terça-feira, 29 de setembro de 2015

ladrão

Diga qualquer coisa. Diga. Diga uma palavra, uma sentença qualquer, e então eu a roubarei para as minhas histórias infrutíferas; para o meu deleite secreto e pervertido, e não retornarei nada a você... a não ser essas palavras canhestras que buscam (e anseiam) por um ponto final.
.
Diga, diga aí, vai (!), qualquer coisa; e dê adeus, pois tomo à força o seu discurso. Afinal,  eu sou um ladrão! Um escroque, um patife, um filho de uma puta de um fora-da-lei. É isso aí. Um ‘função’. Dos mais desonestos, dos mais cínicos e sórdidos… Sou revoltante. Reconheço. Eu roubo tudo. Sem dor na consciência, sem questionamentos noturnos em busca de um café ou whisky: a minha ‘literatura’ é uma desculpa para roubar (e devolver) algo que nem é um trocado; uma esmola. É um ‘nada’, morô?
Eu não devo nada à sociedade dessa forma... ‘roubando’ essas palavras à força, sabe?! Talvez eu seja um farsante (talvez...). Meu conceito de justiça é romanticamente desonesto, insulta os nobres bacharéis e os homens dotados de grandes ambições; o estilo usado é uma desculpa (sem fundamentação teórica) que uso apenas para praticar atos desonrosos, de uma banalidade tão violenta, que ouso chamar de ‘minha literatura’.
(dou uma gargalhada de vilão caricato quando entoo essa palavra tão pomposa...)
Lá, nesses delírios torpes das palavras que roubo (e transformo), eu enxergo um ladrão charmoso; o Robin Hood do lado de cá da ponte, o malandro que dá golpes nas feiras de praia, o moleque que coloca a ficha no fliperama e a puxa de volta com a cordinha... Afinal, me tiram tudo! Fui privado dos sonhos que cultivei! A minha vida toda eu ouvi promessas de horizontes distantes e viagens bem-sucedidas, e o que recebi em troca foi somente uma folga durante a semana e suspiros entrecortados… Meu Deus, eu só quero compensar o que perco roubando algo de vocês! Essas palavras que eram tuas...
Jamais desejei algo tanto assim. Ser ladrão.
Não ter posse de nada, a não ser das frases minhas que ouço, e roubo, por aí.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

no time for romance

no time for romance, no time
no time for clean sheets, strong coffee,
shiny furniture
hearts on the wall, happy graffiti on the sidewalk,
got no time
it’s an odd sort of feeling, indeed
oh the Awe...
he kept me frozen, highly educated, uncomplaining
polite.
and yet
still
got
no time for romance or kind voices
no time
no

segunda-feira, 29 de junho de 2015

telemarketing of the dead - parte 3 de 3

Passamos a catraca. Batemos o cartão no sensor. Fomos revistados.
Tinha uma “pausa-reunião” de uma equipe no meio do caminho. E tínhamos que esperar, era uma das regras. A reunião era feita no meio do caminho, entre a passagem das alas e o refeitório. Tudo era meticulosamente feito para nos atrasarmos e dobrar períodos. Não era permitido falar durante a espera. Ficamos ali, quietos, esperando o término da reunião.
O supervisor falava de metas, motivação, dava umas broncas aleatórias na equipe, falava do sentido da vida, do feriado que teriam de trabalhar com orgulho, etc..
Eu dei umas olhadas marotas para ela vendo aquela cena. Ela retribuiu.
Disse no ouvido dela:
- Eu tenho um desenho desse supervisor lá no banheiro.
Ela riu. Baixinho.
Quando, finalmente, a pausa-reunião terminou, apressamos o passo. Passamos a catraca, batemos o cartão de acesso. A sala era à prova de som. Entramos na nossa ala. 
Paramos. A cena.
Um som ensurdecedor de desespero e trevas. Imagens de uma central de telemarketing.
O Angélico mordia a cabeça e arrancava um pedaço do cérebro do pobre cara do cubículo com bandeirinha. Destruição e morte. Sangue. Vísceras em cubículos. Gente dando machetada em chefes e funcionários, enforcamentos com fios de telefone. Gente mordendo a cara dos outros, arrancando línguas à força e abrindo barrigas com as mãos e dentadas violentas. Uns, mais desesperados que outros, quebravam os vidros e se jogavam pelas janelas. Ouvíamos os corpos caindo em cima dos carros no estacionamento. Um som horrível. Luta. Fome. Tripas e sangue em profusão pelos cubículos.
(imaginem isso em uma câmera lenta…)
Fechei a porta de vidro com força. Os mortos nos olharam.
“Uuhh, hueehhhh!!” – disse o Angélico, olhando para a nossa direção. Todos olharam com o barulho da porta. A carnificina fez uma breve pausa de três segundos.
Não pensamos em mais nada. Só havia o horror. Peguei na mão da Nadja (nossa, que macia…), saímos correndo em direção ao refeitório. Caos. Sirenes. Corremos em direção aos elevadores. Alguns corriam com o barulho infernal dos alarmes, outros empunhavam seus facões e gritavam “morte aos comunistas”, mas não ficamos para ver mais.
(imaginem isso, de novo, em uma câmera lenta…)
Foi como eu disse, todo mundo já esperava isso. Era um processo, uma mensagem em uma rede social. Um inferno de zumbis com camisas da seleção brasileira matando uns aos outros. O meu apocalipse. 
O nosso apocalipse.

