segunda-feira, 29 de maio de 2017

a metalúrgica


enquanto mamãe não volta para casa, eu e meu irmão começamos uma nova partida de dominó. queríamos aquele jogo grande da loja da cidade, cheio de peças e personagens, mas mamãe nos disse que aquele ali era muito caro, e que dependeria de nossas notas na escola. minhas e dele. lucas fez a sua parte.

eu não. e olha que mamãe nos disse logo no início de ano... não melhorei.

tá ficando frio de noite. guardo as peças do dominó. pegamos um cobertor lá no armário. o mais quentinho. luke arranha a porta, quer entrar. eu fico com dó e olho pro lucas. ele balança a cabeça, faz que ‘não’. fala que a mamãe ficaria brava. é verdade. luke fica com as patas cheias de terra. vive cavando coisas, enterrando ossos… luke chora de frio, faz aquele barulhinho com o nariz. tão bonitinho…

mas se ele sofre, se ele chora com aquele barulhinho... como posso achar bonito? um cão chorando!!

mamãe demora cada vez mais. pegamos no sono. luke para de ganir, de implorar. melhor assim. melhor para todos nós.

mamãe demora às vezes, e eu não me assusto com isso; mas, lucas… ele fica com os olhos abertos às vezes: dorme um pouco, acorda, apaga de novo, semicerra as pálpebras, etc. os olhos dele na madrugada são como um par de bolas de gude marrons. brilham.

é de manhã. mamãe não voltou. sabemos que não voltará mais hoje. não é a primeira vez. eu levo o lucas para a escola dele. dou um beijo na testa dele, arrumo o seu bonezinho vermelho do prézinho. falo para ele respeitar a professora. vou para a minha escola, do outro lado de tudo. pego o ônibus. fico pensando na mamãe durante o caminho todo.
duas horas depois a orientadora entra na sala. fala que tenho uma ligação. eu estava na aula de artes cortando papel crepom roxo.
‘é a minha mãe, tia!?”
ela me diz sorrindo.
‘sim’.
quase a beijo no rosto de tanta felicidade!
pego no telefone com pressa. falo ‘alô’. e quando ouço a voz dela, não seguro o choro.
digo que fiquei preocupado. começo a espernear. a orientadora sai da sala. vai chamar a diretora, certeza. ela é nova aqui.
mamãe me interrompe:
‘lipe, cuida do lucas. escuta aqui: a mamãe vai embora.’
(silêncio)
‘deixa o luke ficar com vocês em casa, quentinho… agora vocês podem fazer tudo que a mamãe não deixava, tá?!’
eu não consigo dizer mais nada.
‘lipe, escuta… mamãe não volta mais. nunca mais. independente do que te disserem, mamãe amou muito vocês, tá?!”
eu começo a chorar.
‘me diz, lipe! me diz!”
eu choro, desabo. sabia que ela não estava brincando.
‘eu também, mãe!’
‘filho, cuida do lu, tá? acredita em mim, tá?!’
Ela chora do outro lado.
‘tá.’
Silêncio. A ligação dura um século. Ouço um barulho de longe na ligação, como se fosse um apito de fábrica. Longo. Grave. Dura uns cinco segundos.
Ela desliga.

