terça-feira, 31 de dezembro de 2019

#somostodosninguem


O ano finda. O salário chega. A aula começa. O metrô atrasa.

E estamos atrasados, claro…

(chegou uma mensagem agora, caiu a 2ª parcela do décimo terceiro)

Durante todo esse tempo eu gastei a cota do bilhete de forma assídua. Gostaria de dizer que estava lutando pela sobrevivência, que a minha desculpa para me afastar de tudo era o trabalho interminável “ó, como sofremos”. Seria perfeito, irretocável. 

Todos se compadecem com mais um espécime triste rolando uma rocha até o alto da montanha. Eternamente.
Queria dizer que era sobrevivência, mas seria um troço fácil, redundante; afinal, todos aqui no vagão fazem o mesmo. Veja só, leitor@s:
"O cara que pede restos de bolacha.
A menina chinesa que atravessa a cidade para assistir aula no cursinho.
O homem que sempre conta a mesma história, que tem problemas no cabelo, e perdeu o emprego (e tudo) pela má aparência na entrevista. Que precisa de 42 reais para inteirar a passagem de volta.
(tira o boné, todos ficam chocados; eu sempre contribuo, não me importo)
E por fim aquele mano ali. Ele é meu amigo, também é professor..."
Eu o encontrei um dia no vagão, ele não meu viu:
Olha aí, patrão! É o tripé para segurar o seu celular! Era dez, agora é cinco!
O vagão. Lembra do vagão? É o mesmo. O professor, aquele velho colega, não me viu. Desejei sorte.
(secretamente)
Um belo dia todos estavam ali, cantando algum número musical da época do Oscarito, indo à boca do lobo por mais um dia; quando, sem mais nem menos, o vagão parou. Minutos. Horas. Quase um dia.
Ninguém conseguia mais usar o celular, não tinha sinal.
Antes de tudo isso, as pessoas bradavam discursos de união antes da parada. Que eram por todos, que ninguém largaria a mão de ninguém…
Hoje, somos todos ninguém.
Não há profecias, apenas a desesperança. Todos trancados, esperando morrer um dia dentro de um vagão. Comer o outro, canibalizar o próximo, animalizar o outro, não compactuar com solidariedade. Ódio, luxúria e dados móveis.
Quem sair do vagão por último é o vencedor.
Claro que não fui eu. Seria diferente?
Eu morri ali. Naquele dia. A caminho. Mas também comi, dilacerei carne de inocente; bradei aos demônios que sairia dali com a cabeça erguida. Não consegui.
Acontece.
Ninguém é por ninguém?
Será? Será mesmo!?
O fedor que exala de morte nesse subterrâneo jamais chegará a superfície. O vencedor, aquele que comeu a carne de todos, também padeceu ali. Éramos ninguém.
Agora somos um só. Na morte, na lida diária, dilacerados e pútridos em um vagão.
Éramos trabalhadores, estudantes, ambulantes, docentes, aposentados, desempregados... Éramos ninguém.