(sobem os créditos da apresentação)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

telemarketing of the dead - parte 2 de 3


Tomamos um café pela primeira vez. Eu e Nadja. Às vezes ela se sentava perto da minha equipe. Como aquele lugar nunca era organizado, trabalhávamos aonde dava. Nunca ficamos no mesmo lugar. E aquela foi a primeira vez que nos sentamos tão perto.
O dia prometia.
Ela me contou de um lance que tava rolando no Face, dos facões e das camisas. Era uma corrente. As mensagens falavam de corrupção, de exageros, de falta de liberdade. Criavam eventos e protestos em fins de semana. Como trabalhávamos no domingo, muitos funcionários estavam ali na empresa “protestando” com os trajes adequados e mostrando sua adesão à causa; enquanto a playboyzada voltava da praia em protestos organizados nos trânsitos. Nadja me disse que tinha até um protesto-micareta na praia para os que estavam com a família. Enfim, todos estavam protestando. 
Acho que só eu não sabia disso até então...
Um troço meio abstrato. Ela continuou:
- Eles mandam essas mensagens todos os dias!
- Caramba, Nadja, eu meio que saí do Facebook… Tava por fora mesmo. Sei lá, a minha vida não é tão empolgante quanto a dos meus amigos … mas, me diga, essas mensagens são tipo aquelas de Candy Crush?
Fiquei com uma cara de idiota fazendo a pergunta.
(ela me olhou com ternura. e explicou, toda bonitinha, ignorando o tom idiota da pergunta)
- Isso aí.. mais ou menos …
(continuou. arrumou uma mecha no cabelo que caía na testa. tão linda …)
- … só que é uma solicitação de um aplicativo que manda automaticamente para todos os usuários… como um vírus...
- Tipo Candy Crush?
Ela me olhou. 
...
- É, pensando bem …sim, é como se fosse Candy Crush! Uma praga! Nossa, eu tive uma epifania agora! Será que o Candy Crush é um vírus ideológico também? Um programa secreto?
Dei de ombros e disse: - Vai saber... Eu ri. Ela disse de um jeito tão divertido. Continuou: - Então... já que tem muita gente compartilhando essas mensagens, sem contexto algum ou questionamento, a coisa chega em todo mundo... Eles marcam um protesto todos os fins de semana, em atos diferentes, com coreografias diferentes. Por exemplo, hoje, é dia de protesto.
- Que protesto? Esse lance dos facões com purpurina? Pra quê?!
- Hoje, de acordo com o evento do Face, é dia demonstrar o repúdio contra os testes do vírus comunista em cobaias. Todo mundo tem que usar camisa da seleção e usar facões para matar os zumbis afetados pelo vírus.
Eu fiquei olhando um tempão para a cara dela.
Acho que, nesse momento, ela se assustou um pouquinho com isso.
- Como é que é, Nadja?! Nossa, eu preciso MESMO acessar o Face!!! Vírus?
Ela me explicou a parada. 
Didaticamente.
Rolava um boato nessas mensagens. Um rumor de que o governo testaria cobaias em um suposto programa secreto de imunização ideológica. O intuito? A agenda do programa? Tornar a todos comunistas. Com esse mote, e de acordo com o rumor e as mensagens do Face, o governo recrutava alguns coitados e ministrava essa droga como um teste preliminar de controle da população, implantando uma ditadura comunista no país. As cobaias recebiam uma bolsa-pagamento para tomar a droga. Uma espécie de Soma Vermelho. A corrente das mensagens se chamava “Fora Bolsa Comuna!!”
Era o nome que eles deram para a vacina... 
(bem...)
Eu tomei o café bem devagar. Degustava bem aquele papo e aquele nosso primeiro contato visual. Sim, aquilo tudo era uma bizarrice, mas...
- Nadja, bem “viagem” esse lance, né? Mas vai saber... essa não é a coisa mais estranha que eu vi no Face...
Ela riu.
- Poxa, se parece “viagem”? Tá me vendo com camisa de CBF e facões?! Olha esses babacas! Eu odeio esse lugar, um dia vou explodir essa pocilga. Eu vou sentar na bomba igual ao Holden Caulfield! Mundo besta abissal!
- … (suspiro)
(meu. deus. eu amo essa mina. eu amo. não consegui falar nada depois daquilo)
Nos olhamos. Duas almas-perdidas no refeitório tomando um café corrido e mastigando um pãozinho com manteiga às pressas. Sem direito a digestão. Fugindo do trabalho, tentando respirar um pouco. Tudo à volta ganhava um novo sentido naquele dia.
Passava um cara que era mó puxa-saco do Angélico. Tinha uma camisa da seleção brasileira e um facão que brilhava com uns adesivos da empresa. Ele fazia uma pesquisa com os funcionários, queria saber qual brinde preferíamos ao atingir a meta: um chaveiro ou um copo de plástico.
Aquilo era tão triste que nos entreolhamos, apercebendo-se do nosso dia de merda à frente...
- Vamos voltar?
- Vamos, já estourou a minha “pausa-banheiro”. Não posso tirar mais, Nadja. Agora só tenho a de almoço e janta...
- E a de medicação? A pausa da Fluoxetina? Você tem que usar! É o nosso direito!
- Não consegui uma receita, Nadja... esses médicos não são humanos… o RH daqui também é foda...
Ela me olhou com uma cara bonitinha de compreensão e ternura.
(ai, ai, essa menina …) Nos levantamos. Respiramos fundo. Olhamos à nossa volta. A preparação para o dia de trabalho estava nesse momento de contemplação das ruínas. Olhei para ela:
- Mas, vou te dizer, valeu a pena perder a pausa, tudo... Ela sorriu.
(continua)