era verdade. a mais contundente.
mamãe não voltara à época ou agora. ela nunca mentira. não sei se era uma qualidade.
até hoje eu penso nisso. não na nossa derradeira despedida, mas naquele apito que disparava de longe; a ligação em segundos, aquele barulho, eu, desesperado na diretoria, depois o desespero no orfanato, na fundação…a ligação e aquele apito lá longe.
eu não odeio mamãe pelo que fez.
naquela mesma noite nos separaram de luke, de tudo… lucas ficou numa outra casa depois, eu também. não passamos mais noites quentes. fiquei sabendo que levaram o luke em um carro e o soltaram no meio do mato. bem longe.
um apito toca lá longe. e me chama, agora, enquanto escrevo.
e eu não sei o porquê de não ter raiva de nada. eu simplesmente não consigo.
ter raiva e ser triste… será que essa seria a combinação perfeita? o que esperavam de mim?
eu vim parar aqui por esse apito. o som me guiou até aqui. na minha terceira fuga da fundação, eu andava pelas ruas e escutei um apito de longe. decidi ficar aqui a qualquer custo. desde então, já me disseram tantas coisas. coisas que sei...
é claro que eu procuro mamãe em todas as mulheres, é claro.
é claro que eu espero algo. viver, escrever, mastigar, andar…
é claro que eu desejo que luke não tenha mais frio. às vezes choro pensando no barulhinho que ele fazia de noite, de pena…
é claro que eu nunca deixei de ser aquela criança. nunca. mamãe só esquecera disso, desse detalhe na época. ela fez uma decisão. não sei mais o que dizer. já disse tanta coisa para todas as pessoas que me perguntaram…
luke se foi no mato.
lucas, pelo que me disseram, está na Alemanha com a nova família. faz tempo. deve estar grande, bonito e forte.
tocou o apito de novo. descobri há umas duas semanas: é o apito do início do turno de uma grande metalúrgica da região; aqui, todo mundo trabalha nesse lugar. depois de dois minutos, o apito faz o seu último aviso. ela faz isso duas vezes de manhã, duas vezes à noite.
mamãe não está aqui. já procurei.
se o que me move é a espera (e não a raiva), o que há de especial nesse lugar?
por que fico aqui?!
(...)
juro, é o mesmo apito! eu sei disso. o mesmo lugar. o apito da manhã. era manhã (eu lembro), eu segurava uma tesoura sem ponta e um papel crepom roxo. lembro disso. lembro do caminho até a secretaria. o apito. grave. o fim da ligação.
cinco segundos. certinhos. cravados. cronometrados.
o som. grave. distante.
só não sei se era o primeiro ou o segundo apito de manhã… às vezes penso que era noite nos sonhos, que luke arranha as suas patas na porta e eu abro…
...quando eu penso nisso, nessas coisas, o dia já é outro. e eu tenho mais quatro apitos para ouvir no dia seguinte. sempre. para sempre.
é o meu turno.

segunda-feira, 6 de março de 2017

10 años no es nada

"Porra, ninguém lê essa merda mesmo... Precisamos de um cara do marketing, mano. Te falei, fazer site, promover festa, página oficial de Facebook, essas coisas...".

E foi o que eu tive. Bom, a minha equipe sugeriu... O cara chegou com um café do Starbucks, e numa sentada mudou tudo: blog com nome novo, novas pautas, networking... Sasporra.
Escrevi uma merda qualquer. Pagamos uma bela de uma fortuna, retiramos a grana do fundo dos investimentos. Fazer o quê?
No dia seguinte ele me chamou. De novo, tava lá tomando o seu Starbucks com nome escrito à caneta no copo:

"Vamos ver o seu último post. (3 segundos) Nossa, olha aí as visualizações! Caceta!".
Em vez da tradicional mensagem de "nenhuma visualização" tava marcando 5 visualizações e 5 comentários. Bem, se era patético ou não, nunca tinha acontecido.
"Se sente melhor?".

"Sei lá...".

Ele me explicou:
"Bom, vamos lá... não fica puto não, mas é tudo perfil fake. Eu que fiz. Belmont, não é da noite pro dia que um autor blá-blá-blá, etc".

Falou e balbuciou um monte de coisas. A equipe tava lá, toda "cordeirinho", toda preocupadinha comigo. Depois depositaram uma bela grana na minha conta para compensar o meu fracasso na literatura que eles investiram tanto; e ainda me deram uma viagem com tudo pago para Cancún!
Falaram muita coisa. Todas elas nada importantes... A verdade é que eu caguei para tudo; às vezes bate um vazio, às vezes eu não tenho vontade de escrever nada aqui ou acolá...

Sei que tenho amigos e amigas que me acompanham nisso aqui, lendo essas paradas, e isso é muito importante nas andanças pelo vale. Foi uma puta descoberta. Nada está muito perdido, muitos jamais tiveram o que eu tive; muitos tombaram com a papelada escrita e guardada para sempre numa casa que se incendiou. Eu não. Nada disso.
Nada nunca me desanimou na verdade; "like, dislike, compartilha!", nada. Nessa parada de escrever eu sempre enxerguei uma ponta de "algo". Sempre. Até mesmo quando não estava com um pedaço de papel, na missão, eu via "algo" se alimentando; e ali estava o propósito da coisa toda. Dessa "coisa" de escrever.

Se você leu alguma coisa aqui; se você não leu nada; se você leu um texto só e gostou, se você leu tudo e não gostou de nada ou se, até mesmo, você leu tudo e gostou de geral (o que é um pouco improvável...), isso aí é o que foi foda no processo todo. Como eu disse, muitos tombaram nesse lance de escrever, e eu permaneci só por insistência... Nada muito nobre ou metafísico.

