidi então te furar com ele: diversas vezes,repetidas e fortes na sua cara e depois no corpo todo.Já vi gente tomar facada em boteco: a faca entra e sai que nem um pinto com lubrificante; você parece papel, boneco de Judas, babaca de escola levando tapa na hora do recreio com um punhal te penetrando (não dá para fazer nada,as mãos batem no ar tentando impedir pateticamente); é lindo.Uma faca de açougue era perfeita, mas achei o canivete mais adequado, pois o fato de ele ter enferrujado, conspirava com a missão de ter estado numa gaveta por anos só para atravessar sua carne de uma forma suave e ferruginosa.Manchar teu sangue,contaminar algo que vai morrer.
Bem, você está lendo isso nesse momento na sua mesa.
Quando eu ver que terminou ou entendeu o recado e largar o bilhete para se proteger numa reação boba de defesa ou alerta, eu vou de encontro a você com o canivete enferrujado nas mãos e vou te perfurar várias vezes seguidas de uma forma cruel e vou enfiar todos os meus 43 anos de decepções no seu corpo torneado que você desperdiçou com exercícios numa academia para ser adorado, em facadas para destituir todo o seu tecido e te desfigurar para que o seu caixão esteja fechado e sua mãe chore sem poder te ver.
Depois, talvez me prendam.Talvez eu me mate lá.Talvez mate mais gente lá.
Mas, se você chegou até o fim do bilhete sem esboçar uma grande reação e sem rir da ameaça sem pensar que foi um colega do trabalho pregando uma peça boba, talvez eu lhe poupe.Se houve um grande crescimento pessoal ao ler esse bilhete nesse meio tempo da sua vida, talvez haja esperança para você.Para mim.
Mas não me venha com putaria, seu merda: coloque o bilhete de novo na minha mesa e não diga nada, certo!?
É, parece que esse é o fim do bilhete e se não pirar de vez ,você viverá mais e sua vida não acabará aqui.Não pelas minhas mãos.Mas não pense que se eu te ver morto um dia vou ficar triste.
Agora, você sabe o que fazer.Ande a até o final do corredor em direção ao meu cubículo.
O som dos passos em direção a algo que deve ser respeitado faz um homem pensar e envelhecer mil anos de experiência em alguns segundos que não terminam.E se você fizer isso ,talvez se torne um.
Um homem.Um homem que já teve medo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

o envelope pardo

-A-alô??
Silêncio curto.
-Novecentos.-respondeu meio sem paciência.
-T-tá...
Desligou o telefone.Depois de uma meia hora comprou um jornal, sentou num banco do Ibirapuera em frente à fonte e esperou uma meia hora.Leu o jornal meio entediado porque não entendia mais nada do mundo.Nem de futebol: o seu time não tinha mais Ademir da Guia há um bom tempo.
Quando deu sete e meia da noite, puxou um pequeno volume de uma mala, colocou dentro do jornal e levantou.Foi embora tossindo.
Um corredor calvo numa suadeira do caralho com uma bandana preta passou , sentou-se no banco e pegou o jornal.Olhou para os lados.Guardou o volume da página 7 do primeiro caderno no seu bolso traseiro.
Viu o show da fonte psicodélica do Parque.Jatos de água coloridos.Achou “legal”, mas um pouco idiota...
Depois disso, fez mais uma corrida até a saída.Pegou um táxi botando os bofes pra fora e amaldiçoando todos aqueles idiotas que se vestiam de Adidas.Inclusive ele próprio.
Chegou em casa, tirou a bandana da careca suada e fedida e a jogou na cama desarrumada.
Abriu o envelope pardo.
Deu uma bela olhada. 20 segundos se passaram.
Fechou o envelope, deixou em cima do criado mudo.Foi tomar banho.
Uns vinte minutos depois, uma mulher abriu a porta com muito esforço.Jogou a bolsa numa cadeira.Viu o pacote de cara.Óbvio.
Olhou para dentro do envelope, abrindo com os dedos.
Balançou a cabeça como se fosse uma coisa bem idiota.Era, na cabeça dela.
-Tô te esperando.-gritou meio brava na porta do banheiro , tirando a calcinha.
-Tá.
O careca abriu a porta de toalha e viu a mulher pelada na cama de perna aberta e com uma puta cara entediada de esperar.
-Você viu?-disse o careca
-Vi, vi sim.Que grande merda.
Ele balançou a cabeça meio triste.
Abriu o envelope, pegou alguma coisa dentro dele e foi para a cozinha.
Voltou com um copo nas mãos.
A mulher, puta de raiva por esperar, grita:
-E agora!?
Silêncio constrangedor de 5 segundos.Colocou o copo em cima da TV.Olhou para o relógio.
-Bem, agora tem que agüentar mais uma meia hora...

