terça-feira, 26 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte VI e fim






VI

A mais bonita de todas.
Jane, a “Christine sem a doçura”. Orgulho da beleza dos Bennett.
Beleza que não a salva do poço sem fundo da decepção do amor por Bingley que a abandona indo com as irmãs para Londres. Sabe, Jane não possui a grana necessária para surgir uma aliança blasé insuperável, portanto, as irmãs que a odeiam fogem com o irmão para Londres, longe de tal perigo.
Respiro, devo “estar lento” como diziam no meu bairro. Cá estou eu suspirando de pena por uma jovem que vê sonhos de algodão bestas demais sendo esmagados com a crueza do mundo.
Assim, a bela Jane vai conhecendo aquele fundo de espuma no copo que eu olho agora, só que o meu, vai descendo enferrujado há muito tempo nesse lugar. As páginas se desfazem. Bingley está longe. Christine está perto, lá embaixo acessando e-mail no notebook, vendo programas idiotas. Os nossos corações, Jane, se vão com eles, lá embaixo.
Aguardamos uma carta de Londres, Jane. Lá embaixo na cama, a TV tá alta, Christine ri alto como eu não ouvia há muito tempo. Nossa, há muito tempo mesmo. Um riso alto demais, arrepiante.
Que ecoa.
É o silêncio todo num sábado à noite. Risos dela.
Largo o livro por um momento pensando o que pode acontecer a Jane.
Mas...
O sótão carrega uma coisa pesada essas noites em que mal nos falamos, e o riso alto e debochado dela provoca um troço estranho em mim. Fico pensando nas noites que passamos assistindo TV e comendo pizza na nossa primeira casa.Um riso nos campos verdes do interior, várias épocas depois um riso ecoa, páginas nas minhas mãos e a indecisão de gritar para ela o que eu estava descobrindo.
Mas o que eu descobri aqui nesse sótão cagado de bosta de rato?
Largo o livro, beijo as páginas amarelas que me salvaram de não perder a cabeça; Jane, não beije as cartas da irmã de Bingley, essas cartas carregadas de veneno.
De repente, aquele impulso de ver Christine passa. Deito. Pego as páginas e volto a ler, pouso os olhos naquela letra arcaica e linda. “Não sei se a autora é bonita”- penso.
-Vem ver, querido!Tá passando aquela reprise do Saturday Night Live do presidente Reagan, lembra?!Vem!
Fico olhando ela assombrado. A minha imagem é patética. O cenário, igualmente.
-Nossa, que lugar desgraçado esse que você tá escolhendo para fugir de mim, hein?!
Diz isso linda, de um jeito divertido, como se a imersão naquela ficção fosse improvável, um conceito de filme de ficção-científica, uma piada de mau gosto.
Levanto calmamente e dou um beijo na testa dela.
Ela me abraça de um jeito caloroso, que demonstra não ter acontecido nada nesse tempo.
Acho estranho. Não retribuo o abraço caloroso que ela me deu, fico ali, tenso, demonstrando o orgulho dos velhos homens de escudo, sou um pouco Darcy, analítico-doentio em busca de uma retribuição por todo o meu sofrimento e confusão, por tentar amar ela novamente nessa casa. Por sofrer sozinho.
Ela sente. Me empurra com uma violência sutil. Sai andando com raiva.
Foi rápido.
Uma porta bate com força. Ecoa.
Estou me sentindo idiota. As páginas se desfazem.
Pouso o olhar nas páginas que estavam ali no chão, demonstro preocupação em ver elas ali tão abandonadas, “podem estragar, soltar a cola”. Me preocupo. Continuo me sentindo mal, idiota.
Volto a ser o rei de toda essa poeira que deveria ser queimada e esquecida pelos homens de escudos. 


                                                        fin

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazon (ou como nos tornamos reis) parte V