Tudo isso serviu para suprir ou alimentar alguma "coisa" durante mais de uma década. Essa é a parada. "Não adianta pregar pra convertido", ouvi de um amigo que também não lê as minhas paradas. Tem que colocar a viola no saco e andar pelo Centrão, e tocar para gente apática e desconhecida; no meio da multidão tem alguém querendo ouvir uma moda nova. E os seus companheiros e companheiras, seus trutas, andam aonde a viola chora contigo. Sempre tem gente.
E se o fim disso aqui tá chegando ou não, tampouco me importou. Se é para acabar, vamos dar o último gole e sair atirando primeiro como o Butch Cassidy, como o Takeshi Kitano em "Brother"...

Se os porcos nos cercam, a gente revida. Sempre foi assim. Fora-da-lei para sempre.

E quer saber mais?!
10 anos não é nada. Manda mais nessa porra. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

a torre (ou 'a casa de deus')


Eu sou o raio. Eu sou a causa.
Entre tantas escórias e falsos deuses, eu sou aquele desprovido de virtudes. Eu era um assassino, um bandoleiro; um filisteu conjurado com os propósitos mais nobres... mas, por alguma razão oculta, tornei-me aquele que ascendeu à vontade interplanetária das entidades tetraplégicas adormecidas do Mar Báltico; fui abençoado e renascido no solo dos rituais pagãos e primitivos de tribos dizimadas.
Um pedido sublime, sem dúvida.
Dessa vontade, e do sangue derramado, adquiri o sopro da vida em meu novo ‘fado’, sim, pois não há fardo nessa herança: fui coroado com esse dom. Erguei aos céus e caia por minha vontade, pois não há “a casa” tampouco “deuses”: os que aguardaram ali, nas filas dos holocaustos originais, caminharão sob os corpos fustigados da fúria dos elementos por entre crânios esmagados, sonetos desperdiçados e chacinas indecoráveis.
Afinal, o fim estava próximo mesmo. Sem metafísica. No fim, no aguardado momento da revelação,  não havia segredo, apenas constatações.
Tijolos moídos, restos mortais e enxofre. Pavimentos da estrada à frente.
O raio é incerto. A fúria, definitiva...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

quando o circo passou na vila

quando o circo chegou, foi um evento daqueles... um acontecimento tão singular, que só eu me recordo do ocorrido. de todas as pessoas que compartilharam as minhas vivências e espaços, de todos os residentes que me viram subindo a rua de casa para comprar pão todos os dias, ou em busca de revistas perdidas e quadrinhos em lixeiras nos bairros ricos; parece que só eu vi o circo passar na minha vila. acrobacias, palhaços altos e esguios, malabaristas jogando pinos na altura dos prédios da rua da feira. era um sábado. nossos pais estavam de folga e todos pareciam felizes, de mãos dadas com quem amamos um dia. algodão-doce rosa. eu, tão medroso, aguardava a minha vez na fila para pular na cama elástica. quando chegou a hora, eu estava lá, todo amedrontado, não conseguindo brincar ou pular no aparelho, agarrando-me às tiras elásticas do aparelho em uma posição semifetal, mijado; chorei pelo meu medo de estar ali, no centro dos acontecimentos. naquela rua cheia de gente e palhaços sádicos apontando o dedo para mim. delírios em dias febris. sou eu, aquela criança. para sempre. um prato cheio para os psiquiatras, conversas de cantos e prescrições experimentais. e todos, todos vocês estavam lá! rindo de mim na minha vez; o mais estranho, mesmo, era isso: o rosto de todos espectadores... sim, eu me recordo perfeitamente; vocês, isso mesmo, todos vocês estavam lá! testemunhando, e roubando para sempre, aquele momento insólito e íntimo de abdução involuntária da minha infância.  