terça-feira, 9 de junho de 2015

telemarketing of the dead - parte 1 de 3


De qualquer maneira até que achei bom eles terem inventado a bomba atômica. Se houver outra guerra, vou sentar bem em cima da droga da bomba. E vou me apresentar como voluntário para fazer isso, juro por Deus que vou.

O Apanhador no Campo de Centeio - J.D Salinger
Estranhamente, o apocalipse zumbi não foi lá aquela surpresa que esperávamos…
É. A sociedade toda já estava em um processo à época. Tão grande e avançado que, quando a coisa de fato aconteceu, todo mundo já tava ligado na parada saindo com um facão nas ruas nos primeiros dias.
Naquele dia não levei o meu, basicamente, porque não acessei o Facebook.

Cheguei no trabalho aquele dia. Peguei a fila do ponto. Bati o ponto. Passei o cartão de acesso. Fui para o meu cubículo. Coloquei os plugues do desktop de volta à tomada. Procurei a minha cadeira para sentar.  Não tinha, alguém levara. Tive que buscar um assento decente em outro departamento. Liguei a máquina. Fiz o meu login. Loguei no ponto virtual. Bati o ponto virtual. Iniciei o programa de chamadas. Loguei no programa. Liguei o terminal. Loguei no terminal. Procurei um headset. Não funcionava. Outro departamento, head… Testei o fone. Loguei na rede. Aguardei uns minutos. Loguei de novo… Loguei na pasta de e-mails compartilhados. Loguei a minha conta de e-mail. Fui à mesa da equipe. Aguardei a fila. Escrevi meu nome e horário de entrada em um papel xexelento. Fui ao meu cubículo. Loguei no meu terminal de chamadas. Iniciei o meu programa de mailing. Pluguei o fone do head.
Pedi permissão para ir ao banheiro. O supervisor disse que “uuuh”...Ok. A mesma cara de merda... o mesmo grunhido que significava, sempre, a mesma coisa: “espera uns dez minutinhos”.
Depois de um tempo a gente pega as manhas da empatia comunicativa do lugar.
Liguei para uns clientes. Dei uma enrolada. Derrubei umas ligações. Percebi que todos estavam com camisas da seleção brasileira e portando facões lustrosos. Devia ser algum dia temático que eu nunca participava. Uns exibiam uns cintos e coldres pintosos, cheios de adereços para encaixar os longos facões; outras, portavam bolsas adaptadas Louis Vuitton com slots adicionais de machetes desenhados pelo Alexandre Herchcovitch.
(até que esses eram da hora, cheio de caveirinhas e glitter, stáile …)
Tava com mó vontade (mesmo) de mijar e não aguentei:
- Angélico, posso ir no banheiro?
- Huh, huuuuh ...
Fiquei puto com aquele escroto. A mesma cara, o grunhido de novo...
- Poxa, mas já deu dez minutos! Posso usar a minha pausa de banheiro de 5 minutos para ir? Eu nem preciso tomar café, isso é secundário diante das minhas necessidades agora ...
O Angélico, um gordo suado-escroto do caralho e cheio de espinhas na cara, não respondia.
- Mano, na boa, tô pedindo com educação...
Silêncio.
- Huh, uaaah, heeeh...hueeeh...
Porra.
Que puto do caralho. Nem para responder direito, só resmunga o filho da puta...
Subitamente o desgraçado começou a gritar comigo. E partiu na minha direção balbuciando murmúrios e coisas sem sentido, todo putinho e babando ódio. Derrubou uma cadeira.
- Cara, na boa, eu pedi com educação! Para quê isso, ficar derrubando coisas?
A menina do meu lado, que nunca me dava bola, concordou:
- Poxa, Angélico, o cara tá querendo mesmo ir no banheiro. Não precisa dessa ceninha, né?
(ela era muito linda. eu fiquei olhando para ela com uma cara de “retarda”)
Nem percebi que o Angélico, o cara que estava com uns mil broches da empresa e uma camisa da seleção bem apertada em seu corpo (e portando um facão com uns inscritos bizarros de partidos), vinha na minha direção babando de ódio. A garota acompanhava a cena comigo.
Mas, nossa, ele era lento... Eu ia só ficar de boa e tacar um processo de assédio moral nesse puto. Andava como se estivesse em uma crise de sonambulismo. Andava com os braços estendidos. Que ridículo esse cara.
E, porra, que lentidão e escândalo… o cara andava e ia arrastando tudo no caminho: cadeiras, fios, teclados...
Sorri para a menina, ela retribuiu. Rachamos o bico.
(o nome dela era Nadja. nossa, ela era tão bonitinha…)
- Esse Angélico tá um pouco esquisito, não tá?
Ela me olhava com curiosidade. Respondi. Engatei o papo, muleque:
- Será? Não sei… até para dar esporro ele é meio retardado assim, né? Já aconteceu. O filho da puta não faz nada, fica no Face o dia todo, berra de vez em quando como um retardado só para mostrar que está trabalhando.  Detalhe: e anda lento pra moléstia … Nossa, olha isso… Grita direto e faz uma voz grave mó forçada para todo mundo ouvir, só que soa tão patético (e ridículo) que eu sempre vou no banheiro e faço uma caricatura dele na porta.
Ela riu.
- É sério! Às vezes eu tiro uma foto no celular dessas caricaturas e posto no meu fotolog, quer ver?
- Sim, vamos tomar um café?
- Opa!
Ela parou subitamente e me olhou com uma cara decepcionada. Dramática.
- Mas.. nossa.. (pausa) você ainda usa fotolog?
Eu ri. Ela também. Muito.
(deus existe. Nadja… )
Enquanto saíamos (e batíamos as nossas respectivas “pausas-banheiro” e deslogávamos tudo), o Angélico estava debruçado em um cubículo e se debatia violentamente com um outro coitado dando esporro. O cara só gritava de desespero. Esse cara era um campeãzinho de bater metas e exibia sua bandeirinha de atendimento Gold para todos verem. 
Tudo isso para tomar um esporro do Angélico, que parecia comer o cara vivo com tanto ódio que se esqueceu de mim.
Que babaca…