A lâmpada do sótão balança, moscas voam. Noites se passam.
Merryton na minha cabeça. A pior coisa que pode acontecer a uma família vitoriana é perder o seu lugar de conforto para um primo puxa-saco de nobres, metido, incrivelmente irritante; e que acima de tudo, pode te deixar na rua com seus pais velhos sem banquetes intermináveis.
Assim entram as filhas lindas na busca de um marido, para ajudar no destino dos pais, mas me parece que não é uma procura sem sentimento pelas meninas; acho que tem algo a ver com certo cuidado de destino “adaptável” da parte delas. Fico com pena do pobre senhor Bennett, dotado de um sarcasmo incurável e que parece ser um ótimo parceiro para conversar em bares. Lembra meu papá, que se foi numa cama dizendo que queria me ver em faculdade americana.
Lizzy jamais casaria com um idiota desses. Mas a casa anda em risco, sabe...
A nossa casa não tinha esse risco, foi herança do tio de Christine. Era a salvação do nosso casamento no meio do mato, um sarcasmo digno do senhor Bennett e de papá.
Podemos dizer que o tio de Christine é um pouco parecido com esse primo dos Bennett, o senhor Colllins: o Sr McKegan foi um ex-pastor anglicano que andou a América de norte a sul pregando para pessoas entusiasmadas, mas não foi a religião que o consagrou, e sim, sua perícia como veterinário renomado: seu nome está em todos os artigos respeitados na medicina dos sabujos caçadores de raposas.
Christine dizia que o achava quieto demais.
-Ele se parece com essa casa, isso aqui tem o cheiro dele. -disse uma vez com certo nojo.
Então, chega esse tal de Collins, pouco sociável, chato pra diabo e de inspiração ridícula; vem colocando o perigo de reivindicar sua casa; Lizzy talvez sendo sua esposa, acalme o delírio de poder do primo com a sua mão em casamento. Assim, Collins poderia deixar a casa para o velho Senhor Bennett descansar em paz na sua biblioteca, assim como o Sr McKeegan deixou para a sua sobrinha querida.
Obrigado, Tio McKeegan.
Bela cerveja inglesa enferrujada o senhor tem.

sábado, 16 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte IV


IV
Não chego exatamente a criar uma aura de tristeza e desespero vendo Christine ir embora da minha vida numa casa que acabamos de herdar de seu tio, olho, respiro fundo; ela passa ali de vez em quando na sala de camisola, desce ao banheiro e confunde as luzes novas da casa: eu já decorei todas, gosto daquele lugar e explorei ele todo. Não me sinto triste e acho isso perigoso.
-Ok, vamos acabar a nossa história no meio do mato. -disse uma vez para ela dormindo.
Se eu fosse um inglesão com crise no casamento, daria um baile com mulheres de decotes fartos, ou ia meter bala na cabeça de raposas com sabujos enormes correndo para me sentir distraído. Homem com escudo.
Não sei bem se seria divertido. A idéia das raposas, sabe. Já a dos decotes...
Bailes?!
Não sei dançar, não sirvo nem para ser o senhor Darcy, personagem amigo do ricaço Bingley; é um desses caras que carregam uma certa arrogância-misteriosa-simpática; mas é culto e bem educado. Eu sou bruto, filho de mexicanos pobres que cruzaram a fronteira fugindo da Migra, nasci no duro Bronx, junto com a escória que a América insiste em matar legalmente todos os dias; não sou nobre. Já o senhor Darcy é esse cara enigmático, bem nascido, que não se mistura facilmente com a nobreza - se bem que me parece que ele é mais nobre que todos os inglesões-caçadores-de-raposa.
Numa conclusão estranha, chego a me simpatizar com ele de alguma forma: ao desenrolar das páginas amareladas, ele não parece carregar um escudo nas mãos e sua habitual frieza blasé, contrasta com alguma coisa que não sei bem ao certo o que é; ele possui uma argúcia de Dr. House por ter encontrado em Lizzy um objeto de estudo para os seus momentos de devaneios solitários, um problema agradável para a sua cabeça de monstro inocentemente analítico: Darcy vê em Lizzy um alívio de ver alguém que não é óbvio.
Eu curto o Darcy porque ele sacou que a Lizzy é bonitona. É isso!
Eu gosto de mulheres que não são óbvias, Darcy. Foi assim que conheci uma dessas há muito tempo lá naquele ônibus da faculdade em excursão para L.A: tudo colorido, bikinis, óculos escuros e camisetas horríveis do Bon Jovi; e lá estava ela com o seu vestido de alcinha branco e azul, de certa forma provinciana, uma coisa linda que destoava de todo aquele exagero-yuppie-eighties; carregava no ombro uma bolsa toda estilizada com uma pintura estranha de um velho esquisito.
Depois de um tempo, fui saber que era de William Blake.
Ignorante de Literatura que sou, dando vida a paginas velhas agora...
Essa visão despreocupada dela foi o bastante para mim, me provocou, igualzinho ao senhor Darcy olhando um monte de gente aparentemente sem graça em Merryton; aquele ônibus foi o meu baile barulhento efervescendo inconseqüência em que eu observava os movimentos da dança com cuidado. Se fosse rápido, óbvio, passava tudo rápido.
Não deixei que isso acontecesse.
Ajeitei os óculos escuros de praia naquele dia e reconheci que estava perto de alguém que me intrigava. Foquei nela, a que não era óbvia, senhor Darcy.
Quando contei para os meus amigos sobre a moça de vestido azul e branco na parada que o ônibus deu em um pub irlandês, ninguém me apoiou: zoavam dando baforadas de cigarro na minha cara porque ela não era óbvia.
Não me importei, ao contrário: deu coragem, tesão.
Lá nos conhecemos melhor e nos beijamos nesse lugar que se chamava Bloody Irish: o nome de várias coisas importantes que exaltávamos em nossas vidas ao longo da nossa história; era o filho que não tivemos, era um nome só nosso. Um lugar.
Era a antiga senha do computador.
Hoje, ela usa o seu nome na senha. Desconfiei que podia ser.
Por isso entrei fácil no notebook, por desconfiar que pensasse só nela.