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

no meio do palco da escola

“Um cachorro solitário faminto por um sonho, uivando para o céu escuro e as estrelas.”
Era o que dizia a canção dos Blue Hearts em japonês, essa que chegou tímida e inesperada pelos fones baratos; aquela que foi cuidadosamente escolhida em diversas buscas, cookies e cache. Todas as procuras, todas as palavras, todo o meu histórico do Google, todos os meus gostos culminaram nesse momento, nesse texto; e eu não tenho vergonha de nada, podem me denunciar, vazem essa porra no Wikileaks, essas minhas putarias e perversões, pois não devo nada a ninguém.
Realmente não me importo.  
Vamos lá, deixa eu explicar… Eu ouço um som, e essas palavras pedem uma permissão nesse ritual, tocam o meu braço e imploram por uma vez no mundo. É uma possessão consentida. Meu histórico é a minha vida. É o meio. A putaria, a Belladonna, a Jeanna Fine, as idiossincrasias sintomáticas, e as buscas por doo wop e punk rock… tudo isso é o meu legado. De tudo isso nasce uma história, um pensamento. E quando faço essas coisas, de escrever, de postar uma porra de um pensamento, o pior insulto que recebo é ser chamado de “inteligente”: não o sou, considero-me o mais tosco e torpe da turma do fundão; dou risada de coisas ridículas e jamais me deixam dizer o que quero, pois posso envergonhar a todos. As pessoas sempre me interromperam quando começo um pensamento mais ou menos coeso, e acho que isso foi a maior sorte que tive na vida. Conheço gente intelectual, inteligente, real, e estou longe disso; tampouco anseio esse status.
O que eu quero atingir com esses textos é aquele olhar silencioso, o menear da cabeça simbólico dizendo “podicrê”...
Sou burro, caralho! Às vezes não entendo tramas simples, enredos, contas e operações básicas, confundo a gramática, demoro algumas horas para compreender as regras de um jogo… Tem dias que me pego em questionamentos e me esqueço de quem sou: leva um tempo para voltar e relembrar a minha trajetória. Acho que, no fundo, estou condenado àquelas histórias de boteco bem triviais:
“Lembra dele? Então…”
(suspiro)
O cachorro uiva lá fora.
A canção, um dia, acaba.
Essas coisas aqui nessas linhas não são complexas; na verdade, elas buscam só a confusão, o embaralhamento. Não há nada definido no meu discurso. É tudo um grande embuste zen-surrealista à lá Dadá.
E há os que tomam essa confissão, esses textos de ficção, como verdades absolutas. Mal sabem que sou guiado por cartas de Tarot e pela aleatoriedade das regras de um roguelike, e, raramente, falo alguma verdade nessas palavras. Mal sei como terminarei o meu dia ou qualquer coisa.
Tudo isso posto desse jeito, cá estou, agora, com uma luz na cara, no meio do palco da escola, após o hino nacional ter sido tocado numa vitrola no pátio com os militares devidamente louvados em coro de crianças em uníssono. E eu sinto uma fúria imensa, pois as palavras sempre me deixam puto quando saem assim no papel. Tenho que ser contido, começo a gritar! Quero quebrar a vitrola. Estou ali, no meio do palco. O cachorro uiva para ser ouvido:
- E essas palavras aqui, esses textos…
(todos os personagens o seguram)
- Deixa eu dizer, mano, não me segura não, porra! Me larga, caralho…
(ele respira fundo)
- Isso aqui, esses textos, essas coisas, esse blog...
(resfolegando)
- ...é somente eu batendo o ponto e dizendo “tamos aqui”, é um uivo, um grito na madrugada que nem todo mundo escuta... morô?! E tá ótimo assim!
(todos o contemplam silenciosamente)
E eu brigo, bato os braços, agito a noite inteira sozinho no pogo para uma banda punk sem fãs. Depois, quando me canso, eles me deixam num canto, e sabem que eu ficarei bem, só preciso de um tempo, de um cigarro, de uma canção, de uma busca…
… depois a galera me paga um X-Tudo lá na Vital e eu vou lá pro ponto esperar o meu ônibus. Esse é o meu momento de reflexão profunda.
Chego em casa. Mal é dia, é noite, sei lá que horas são… nem tá passando Teletubbies ou VR Trooper...
E nesse momento, lá fora, aqui nas ruas do Velho Oeste, um cachorro aprisionado em uma casa de mármore uiva dolorosamente todas as noites. Isso não é literatura, isso é um fato: esse cachorro existe. É a única verdade nesse texto, esse cachorro… Ele, todas as noites, é acompanhado por todos os vira-latas da quebrada, e eu, às vezes, (acho…), sou um deles. Não existe tristeza, nem alegria: somente esse momento do uivo, do texto.
No fim, somos todos como aquele prisioneiro que toca um Blues na gaita; o personagem figurante na Malhação fingindo que tá conversando; ou o fundo de uma pintura. O cachorro que uiva para a lua…