(continua)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

homúnculo

Eu tive um sonho. Desse delírio efêmero teu corpo ganhou o molde. Uma fina linha de argamassa elaborada de sangue, cinzas e luxúria; invisível aos olhos alheios, percorreu a submatéria e, sutilmente, preencheu os espaços entre os meus dedos. Integrou o vazio. O élan emulsionado. Nasceu o teu corpo. Plasma e elementais escorrendo em profusão em uma sala escura. Uma argila magnânima e leve.
Nasceste. Um gato preto testemunhou a sua origem.
A vida toma forma dos caminhos erráticos e a tua, minha criança, é somente mais uma das incongruências fantásticas engendradas pelo homem de imaginação fértil. És um conto, uma alegoria viva; e teu destino é vagar por entre as terras propagando esperança por meio da sua imperfeição.
Vá para longe do teu criador, vá encontrar a tua estrada que, certamente, terá um fim. Um sopro é a tua existência, e o vento propagará esse hálito; hás de ser parte dessa metrópole e serás condecorado em um trono por homens simplórios.
Inumano e profano, demasiado ingênuo; herdarás os princípios humanos e os rasgará no dia da sua morte.
Vi tudo nas entranhas da lebre. O teu fim. Previsível. Efêmero. Sou um pai zeloso. Só o alerto sob os perigos da sua vida futura porque a minha se finda aqui: e tu carregarás o meu sangue, ó primogênito errático. Não voltarás para casa, não herdarás nada.
E em toda a sua trajetória, homúnculo serás.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

unfinished men

We´re unfinished men,
unfinished men in an unfinished world,
stupid, violent and ignorant,
unfinished intelligence, only despair and guns
babies without parents, just orphans ...
trying to tame the relentless wild world
unfinished men, unfinished lives

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

a pungência da violência

Quem pensaria que os moleques, aqueles merdinhas que viviam aporrinhando os mais velhos com sua inconsequência adolescente, aparentemente inofensivos naqueles dias, andando pelas ruas chutando latas e cantando hinos do Chelsea ou Arsenal, estariam-  neste momento -  atormentando os pensamentos de gente viva? Quem?
Até por quê... eles estavam mortos. O problema, o foda, era saber de tudo isso.
Em algum canto, em algum pequeno lugar de desamparo etílico, um homem lamentava por pequenas almas de ódio num refúgio bem particular. Ódio puro. Na verdade, eles não eram mais garotos – Keef e os outros – eram uma massa de pensamento e violência extrema que compraram essa merda toda de Skrewdriver e Tory. Inocência, sim, era o velho à minha frente virando um pint de Guinness, a julgar que aqueles pequenos merdinhas cheios de suásticas estavam em paz em algum tipo de céu buscando redenção num lugar colorido.
A imagem do banheiro. A amálgama distorcida do ódio com suas tatuagens... Marv continuou, perdido entre algo com as palavras amargas:
-John, a verdade é que eu vi essa molecada aqui, crescendo com a gente. Foi um erro meu não deduzir que, debaixo do meu nariz, eu estava consentindo com tudo isso. Eu, aqui, sentado na varanda, nesse bar, dizendo a toda hora para aqueles porrinhas “gente, peguem leve”, “ei, os garotos da East End estão espertos”. Eu, vibrando com toda essa coisa nossa de pegar nas bandeiras e entoar hinos, estava – na verdade – incitando os moleques a essa pungência da violência? Essa necessidade que nem eu sei o que era há dez, vinte, trinta anos atrás?!
-Não se culpe, Marv. Gostei da “pungência da violência”...
Silêncio. Constrangedor.
-Estou velho, John. Tenho filhos, tô no seguro-desemprego e vulnerável. Me permito a alguma porra de sentimento e introspecção de vez em quando, sabe?!
Eu sorri. Ele retribuiu.
-Eu te odeio, John. Eu pago essa. Vá embora e me deixe em paz.
-Se cuida, Marv. A noite é breve.
Larguei o pobre diabo com seus pensamentos perdidos. Londres ansiava por um pouco de gente sem rumo por entre as calçadas e, prontamente, eu atendi a desgraçada sem titubear. Se o velho Marv soubesse que Nergal usou na mulecada somente aquela “pungência da violência” que ele mesmo citou – com propriedade – para transformá-los numa massa profana de ódio cego...
Há um velho axioma mágico que diz, basicamente, que só reavivar e verbalizar um pensamento traz à tona a força da magia quando ela é proferida ou enunciada. O Marv, velho hooligan, naquele momento exaltava, fortalecia o puto do Nergal com o seu tributo à violência. Cumprimentava o merda lembrando das suas vítimas. Melhor ele não saber de nada, John. Melhor era você não saber de nada. Mortos demais nessa merda toda.
Meio tarde, John. Devia ter pensando nisso antes de todos os círculos  mágicos, adagas e rituais...
Como dormir debaixo de todo esse barulho?
Dei uma apressada. Zed me esperava toda faceira no metrô. Me acendeu um cigarro e colocou na boca. Aquele sorriso me trouxe de volta de algum recôndito sujo que parecia aprisionado. Tente isso, amigo; tente fugir dos lugares inóspitos com o sorriso de uma mulher linda.
Afinal, uma coisa ou outra eu tinha que aprender entre umas voltas pelo inferno ou uma treta com esses putos e seus tridentes e cachorrões, não?!
Ela me beijou nos lábios.
-John, posso ir para o seu apartamento hoje?
Ela sorria. Nossa intimidade. Nossas piadas internas.
-Baby, eu tenho medo que você se apaixone por mim. Sou um homem muito requisitado.
Ela sorria, sarcástica.
-John Constantine, você é um pobre desgraçado que vaga por essa cidade trombando desgraçados que querem apagar você ou a sua família: arrume um trabalho, porra!
O dia estava cheio de sentimentos e sutilezas.
Fomos para o meu apartamento. Mofo e sujeira; vinte e cinco dias trancado desde a última ida aos pântanos: convidativo até demais.
-Não me importo com nada disso. Você é autêntico.
Ela que dizia isso vendo a sujeira da minha vida. Eu não falava nada. Só segurava a cintura dela. Com força.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