domingo, 10 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte III


III

As páginas se soltam. Desfazem. A cerveja tem mais gosto de ferrugem a cada noite que passo com esses manuscritos na barriga.
O cheiro é intoxicante. Preciso limpar a sujeira do sótão. De algumas coisas.
Uma página rasgou na segunda noite, foi ali, na minha mão que aconteceu. E me deu um troço estranho de respeito, como o pai de Lizzy que tem um certo apreço por seus momentos na biblioteca particular. Me perguntei por que um velho tem tanto apreço por um momento com livros, foi um questionamento relâmpago, um resquício de uma coisa besta que nascia dentro de mim.
Então, senhor Bennet, hoje eu entendo. Livros podem ser a cerveja enferrujada que desce goela abaixo em dias de inverno nesses campos verdes vitorianos.
Com essa catarse vergonhosa de crise de meia idade, encerro um pensamento que julgo importante; e ainda fico preocupado com o rasgo no livro. Tô velho mesmo...
E gostando do livro.
Na segunda noite de leitura, eu levo uma fita especial para atar as páginas velhas em respeito à Elizabeth (e porque não, sua família). Fui numa tarde no Maine em busca de algo para consertar o que vinha me salvando. Pesquisei na internet sobre a fita especial para reparar páginas, lá, no notebook sagrado de Christine...
Aguardo respostas e as páginas (já restauradas com a fita especial) não se soltam mais com facilidade. É um tesouro nas mãos de um plebeu.
Christine só me perguntou se eu tinha usado o note. Disse que sim. A senha não era mais o nome do bar em que nos beijamos pela primeira vez.
-Mudei faz tempo, não faz drama por isso. -disse ela, colocando os óculos.
 “Dramático” - sou um dramático agora.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte II