“Tamos aqui”... não se esqueçam.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

pistoleiros, bandidos e amantes



“So they gave me a tin hat, and they gave me a gun,
and they marched me away to the war.
And the band played Waltzing Matilda,
as we sailed away from the quay”
Eric Bogle - And The Band Played Waltzing Matilda


Ao menos tentaram…
Durante a longa despedida, esbarraram em fotos amareladas de desconhecidos, flyers de shows de bandas antigas e tickets de filmes que nunca viram. Entre outras coisas sentimentais e esdrúxulas. As mochilas, cheias de tranqueiras, não ofereceram mais espaço (ou vontade) para essas lembranças prévias.
Afinal, para o batismo de fogo que enfrentariam, não havia espaço para essas futilidades de outrora.
Seguiram com ‘aquilo’ até o permitido e, ao que parece, não tinham sentimentos recorrentes, duvidosos ou duradouros sobre a decisão do término. O que não previram foi o inesperado (e derradeiro) fim de todas as coisas, de tudo: dos tecidos, das relações antropológicas, do desapego pragmático que a luta trabalhista impôs em tantas rotinas, etc. No fim, “o mundo já estava assim”, acabado, como previra o pistoleiro niilista e enigmático da Vila Beatriz chamado B.B.
Notícias distantes de bunkers na Zona Oeste. Gangues que ouviam Doo Wop com crianças armadas.
Era o fim das coisas, das relações dos seus corpos e do espaço entre eles; mas, certamente, novos destinos eclodiriam de seus monitores verdes acoplados nos braços com GPS.
Eles tinham esse trato.
Rumaram para fora dos bunkers, distantes, taciturnos e olharam a vastidão do mundo à frente. O horizonte vermelho alaranjado empoeirado. Respiraram fundo; naquele momento vislumbraram as promessas de todas capivaras radioativas famintas pelo caminho, dos mutantes, assassinos e rebeldes que enfrentariam da Zona Norte ao infinito.
A separação foi inevitável. O ar, rarefeito, descia lentamente aos pulmões dos dois como o veludo azul (e macio) deslizando na perna da burlesca dos cabarés. O que se seguiria a partir daquele momento emblemático foi apenas uma consequência daqueles votos passados com promessas bêbadas feitas com rum artificial em um telhado.
O horizonte, vermelho e intocável, banhava a saída dos dois agora. O dia esperado.
Um colocou o fone de um velho tocador de vinil automático rolando um single da época das Big Bands. O outro, enfrentava a imensidão radioativa com uma shotgun serrada em punho e com cara de poucos amigos.
Mal se olharam na descida das escadarias. Era o prometido.
Jamais seriam os mesmos. “O mundo já não era”. Eram homens que já se amaram, e isso era, aparentemente, somente o que restou para alguma lembrança rápida de um período de privação, trepadas e uns cigarros enrolados em madrugadas de luas tímidas na ZN.
Não há mais lugar para o amor, só a pilhagem. Eles sabiam disso. Agora. E isso era tão excitante quanto o início de um romance, ou das possibilidades de solteiros. A aleatoriedade, o duelo e a paixão pelo oculto os levariam às mais intrépidas matanças, desespero e aventuras nas ruínas. Os dois, sem saber, atravessariam uma guerra de cem dias que se desenrolava na Zona Oeste. Em lados opostos. Até o tal do B.B cruzaria as consequências desse desenlace amoroso nas escadas de um prédio em ruínas na Zona Norte.
(deixemos esse capítulo para uma outra resfolegada de ar do mundo novo. por ora...)
Olharam à frente. Ouviram os próprios passos se distanciando um do outro. Apenas uma olhada para os próprios pés e coturnos.
A Big Band rolando, furiosa. Duke Ellington massacrando um piano gloriosamente.
O cano da Shotgun batendo no ombro revestido de metal.
Essa merda de amor era um troço superestimado agora: nada era mais fascinante do que a imensidão silenciosa dessa cidade destruída ou das vozes subversivas incitando revoluções e pilhagens nas ondas das rádios-piratas. 

