terça-feira, 27 de outubro de 2009
mulher louca em frente ao cinema pornô da Ipiranga
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
dalton blues
Existem aquelas cores que eu não sei, elas estão em lugar para se descobrir.
Eu acredito que perdi algumas ao longo do caminho.
Vai e descobre!Como naquela noite em que tomou vodka sem pensar e a clarividência nasceu da morte de uma coisa importante, uma perda.
Ganhei algo naquela noite, que corre no meu sangue vermelho.
O Daltonismo raro que descobri na idade tardia proporcionou-me a visão que ganhei há pouco tempo, e essa vista me mostrou cores que ainda não dei nome. Enquanto escrevo, minha calça marrom (que dizem que é verde) serve de apoio ao caderno nas escadas do Teatro Municipal.
As folhas são brancas.
O mundo é cinza.
Meu cabelo preto-ficando-grisalho-balança com o vento sem cor.
A vida tem tantas cores, querida...
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
incendiário
Eu incendeio coisas ouvindo New Order.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
monstrum
Aqueles que se tornaram monstros têm o aval da humanidade para um dia encontrar a redenção como Quasímodo e Frankenstein; Lúcifer apenas se encarrega de todo o fardo pavoroso e da mente atormentada durante esse longo processo até o seu derradeiro fim. Os monstros têm o conforto de Deus e a compaixão do Diabo nessa descida para o inferno em escada de caracol: ambos vão segurando essas mãos deformadas como pais preocupados, enquanto essas pobres criaturas vagam sem rumo num mundo de algodão, aonde as quimeras, asas e garras não pertencem; os excluídos da sociedade a uivarem para aquele enorme olho branco acima de nós num Sabá à meia noite.
Incompreendidos em sua nobreza monstruosa.
Só a Morte tem o poder de abrigá-los,seja na bala de prata, estaca ou suicídio; só assim, esses filhos das trevas encontrarão a paz que tanto almejam.
É na Morte esperando Deus.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
marina japonesa
segunda-feira, 22 de junho de 2009
um autodidata
No piano em que não sei tocar uma melodia sequer- tampouco o “Bifinho” ou o “atirei o pau no gato”- enchi o cálice e despejei veneno de barata, pó ralo e partículas sufocantes elaboradas por químicos dedicados.
A minha morte e das baratas garantida, o final de um aspirante a músico massacrando as telas brancas.
Brancas.Pretas.Música de veneno afinada com a decepção e a alegria de um filho dedicado.A harmonia em afinadores velhos, papai conduzindo minhas lições e mamãe arrancando os cabelos e engolindo.
Taça transparente.Champagne barato nos Natais em que estive fora de casa, tomando Corot e despertando a minha ira contra objetos inanimados.Louça branca de casa, guardada em caixas pesadas: mamãe guardava tudo, pois achava que eu dia elas teriam utilidade.Esse dia não chegou para ela...
Para mim, eis o copo de veneno em cima do piano.
Eis a minha vida ecoando pelo som, líquido e madeiras que ergueram o piano.Tábuas fortes, Luthiers habilidosos na França martelando incessantemente esperando a morte de uma Era sufocada pelas Máquinas.O pó invadindo as narinas entre pregos, martelos e serragem poluindo o ar. Dólares, francos e rapé.
E minha vida ecoando pelos anos.Rangendo.Batendo em copos, quebrando caixas.E corvos bicando Sidra Cereser, não, Champagne!Filho, Papai te ensinou Bach e você não entendeu.
Esse copo em cima do piano.
Essa vida sem uma canção entre tantas em que compus. Um autodidata.
Esse piano intacto através dos séculos.
Esse veneno feito às baratas que descem pela goela dos homens.
Essa vida sofisticada, que acaba do mesmo jeito há tanto tempo na humanidade.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
eu preciso
segunda-feira, 2 de março de 2009
escarlatina (I)
Eu disse alguma coisa no meio de todo aquele barulho no café, só que eu não me lembro muito bem o que era.