II
Era estranho ler algo num inglês arcaico que se desfazia em suas mãos.
Inglês clássico, a letra linda de uma mulher que devia ser muito inteligente. Gostaria de ter assistido e entendido mais as aulas de Literatura e História na escola para entender o valor do que estava ali em minhas mãos, apodrecendo num sótão que veio de brinde com nossa casa nova. Um sótão. Um canto escondido para eu enterrar ainda mais o meu casamento aqui, escondido entre morcegos e bosta de rato.
Casamento. Fala-se muito disso no manuscrito, como se fosse importante e determinante naquele período. Como se “fosse”.
Penso, penso no casamento em passagens de campos verdes das palavras dessa mulher das cartas estranhas que continham uma história enorme. Uma caligrafia irritante de tão reta e bonita: só faltava a escritora ser linda também. Penso nessas coisas bestas, estou velho e sentimental demais, lendo um romance de senhoritas apaixonadas: é o câncer para os homens escrotos.
Gostei de como o texto me conduziu pela estrada de tijolos amarelados logo na primeira frase, rumo a um período que é tão distante e tão perto de mim, e que evidencia como o status influencia o andamento de destinos e gerações àquela época, grana, e em alguns casos, também o amor nesses casamentos. Ainda era assim, vai.
As páginas tinham uma coisa apelativa pra mim. Era o momento, cara.
E lá (nessas páginas), existem essas donzelas saltitantes de faces ruborizadas numa cidadezinha do interior da Inglaterra, foca mais na história dessas quatro mulheres jovens que fazem parte de uma família não muito rica: uma delas é muito bonita, outra só “bonita” e as outras duas são interessadas em militares; são jovens demais de um jeito irritante (como se fossem tolas demais); mas essa foi uma coisa pessoal que eu percebi segurando as páginas amarelas. Uma observação, só isso.
Christine diz isso das minhas observações, que “sou vago e tenho tendência a reduzir o caráter das pessoas”, o que seria uma fala típica de Elizabeth -a personagem principal dessas páginas amareladas e podres- dotada de gênio inspirado e linda. É que eu acho que ela é linda, essa Lizzy, que se a visse numa tarde no pub, olharia mais para ela do que para as outras irmãs.
Hoje eu sinto falta de como Christine era, de como ela “falava Elizabeth” ao conversar comigo em nossa primeira casa. De me criticar. Ela tá ali no nosso quarto com o notebook na barriga vendo reality shows na TV. Lizzy buscava livros e inspiração para contestar tudo o que ouvia. Destoa de Jane, que é só extremamente bonita e bem educada, cega por uma possibilidade de encontrar um marido que ame e salve a sua família: o senhor Bingley.
Eu não acho que Lizzy possa ser minha Christine hoje (sabe, aquela lá no quarto com as pernas nuas e sem toneladas de roupa); talvez seja mais “Jane”, com a diferença de que não me dá boa noite quando eu a beijo no quarto. Sou um homem idiota pensando nisso, e homens podem ser idiotas em períodos diversos na história; podem passar uma obscuridade de sentimentos velados (sejam eles horrorosos ou pretensiosamente amorosos) como na época vitoriana, ou ser uma muralha aparente como Senhor Darcy - o anti-herói do livro - que até onde li naquela noite, tinha uma certa atração por Lizzy. Homens com muralhas, escudos, como a nobreza despreocupada e desinteressada pelos problemas do mundo. Homens e seus mundinhos. Homens reis caçando raposas até hoje.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

con ti se va mi corazón (ou como nos tornamos reis) parte I


I
Faz um bom tempo que eu tava lá, remexendo num monte de tranqueiras no sótão dessa casa velha, um reino de poeira acumulada, castelo de livros carcomidos por vermes e que provavelmente não foram lidos na última geração. Livros, livros inúteis, pencas deles, e palavras igualmente dispensáveis. Manuscritos legados a uma posteridade que jamais herdou uma geração digna, ou quem sabe, jamais achou leitor e nem achará; um troço feio que busca olhos desatentos.
Estávamos aqui há uma semana e as coisas não davam mostras de que iam melhorar: Christine e eu não nos olhávamos mais como naquela primeira vez em que a vi no ônibus da faculdade com aquele vestido branco e azul mostrando os seus ombros, e na primeira semana que chegamos aqui na tentativa de que “algo” volte (mesmo que não saibamos ao certo o que é), eu andava por esses quartos com lençóis em cima dos móveis parecendo um fantasma em cada canto vazio dessa casa. Nada luxuosa a minha queda: bebia a melhor cerveja com tampa enferrujada que achei embaixo da pia nessa casa (nova) e velha para nós.
Uma vez (era tarde) sentei na mesa enorme e peguei uma caneta, tentei escrever tomando a cerveja ferruginosa.
Letras expelidas no papel saiam como na época da faculdade em que ia para a biblioteca, baixava um santo em mim: palavras desconexas, diversos erros ortográficos em uma linha nada reta de pensamentos aleatórios, e a narrativa que lembrava uma cabeçada violenta no banheiro da casa. Nada fazia sentido. Me sentia burro lendo aquelas palavras. Rasgava as folhas e jogava no chão sujo. Um gosto metálico descia a garganta.
Um sótão cheio folhas de caderno amassadas.
Tentava escrever sobre a perda de estar com alguém que não me deseja mais. Texto patético, ruim e de extremo mau gosto; apelativo e mesquinho. Uma merda escrita num lugar empoeirado.
Nada se encaixava. Naquela noite subi ao quarto e deitei com ela. Dei um beijo em seus ombros e ela não me disse nada. Se estivesse morta eu só ia saber de manhã, ser cúmplice de algo...
Às vezes desejei isso: que a única maneira dela não responder aos meus beijos era estar morta, fria; eu, eu achava que seria uma justificativa aceitável para tanta apatia...
Me tornei um babaca depois de velho.
Numa noite dessas decidi pegar um daqueles cadernos carcomidos no sótão velho, soprar poeira alto no teto e ler algo que refletisse uma pessoa, alguém que conseguisse elaborar uma coisa que realmente sentiu e que me fizesse seguir as páginas como uma reta pintada no chão que nem os tijolos amarelos de Dorothy.
Uma história: um andamento, linear e nada disperso. Algo que não fosse eu.
E lá eu encontrei uma caixa cheia de cartas escritas a mão chamadas de “First Impressions”. Velho demais, muito.
Era fantástico. Falava muito de casamento de uma forma que eu não conseguia imaginar, de amores e de algo que tava escrito numa época longe dessa, uma passagem para o desconhecido, um tempo onde não existiam momentos nostálgicos de mulheres com vestidos brancos no ônibus; só espartilhos, decotes lindos e toneladas de roupas.
Christine não notou a minha ausência no sótão lendo esse caderno algumas noites. As primeiras noites naquele lugar. Tínhamos que buscar o “algo”. Eu tava lá, lendo.
E era perfeito dessa forma.