continua...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

todo mundo já viveu um romance adolescente patético

Nos encontramos no meio do caminho da escola.
Ela voltava. Eu ia.
Parei, tomei um susto. Aquela cara de idiota que não sabe o que fazer quando encontra uma garota. Ela sorriu. Estava linda. E eu me confundi na hora de dar os beijinhos no rosto. Tinha uma maldita época (ou melhor: amaldiçoada época) que o pessoal não se decidia se dava um beijo no rosto, dois, ou – pior – três..
Caralho...
Eu, claro, fui dar um. Mas senti uma bochecha virando. Dei mais um. Depois outro.
Tudo aquilo tinha que acabar logo.
Eu não sabia o que fazer naquele momento. Gostaria tanto de levá-la na Pôr do Sol, cabular aula ou fugir para algum lugar… mas eu não saberia fazer, desenvolver a narrativa, ou elaborar uma fala para convencê-la a fazer algo que se passa na minha mente. Minha retórica era péssima. Era triste ser jovem, adolescente, feio, idiota, com uma pá de espinhas na cara… amaldiçoada época.
Não tenho saudade. Nenhuma. As pessoas bonitas jamais entenderão o drama dos mais feios.
(e vice-versa… mais versa do que vice)
Foi um encontro casual. Seria mais prazeroso depois que ela fosse embora. Eu respiraria, deixaria o horror (e a timidez) darem suas últimas convulsões e meu corpo permaneceria estável por alguns minutos... E foi. Ela me cumprimentou, perguntou da minha mãe, do meu irmão, sorriu e disse “tchau”. Aquele papo furado. “Será que vai chover?”. Coisa rápida. Eu fiz o mesmo. Depois de uns passos, olhei para trás e vi aquela bundinha redondinha num shortinho jeans se afastando.
Claro, ela não olhou para trás.
A escola era longe, mas o tempo passava rápido na minha cabeça. Eu ficava pensando em monte de coisas. Tinha muita putaria, claro. Tinha muita história. Tinha muita coisa de desenho. De quadrinhos. De videogame. O tempo passava. Chegava na pracinha, perto do colégio público. Tinha uma espécie de mosquinha planando no ar por esses lados, imóvel, que eu chamava de ‘helicóptero”.
Sempre tentava dar um tapa para acertar o bicho (!), mas sempre errava.
Tinha dobradinha de Biologia e Matemática naquela sexta. Professores filhos da puta, que mente doentia! Numa sexta-feira... uma dobradinha doentia dessas?! Uma eternidade. Eu fiquei rabiscando o Bob Cuspe na última página do caderno e olhando pro cabelo encaracolado da menina na carteira da frente. Ela era bonita também, nunca trocamos uma palavra sequer; a não ser a vez quando ela me pediu uma borracha emprestada na prova de Geografia. Eu terminei a prova antes e saí da sala para beber água. Levanto a mão.
“Pissora, pos-…”
“Pode…!”
Quando voltei, a borracha estava lá. Na minha carteira, do lado do estojo de pano. Não houve “por favor” ou um “brigado”. Tudo bem, eu faria o mesmo.
Eu tinha o olhar parado em um desenho na carteira enquanto pensava nisso. Estava escrito ‘Metal Punk Death’; e um desenho de um carinha cabeludo de jaqueta jeans batendo a cabeça e erguendo os punhos para cima. Da hora, queria desenhar assim.
Toca o sinal para a segunda dobradinha. Intervalo. Tomo água da torneira. Água fria, gostosa. Molho o cabelo. Os playboys compram coxinha e refrigerantes com o dinheiro da mesada. Eu almocei antes de ir para a escola para a fome não bater à tarde. Sorriem para caralho não sei do quê. Eu fico lá, com um ódio do caralho no coração fitando aqueles putos tomando refri e comendo salgadinhos. Depois, um ano mais tarde, roubaria uns chocolates no supermercado por pura rebeldia e inconsequência. Não era fome, era necessidade de destaque.
3:15 da tarde. Pensei nela, naquele encontro de merda à tarde, nos três beijinhos patéticos...