cabeça de vaca


“Misericordiosíssímo carneiro

Esquartejado, a maldição de Pio

Décimo caia em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!”


Augusto dos Anjos – A Um Carneiro Morto
Volta e meia, dá meia volta.
A cabeça de boi, de vaca (sei lá) me observa na encruzilhada da Raposo, de gente que sobe a pé para o metrô, de gente que desce, que vai para o Morro do Querosene ou Além-Gotham desse lado da ponte; que vai atrás de uma glória ou guerra, de cachaça ou labuta; de correria ou paixão... A cabeça de Vaca, de Boi, enorme, com olhos serenos que não apodrecem,  com uma ternura pestilenta que desarmaria o seu assassino – com o facão que a decapitou em um corte tão perfeito e uniforme -, a tranquilidade na morte da vaca.
Ela, cabeça, de vaca, permanece ali e nunca mais apodrecerá. Miasma bovino. Os abutres que perscrutam os céus do Butantã vagam ali e só conseguiram mordiscar os seus olhos; não ousam bicar a cabeça que, “impútrida”, nem de longe é obscena.
A cabeça de vaca, fétida, olhando para o céu; a cabeça de vaca é uma oferenda e jamais pensei que algo poderia ser extraído desse animal, ele lá, naquelas pastagens (nada verdes), numa bucólica estrada de terra, atropelado. Viveu, mas logo algum cowboy com alma de mercenário sensível de faroeste das antigas deu a paz para ela numa bala; a vaca, assim, foi escolhida para abençoar algo. A cabeça de vaca. Facão. Oferenda.
A cabeça de vaca foi feita para mim.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

o maníaco do ácido ataca novamente


Dia de Feira da Vila. Ela vai tá lá. Ela e as amigas. Ela que anda de bermuda preta, camisa azul em viagem de escola nas férias. Ela senta na minha frente, duas carteiras, gosta de Pet Shop Boys. Beberemos Coca-Cola. Mãe dá dinheiro pro pastel. Tem barulho na esquina da Wizard, rock. Ninguém Dorme. Eu não vejo ninguém que conheço. Eu quero ver ela. Não, nem sinal. A vida é escrota. O mundo tá perdido. Acho que vou para casa assistir Gigantes do Ring, um Trapalhões, sei lá. Nem deu para tomar um refri. Tá de noite. Tá passando o Fantástico. A mãe tá com aquele merda lá em casa. Vou ficar por aqui mesmo até que ele suma das nossas vidas… ou quem sabe, volto, sei lá. Nem sei de mais nada.