sábado, 19 de dezembro de 2009

caeiro contaminado

Ao entardecer todas as pessoas que passam pela Igreja descendo a Consolação fazem o sinal da cruz. Eu não. Eu já fiz isso algumas vezes na minha vida, mas não sabia o que significava, tipo ouvir Scorpions: não entrava, não se acomodava na minha cabeça; por isso não me apeguei ao sinal correspondente, ritual ou coisa que o valha. Eu penso; dentro da minha cabeça tem uma voz chata e grave que não cala a boca, ela pede por linhas escritas e eu - num misto profano de dever e sobrevivência - (às vezes) não sigo o pedido da voz que não sei se é a minha consciência ou a “palavra pura” querendo sair do meu corpo pelo exorcismo do papel em linhas tremidas.Então essas linhas estranhas me trazem de volta a um sentimento quase que equivalente ao dos cristãos que fazem sinal da cruz quando o ônibus passa rápido pela Consolação-sentido-Centro.Todos.Todos menos eu.Um sinal matemático para exemplificar que sou o “menos”, eles são o “mais” através dessa representação idiota.Se o ônibus bate, e a gente se fode, eu tô lá sem um lugar para ir acomodar a minha alma, essa coisa que sai do invólucro permanentemente que eles chamam de “corpo”.Muita metafísica para pouco sentido, né?!Muitos gestos de fé envolvidos: de um lado a humanidade às voltas com os seus rituais quando o ônibus sobe, de outro, os homens despejando energia em linhas invisíveis que às vezes nem são traçadas num guardanapo de boteco.Igrejas. Papel. Palavras nos muros da Consolação.Grafite. Mundano.Ele diz que “a gente passa mais tempo no ônibus do que com a família”.Verdade.Poucas vezes a palavra “verdade” foi tão “verdadeira”; é, escrevo frases desse jeito e fico triste, limitado em um vocabulário viciado que nem a minha compulsão por comer Fofura em momentos que o ônibus desce.Vou indo.Balança tudo lá pros fundos onde gosto de sentar e colocar a cara no vidro; isso quando consigo sentar...Bate tudo: peitões balançam, a caneta não serve nessas horas, o cérebro parece solto, uma visão de um seriado antigo passa na sua cabeça, um sorriso vem na mente pensando na sua mulher e a promessa de um céu à minha maneira passa em milésimos de segundos sem oração: meu jeito Caeiro de avaliar a terra do asfalto e as linhas brancas desenhadas no meio fio descendo a Consolação.Voltamos.Rebouças, cruzamento monstro com a Faria Lima, Eldorado (a gente se sente com mais ar para respirar quando chega lá), ponte, rio Tietê/Pinheiros/Tejo (gosto de chamar Tietê porque são todos irmão sujos e forçosamente charmosos, pai de toda a podridão e onipotente em simbologia), Raposão, anda, vira direita/esquerda, cachorro fica contente ao me ver, eu fico mais ainda, porta, sentimentos sufocados da perda do melhor amigo que eu afavaga, um ar de fraternidade envolto numa depressão sufocada por laços umbilicais que desejam a sua volta à força para o ventre ensaguentado; a morte de volta ao parto, a barriga de onde nunca deveria ter saído, muita metafísica, muita lembrança, muita punheta para ficar em paz, muitas chaves sendo viradas desde que tive o privilégio de me trancar no quarto vermelho e mais espaçoso que desejo/mereço, um livro da Florbela Espanca jogado em cima da cama desarrumada.Nada de bíblias ou orações.É o meu jeito de descer o busão todo o dia balançando, muita voz que não sabe para onde ir, a paz da palavra encontrando o papel desembocando no mar como o esgoto cheio de merda abraçando novas águas, porra, batom de mulher, animais mortos, poemas rasgados, fotos de amores antigos e desenhos adoráveis de giz dos filhos no meio de tudo...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