Voltei para a classe. Tinha gente que trazia lanche de casa. Eu entendia. Sempre tinha uma menina crente, com um cabelo enorme e saia comprida, que sorria quando eu a encontrava na sala comendo um fandangos. Até era bonita, mas não gostava de se misturar. Ela me olhava, sorria e voltava a comer. Bem despreocupada. O inferno das relações é a necessidade da comunicação: esses encontros inesperados em que o terror grita na sua cabeça e você só quer ir embora. Essa menina, a crente, entendia disso e eu tinha uma simpatia enorme por ela: ela se sentia invadida e eu também. A maior parte do tempo queremos ficar sós, com o narrador em off, naquela putaria e bagunça de abstração que parece a sala de casa com as roupas sujas.
Sento na carteira toda rabiscada. O desenho do carinha de jaqueta continua lá. Sorrio.
Escrevi o nome dela no caderno. Da menina do encontro de merda daquela tarde na ladeira.
Última página do caderno de 8 matérias. Gigante. Pouca coisa escrita. Um monte de desenhos. Umas fórmulas que não entendia. Uns gráficos tortos sem régua. “Bárbara”. Um Bárbara escrito em estilo de pichação anos 90 no meio de um monte de Bob Cuspe, Eskrotinhos e Batmans canhestros. Era uma coisa bonita no meio de um monte de rabiscos. Eu queria saber desenhar (ah, como eu queria), mas aquele nome no meu caderno foi a coisa mais bela que as minhas mãos garatujaram naquela tarde. Longa.
Bateu o sinal e eu voltei para casa. Sozinho. Tinha os trutas que pegavam o mesmo caminho, mas saí na frente para ir pensando nela. Gosto de ficar sozinho. Ninguém entende isso. Se a gente ficasse falando no caminho sobre os cartuchos que pegaríamos na promoção da locadora não haveria paz. Amanhã é sábado, dia de alugar fita de Mega e ficar com ela até segunda. Eu escolheria um Kid Chameleon pela décima vez. Que jogo foda.
A vida seguiria o seu curso de qualquer forma.
Noite. Passa um filme de putaria nacional. Na chamada, como era de costume, os caras já colocaram todas as cenas de sexo, e tem a Adele Fátima. A Adele! Não perco isso. Nenhum muleque perde essas coisas.
Penso na garota do encontro de merda enquanto gozo assistindo à cena da Adele. Naquela blusinha branca dela e o shortinho jeans à distância. A pequena morte, precoce, invade o corpo. Não preciso de papel higiênico. Não preciso de nada.
Ela, essa garota, a Bárbara, era uma amiga da família. A minha mãe conhecia a mãe dela. Amiga de igreja, amizade estéril e insignificante. Essas coisas. Ela é mais velha. Uns dois anos. Tá no 3º ano. Deve ter alguém no telefone para falar à noite.
Eu não tenho telefone, sempre invejei quem tinha.
À noite o quarto/sala tem uma penumbra. A luz da cozinha fica acesa a noite inteira para afastar os ladrões. Queria dormir no escurão, mas a minha mãe tem medo dos invasores. Eles nunca vieram. O teto cheio de rachaduras, umas manchas escuras e marrons. Um fio de luz deixa as manchas mais escuras ainda, formando padrões abstratos. A cortina da sala tem uns desenhos de folhas; e com a pouca luz vinda da cozinha, consigo formar um rosto, dez, cem olhos me fitando na cama pelo tecido. Ouço um cachorro latindo na madrugada. Um gato mia bem curtinho. Um cara dando uma risada muito alta. Uma garrafa quebrando. Um carro passando com um som bem alto tocando sertanejo. Uns passos pesados pelo quintal dos moradores da casa do fundo. Talvez seja o marido que trabalha de segurança e volta tarde. Uma gata no cio, ensandecida, no telhado do vizinho. Demoro para dormir.
“Bárbara”.
Um som que sai da boca de um jeito esquisito na noite.
Adormeço.Tenho um sonho. O mesmo.
Sonho que estou voltando da escola. Quando viro a esquina, dou de cara com a minha casa pegando fogo. Todos no bairro admiram o espetáculo. Uma enorme fumaça preta eleva-se às nuvens, toma as alturas, indo em direção ao enorme buraco negro que se abre no céu...