Corri, peguei o bonde e lá estava ela com aquela cara triste na janela olhando as crianças brincarem na rua sem dar um sorriso.Ah, sempre nos cruzamos naquela hora e eu corria para o meu destino patético: ficar olhando para ela de uma forma segura sem necessariamente me esforçar para ter um contato ou um sorriso; isso desequilibra tudo, o simples fato e bendito consolo é pegar o bonde com ela e roubar um momento seu.
Ela, naquele tédio mortal que dissolveria o mundo num amargo cínico e afogaria todos os bichos, crianças e coisas bonitas num olhar.Ela pode tudo porque desse jeito parece bonita, uma daquelas deusas cheias da vida eterna anseando por um punhal no ouvido batendo no seu crânio, à espera de um barulho, uma bomba explodindo pelas janelas do bonde que passa rápido...
O tédio dela me consola de todo o dia ruim que tive e de todas as pessoas que me olharam na cara e fingiram ter algo nobre (nem que seja um sentimento) ao olhar esse rosto magro, feio e distante.Gostaria de convidá-la para bebermos um veneno leve, desses que não matam, mas causam efeitos colaterais desagradáveis como vômitos, náuseas, tonturas, delírios e alucinações.Uma bela noite no hospital, lado a lado, maca a maca, um segurando a mão do outro dando risada da imortalidade tediosa.
É isso!Somos imortais: os desejos, sonhos e aspirações nada mais são do que o prolongamento sofrido de uma existência nula em que nos esforçamos para ter algo que nunca alcançamos e se o dia chega, queremos mais; existir é uma coisa chata, imbecil e parva.A gente não morre várias vezes na vida, vai vivendo e arreganhando os dentes como se o cavalo fosse bonito e o páreo pagasse bem.
A bela do bonde sabe disso.Não se esforça, cansou de viver e não necessariamente vai tomar veneno de rato: vai fazer o mundo todo tomá-lo e ver todos tombarem.
Um dia eu quero ver o que provoca um sorriso nela, talvez uma carcaça podre estirada nos trilhos ou um ser humano convulsionando pela avenida traga um sorriso; todos sorriem, se tem algo de humano na vida, esse é o sorriso.
Ela me intriga; paguei mais um mês de aluguel para pegar o bonde com ela às 5 da tarde pontualmente.
Será que me atrevo a prolongar a viagem e ver onde desce?
Não.A mágica acaba, a imortalidade toma forma, melhor não.
Lá no café dizem que sou um pessimista, mas como podem afirmar isso se pouco ouvem a minha voz naquele antro de alienação?E porque estou lá?Ah, para rir de algo com certeza, não de mim mesmo; esse esporte já percorri com grande mérito nas pistas.Pessimismo?Ora, os que aqui estão dizem algo por mim?Eu mesmo vejo a vida de uma forma particular e não espelho minha crença nos homens.
Dias chatos, calor insuportável: dizem que Luiz Carlos Prestes passará por aqui e que diabos tenho eu com isso?
O bonde, esse é o meu deus, o que rege as minhas horas e todos os meus anseios.Mais alguns meses de aluguel, quem sabe a herança de titio acabe nessa cidade esdrúxula que deveria ser devorada pelos corvos a qualquer momento.Há tempos não penso em outra coisa.
Numa bela sexta feira tomei mais scotch que imaginava à tarde no regato dos vagabundos, bebi calado e agüentei palavras até o líquido maldito descer pela goela e colocar aquele que não fala para gritar na minha mente.A mente gritava:
-Ah, ela é linda.Ela é a minha mulher, como eu a quero entre os meus lençóis amarrada com cetim da viúva, como eu a ....
E a mente gritou dentro de mim, até as coisas que guardava para mim com vergonha de ser tão humano e comum.E fui no bonde às 5 da tarde.Ela, lá.