domingo, 26 de outubro de 2008

jukebox

Estamos aos prantos.
Eles dizem "choro”. É só um recurso, um estilo, uma palavra.Eles dizem que temos que comprar os livros dos homens que roubaram a infância do seu pai que queria ser abduzido, que tiraram a vontade da sua mãe de bordar patinhos num avental quando ela escrevia poemas bonitinhos sobre o primeiro amor.Eles dizem que é choro. É uma sensação antiga.Eles dizem que é dejá-vu.Eles dizem que as tuas palavras não valem nada e só os que persistem nessa vida serão os vencedores e herdarão um reino de recompensas e promessas antigas.
Eles dizem tantas coisas: que não plantamos nossas árvores no canteirinho da praça...
Que somos desgarrados e não temos mundos para colher, filhos para alimentar, namoradas para abraçar; às vezes somos párias mesmo (estão certos muitas vezes), uns desajustados.Seres que mal completaram ou alcançaram a maturidade.Os James-Deans-feios que não morreram jovens com um mínimo de decência para serem idolatrados pelo o que fizeram ou deixaram de fazer.
Normal.Todo mundo às vezes se sente como aquela hiena de desenho de Hanna Barbera.
Trocam de lado também: viram risonhos, dançam tarantella e cantam "Sympathy for the devil” num karaokê-yakuza da Liberdade se abraçando numa noite inesquecível.
Assim é a vida lá naqueles lugares: uma ficha na jukebox e uma série de músicas horríveis até chegar aquela que você colocou na máquina com carinho.Você fica lá batendo o pé, fazendo guitarrinha no ar e agitando sozinho-bêbado enquanto os holofotes te cegam. Cantando a letra até errado.Porra , é bom quando a sua ficha chega.
Eles dizem que é bobagem, ilusão.
Os porras nunca souberam esperar as músicas na jukebox.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

late night, maudlin street

Winter coming
Winter for sure, For sure
Oh, winter for sure
Winter - the snow, winter moves on


The last night on Maudlin Street
Goodbye house - goodbye stairs
I was born here, I was raised here and
I took some stick here
Love at first sight may sound trite
But it's true, you know
I could list the details
Of everything you ever wore
Or said, or how you stood that day
As we spend the last night on Maudlin Street
"Goodbye house, forever!"
I never stole a happy hour around here
Where the world's ugliest boy
He became what you see
Here I am - the ugliest man
Oh the last night on Maudlin Street
Truly I do love you
Oh, truly I do love you
When I sleep with that picture of
You framed beside my bed
Oh, it's childish and it's silly
But I think it's you in my room
By the bed (...yes, I told you it was silly...)
And I know I took strange pills
But I never meant to hurt you
Oh, truly I love you
Came home late one night
Everyone had gone to bed
But you know, no one stays up for you
I had sixteen stitches all around my head
The last bus I missed to Maudlin Street
So, he drove me home in the van
complaining: "Women only like me for my mind.."
Don't leave your torch behind, a power-cut ahead 1972, you know
And so we crept through the park
No, I cannot steal a pair of jeans off a clothesline for you
But you without clothes
Oh I could not keep a straight face
Me - without clothes?
Well, a nation turns its back and gags..
and I'm packed
I am moving house
A half-life disappears today
With every hag waves me on
Secretly wishing me gone
Well, I will be soon
Oh - I will be soon, I will be soon..
There were bad times on Maudlin Street
They took you away in a police car
Dear Inspector - don't you know?
Don't you care? Don't you know about Love?
Your gran died and your mother died
On Maudlin Street
In pain and ashamed
With never time to say
Those special things
I took the keys from Maudlin Street
Well, it's only bricks and mortar!
Oh.. truly I love you
Wherever you are
Wherever you are
Wherever you are
I hope you're singing now
Oh I do, I hope you're singing now

                                              MORRISSEY

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

n . d . a


Precisamos de alternativas.De respostas que nos satisfaçam imediatamente.Ignoremos o que está por vir, pois o que realmente importa é a satisfação: indolor, rápida e com um friozinho refrescante como uma bala de Hall´s de sabor exótico Nos dê alternativas: não nos importamos que elas sejam só duas e que elas não satisfaçam os nossos medos ,aquele momento com o nosso travesseiro babado onde ficavam os nossos sonhos.Joguemos aleatoriamente os nomes num saco.
Dos sonhos ,só nos restam cabelos nos travesseiros .E nosso egoísmo.
Nos dê alternativas.Poucas.Não importa se a) ou b): nossas esperanças estão depositadas em nomes; representam a dualidade de folhetim vista em novelas, o Ying Yang do rotineiro, do que se fala em filas do banco e se cala perante os nossos suspiros vendo a vitrine de uma bela TV gigante no Centrão.Temos alternativas então, oras!Se temos! Esqueçam dos números ímpares e tudo que é singular nessa terra fodida.Então agarrem os teus números e pensem em algo que gostariam de fazer enquanto os dois nomes serão escolhidos naquele saco fedido e aquela mão gordurosa agarra o papel A4 recortado com a sua alternativa.
Daqui a quatro anos façam o mesmo.
E assim sucessivamente.