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

punição pela virtude/vingança pela honra

Estou sozinho. Sem família ou amigos. Em um lugar ermo, indefinido e virgem; hei de encontrar a paz que me foi relegada. À minha volta, eis o som dos grilos e um riacho que bate nas pedras despreocupadamente. As chagas nos meus pulsos, o sangue coagulado nos joelhos; as roupas estão duras pelo sol e lama. Minhas mãos estão atadas e não consigo me desvencilhar. Há alguns dias encontrei um pé de manga e o chutei até cair algumas frutas. Cravei os caninos impiedosamente, e lhes digo: aquela foi a melhor refeição que já provei; não menciono o fato pelo estado em que me encontrava e, sim, pelo fato de que o fruto estava tão doce e limpo... eu chorei de felicidade. Eu sabia, indubitavelmente, que conseguiria me desprender daqueles grilhões; que fugiria do inferno de estar só.
Tanta era a certeza, leitores, que esse pequeno manuscrito veio parar em suas mãos.
E hoje... eu começo a caça.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

eu não consigo competir com a juventude

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa"!..."


Florbela Espanca - Velhinha


Eu não consigo.
Eu não consigo evitar os cabelos brancos que proliferam em meu corpo, começando na barba até aos pentelhos, em uma profusão metastática e implacável. Eu não consigo evitar o ganho de peso involuntário, a crescente decadência da minha aparência e as futuras surras que levarei dos mais jovens e preparados. Dos empregos que perderei para os mais prodigiosos e infantes; das mulheres que me abandonam para os mancebos mais atraentes e da constante decrepitude que me assola por completo. Dos smartphones que não possuo e se antecedem na arte da conquista; do currículo (inexistente) que é comparado ao mais jovem em uma mesa corporativa; do jogador que sempre tem um Full House me quebrando a cara na mesa aonde aposto tudo olhando para o fundo de um copo de cerveja. A dignidade...
Sem piedade.
Não há nada mais odioso que um jovem que acha que pode te dar uma surra.
Eu sempre fui velho, Florbela…
(como você…)
E todos eles, sem exceção alguma, são mais jovens. E eles buscam, cada vez, mais um confronto comigo.
Eu não consigo evitar em ser um completo derrotista por algumas vezes, e isso é o que me faz escrever o quanto eu não consigo competir com a juventude; cada vez mais fico mais velho, sem atrativos, sem brilho, sem cortes de cabelo sofisticados, sem barbas lustrosas hipsters e sem roupas (e aparência) fotogênica nas redes sociais. Tornei-me um completo tiozão, e o rótulo em nada mais me assusta.
Eu não consigo competir com os mais jovens.
Contra eles. Perco-me em pequenas querelas imaginárias; o meu olho voa com um esguicho de sangue e eu dou risada da surra como o puto do Camões, elucubrando o próximo que moerá os meus ossos e gozará da minha incapacidade de revidar quando estiver com supercílio arrebentado no chão lamentando tudo o que perdi com a derrota. Eu…
não…
...consigo!
(Eu sou o próximo leão exilado na floresta a pensar sobre as glórias passadas, as chagas que não podem ser mais lambidas pela companheira secarão ao vento… meu pêlo emaranhado e duro, com o sangue preto tingido e coagulado pela lua, possui oxigênio e lembranças da surra dos leões mais jovens da Gangue da Acácia… o silêncio se estende pela floresta com a cacofonia noturna dos residentes)
Eu não consigo competir com os autores mais jovens, com o seu vocabulário imbecil e com as frases feitas e estéreis escritas numa tela touch com hashtags que propõem um adultério ou algum nude; eu não consigo… os livros mais lidos da Veja são dos mais jovens e isso é muito triste e deprimente: tudo isso é a obra dos mais jovens!
(tudo é culpa deles! a Veja é feita por gente jovem! às vezes eu não me controlo e quero dar porrada nos mais jovens, esses filhos da puta com risada cínica! às vezes eu arrumo treta no bar com eles de graça, admito!!)
Até mesmo os mais traidores e fura-greve que conheço são os mais jovens, e isso, por si só, é mais deprimente que a literatura jovem, produzida por gente jovem, com seus textos canhestros nas listas de best-sellers jovens!
O que eu digo aos mais jovens é que ‘tentem a sorte’, e busquem derrotar (sempre!) o mais velho, mas que jamais se esqueçam que um veterano é um sobrevivente. A gente aguenta muita porrada e um soco bem colocado muda tudo.
Foreman tá aí, ‘exorcizando o fantasma de uma vez por todas’...
Mas, às vezes, eu - definitivamente - não consigo competir com os mais jovens.
EU…
NÃO…
CONSIGO…
!!!
(...)
Deus, eu não consigo …
…caralho.
(snif... snif…me dá meu copo...ei, lembra daquela vez? daquela vez que a gente… que a gente...meu, que porre a gente tomou! e aquela mina que eu comia? cê lembra como ela era gostosa?... e aquela outra, haha!!!... cara, e a minha graduação; e os trampos elogiados pela minha banca, hein?!.. minhas publicações!... cara, eu ganhei tanto dinheiro naquela época!… tá ficando tarde… sei lá que ônibus passa por aqui.. me dá uma carona?!)