Cheio de gente aqui. Nem dá para andar. O que eu tô fazendo aqui? As pessoas andam tão grudadas umas nas outras, sem espaço pra respirar. Aquela vagabunda me paga. Mato ela e aquele viado, enforco, jogo óleo quente nos dois na cama. A pele gruda, o pau e a buceta rasgam colados um no outro. Dezenove anos, “até que a morte nos separe”... O mundo é podre, essa cama é suja e essas mulheres aqui dessa feira de merda são todas impuras. Tocar o terror nessa porra hoje, tomar uns gorós e dormir na rua. Hoje começo a viver. Se algum maluco tirar uma, meto o canivete no pau do filho da puta e rasgo. Mato essas putas, mato todo mundo nessa porra.


Deus, meu Senhor. Deus, Senhor, livrai-me do mal; eis o meu único pedido. Janinha tá criada, Marta também, eu não fiz nada de errado. Não, Senhor; não, eu dediquei minha vida toda à sua obra, Senhor. O Senhor é mais forte que tudo, que toda multidão, que todo esse barulho, que toda essa perdição, que toda essa gente perdida no mundão. O que eu fiz não foi errado, meu Deus-Todo-Poderoso, não foi … não pode ser errado, não, Senhor ...


Será que aquele corno tá aqui? Andando de mão dada com essas vagabundas? Será? Eu odeio esse lugar, nunca quis morar nessa merda de cidade. Sozinha, com nenê em casa, sozinha, aqui, procurando um maldito dum bebum fedido, corno, deformado, imbecil… aonde a minha vida se perdeu?! Aonde ... Com nenê sozinha, dormindo sem fim naquela cama com cobertorzinho perfumado… eu vou fugir daqui agora, dessa feira de merda … sumir… se ele der sorte, se voltar para casa e achar a nenê, tudo certo, Deus agirá, se não … não era para ser … eu só tô cansada agora, acho que vou desmaiar aqui nesse mundaréu de lixo de gente suja. O bebê não chora mais assim .


Vou ali. Só preciso mijar um pouco. Aguento mais um monte de dose. Tô muito loco, acabei de passar a mão numa menininha, isso é errado, Clóvis; onde cê tá com a cabeça? Ela poderia ser sua filha, é mais nova que ela, porra! “Cachaça na caveira”, era o que dizia o mano loco lá da quebrada, ficava lá, gritando a madrugada inteira essa porra pelas madrugadas… mataram ele, eu vi quando voltava da escola, era muleque, ele era ruim, era um lixo … hoje eu sou esse cara, porra… eu sou esse cara .. vou mijar aqui mesmo, foda-se … senão mijo na calça e não fodo ninguém hoje à noite … cachaça na caveira … ca CA CHA ÇA NA CAVEIRAAAAAA!


Me falaram que hoje seria um dia bom. Me falaram. Mentiram. Nenhum dia é bom, é tudo uma sucessão de acontecimentos meticulosamente engendrados com o intuito de enlouquecer qualquer cidadão de bem. Nada, não há nada para mim nessa multidão, nenhuma dessas meninas ou homens meteriam comigo. Eu fico ali, ouvindo, lendo, cultivando um monte de pensamento bom, de gentilezas e nada disso adianta. Ninguém quer um velho escroto como eu… jamais pensei que sentiria falta do batente, mas o quartel me fazia ter linha, rotina, sonhos … agora nada mais parece fazer sentido. Nada. Tudo é tão rápido. Os dias de cama são eternos. Ontem meu periquito acordou morto. Eu esqueci de dar comida e água pra ele. Morreu novinho, chorando e eu nem escutei. Não ouvi a criaturinha me chamando. Não. Quem vai me ouvir agora? Hoje não é um dia bom; quem disse que esse dia seria ótimo, certamente não me conhece, não sabe nem quem eu sou; geralmente a gente paga para ouvir essas coisas boas, esses presságios e frivolidades; e comigo não foi diferente …

Hoje. Hoje. Hoje. Tanta gente reunida, tantas pessoas, tantos corações, tantas almas. Tantas gerações procriaram para esse momento ser único; tantas conjunções, encontros aleatórios e estrelas alinhadas para esse momento… existem tantas almas em busca de algo hoje, andando em linha reta para o matadouro, aceitando tudo sem gritar … hoje… Hoje. HOJE! Hoje eu alterarei para sempre a vida das pessoas que pisaram nesse lugar e serei lembrado por todos. Hoje.