O bonde corre pela avenida e vai descendo o correio, cemitério e as galerias da Lapa, ela, se levanta.
Descemos.
Caminha rápido, com as pernas trançando devo me esforçar para alcançá-la.Percebo que ela é baixa e mignon como as moças de cabaret, seios firmes e duros.
Caminha, corre.Entra numa mansão sem nenhuma iluminação, um breu infernal no seu castelo de Spleen.
Ela não fecha o portão.Estou atrás.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
eu espero a bondade dos estranhos
Inclusive já estive em fases onde também tive quem também me sorrisse, Campos.Estamos perto de algo, certamente falta pouco agora.Mas e se todas as garras que me rasgam a alma desde criança me tomarem o que é meu por direito?
Não importa.Eu não li nenhum livro de auto-ajuda me preparando para o pior, mamãe.Vou colocar um The Police na vitrola velha de guerra gritando um “So Lonely” e dançar com o diabo se for para ficar na merda.Segurar na mão e tudo, pogar um pouco que nem nos velhos sons punks do século passado.
Merda: já estive lá também.
Peguei a senha e esperei o número ser chamado lendo "Angústia", tinha o marcador do incrível livro da Nati para me ajudar a não perder as páginas, mas de alguma forma fiquei a tarde toda no banco e já é noite.O número não brilhou em vermelho para mim.
O livro é maravilhoso: nosso Dostoiévski do sertão é um dos nossos melhores cabras, valeu a espera de alguma forma.Mas e se não tem um bom livro por perto?Como é que fica?
Palavras me bombardeiam, o telefone toca e o meu remédio tá acabando...
Ontem tava com sede e faltavam 5 centavos para o suco de groselha da Liberdade e me meti a procurar moedas pelas ruas, estações de metrô e galerias do Velho Centro de Gotham.Tem que olhar baixo e se acostumar a ver os pés das pessoas passando apressadas se quiser achar moedas por aqui.
Eu não pedi.Tampouco achei.
Droga, se eu dissesse que faltava só cinco o caixa entenderia?
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
morcegos para sempre
Estive me perguntando se essa noite o barulho no telhado foram os morcegos do Butantã.Eles invadem quartos à noite aqui, voam e às vezes dão voltas pela minha lanterna japonesa com o desenho de Amaterasu flutuando no céu.Era um baque surdo misturado com passos delicados, garras e danças de asas noturnas pisando no som de “God´s gonna cut you down”; o teto balançava e me lembrei de uma vez quando morava num lugar onde todos nos odiavam e ladrões pularam os telhados: saí para a rua para alertar sobre o perigo, mas deram risada da minha idéia tola.
Eu segurava uma faca nas mãos.
Barulhos, barulhos noturnos.A mão quente curtindo uma febre embaixo de um castelo de cobertas.
Eu prefiro morcegos me enlouquecendo no tap-tap fazendo um Johnny Cash, eles me levam para a idéia falsa de que vou buscar redenção a vida inteira e me afastam do flashback que as pessoas irão me dar um último adeus e a morte vai lampejar como a grande iluminação final (no final).Eu, eu estive naquela máquina de exames que faz um barulho metálico e frita tua mente em busca de um diagnóstico, uma resposta para os meus netos que irão se preocupar: o som dela nem de longe era tão agradável quanto o desses merdinhas sapateando que me entretêm como um rei.Máquina maldita, remédios malditos e lamentos malditos sobre uma possível crise: tu és tão doente quanto os outros, porque ir em busca de uma cura?Vivemos doentes de alguma forma, feios, pobres e sem alguém para se importar.
Se eu fosse um BBB tudo ia ser pior, nossa, como seria...
Eu ouço o som deles no meu teto, retumbando em uníssono.Sinto medo, mas não é tanto como daquela vez em que engoli água salgada e vi a mulher do mar me arrastar no mar em seu vestido.
Morcegos, morcegos na minha cabeça e no meu coração.
Morcegos para sempre.