mulher louca em frente ao cinema pornô da Ipiranga


Tem uma mulher louca em frente ao cinema pornô da Ipiranga.
Fica lá, olhando as luzes vermelhas dos faróis refletidas no asfalto enquanto a chuva molha a cachorrada machucada que levou pedrada o dia inteiro. Ela fala da vingança que irá proferir a esse mundo injusto, dos que dão risada bem alta no celular e dos casais que se beijam apertando o corpo bem forte.
Ela carrega um daqueles sacos pretos de lixo, guarda ali um monte de jornais usados de 1989 e umas roupas de lã que levou do lugar que chamava “casa”; certo dia, desceu do ônibus num ponto aleatório e o primeiro canto que achou para descansar (porque ela precisava mesmo) foi ali naquele degrau. Era em frente ao cinema pornô, e naquela época os casais entravam juntos por lá, escondidos e criminosos numa tentativa de participar de algo diferente.
O cinema resiste.
A mulher louca em frente ao cinema também.
Volta e meia grita com algo que assusta os que esperam ônibus e tem casa, ou os que não têm, que vão para longe daquele lugar onde chove intensamente e há poucos lugares para se esconder sem tomar porrada da GCM ou de gente mais fudida que ela. Sempre tem.
Passa o bando de molecada tirando sarro dela, e a louca continua falando: sai um cara que acabou de receber uma punheta assistindo filminho e olha aquela mulher sentada no degrauzinho do cinema pornô gritando, pensa “caralho, que noite do cacete!”. É um pensamento de satisfação do maluco, como se a louca fosse uma coroação da sua transgressão ali no cinema. Um chamado.
A louca é um detalhe, uma alegoria, uma distração.
Ela grita todos os dias em frente ao cinema pornô. Ela grita. Esperneia e arranca os cabelos, mija nas calcinhas feitas de sacos plásticos e caga numa árvore na República.
E eu passo ali todas as noites olhando pela janela do busão que nem cachorro triste, vendo o centro escuro como um pano de palco que nunca se abre. Personagens em algum lugar de Gotham.
Em frente aos teatros cheirando cola.
Cassetetes na nuca de mendigos.
Cachorros sendo esmagados por sádicos.
Gente rica sendo enrabada por gente pobre.
E a velha lá, grita, canta e amaldiçoa todos nós que passamos por ali.
O cara que recebeu uma punheta sofreu um acidente na Rebouças e não andará nunca mais.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

dalton blues

Existem aquelas cores que eu não sei, elas estão em lugar para se descobrir.

Eu acredito que perdi algumas ao longo do caminho.

Vai e descobre!Como naquela noite em que tomou vodka sem pensar e a clarividência nasceu da morte de uma coisa importante, uma perda.

Ganhei algo naquela noite, que corre no meu sangue vermelho.

O Daltonismo raro que descobri na idade tardia proporcionou-me a visão que ganhei há pouco tempo, e essa vista me mostrou cores que ainda não dei nome. Enquanto escrevo, minha calça marrom (que dizem que é verde) serve de apoio ao caderno nas escadas do Teatro Municipal.

As folhas são brancas.

O mundo é cinza.

Meu cabelo preto-ficando-grisalho-balança com o vento sem cor.

A vida tem tantas cores, querida...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

incendiário

Hora de queimar alguma coisa. Jogar algo nas chamas e admirar o espetáculo hipnotizante da destituição de tecidos, células ou partículas. Que aquele fogo tremulando nas entranhas de uma fogueira na rua numa quebrada qualquer traga redenção aos que buscam o fogo. Esse fogo que dança como dançarina havaiana em cartoon old school, esse fogo associado ao pecado que a humanidade alcança e condena a mão de ferro e trovoadas no céu; aquele fogo que consumiu a Babel junto com o enxofre pingando dos céus. Aquele líquido que queima os habitantes que invadem a fortaleza naquele filme branco e preto. Queimar fotos, cartas e lembranças; quiçá teu cérebro pingando neurônios como o pinto pingando porra. Essa sensação antiga que fez o homem enlouquecer perante às chamas, e induziu o mais nobre mortal a atos parricidas e sangue no chão do Palácio de Calígula.
Eu incendeio coisas ouvindo New Order.