terça-feira, 30 de dezembro de 2025

completamente inofensivo

" (...)A vida viajava

mas não viajava eu,

que toda viagem

é feita só de partida."

Paulo Leminski, V de Viagem

Um prato cai. Reclamações com garçons, conversas banais e  tacanhas em uma sinfonia de garfos e facas batendo fundo em pratos.

Um gosto surreal. A carne, o arroz, o feijão escorrendo; tinha tempo que algo não me prendia assim… aquele sangue que saía da carne entre meus dentes era o meu prêmio de fuga depois do óbvio. E o que era “o óbvio”? Depois de um ato de covardia, alguém decidiu por mim isso aos gritos:

— Sai dessa vida! Não me leva para essa disfunção, essa confusão tua, porra!

Aquela conversa… Eu pensava nisso durante o jantar para um único vencedor depois de um longo período de fome.

Ah, eu me lembro bem dessas palavras; afinal, era tão óbvio não é mesmo?! Tanta coisa acumulada: vai lá, taca tudo logo dentro dos compartimentos de uma mala abarrotada, fecha com força, e já está feito, não é mesmo?!

Quem me disse isso, não era bem um amigo. No entanto, o conselho horrível, apesar da minha teimosia, agora era perfeito: ir para longe.

A carne, a farofa, o gosto do azeite… um boteco ordinário de fim de mundo, que servia pratos enormes e feijão por cima como uma argamassa escorrendo por tudo até a porcelana dos pratos com detalhes azuis. Quando passei o guardanapo pela boca, eu quase chorei. Eu queria abraçar o cozinheiro por aquele PF meia-boca gorduroso, sebento e tosco ter colocado tanta vida dentro de mim.

Pedi para um garçom visivelmente abatido que tirasse uma foto minha segurando o prato vazio. Eu o abracei, estava, de fato, muito feliz. A primeira foto da jornada.

Eu me levantei, coloquei a mochila nas costas e abri a porta. Estava “ali” , renovado, completamente inofensivo. Som de grilo entre as matas, uma estrada viva à frente, uma procissão de caminhões e carros se deslocavam com fúria além da escuridão.

Eu não tinha muita coisa agora além da vontade de permanecer livre e longe de casa.

Mas a pergunta é: “o que aconteceu?”.

Aquela fala. Ele me disse para eu “sair dessa vida”. A minha vida era totalmente dedicada a ele, e eu (acho) que o transbordei com meus problemas.  Na primeira conversa, eu estava muito nervoso. Ele entrou e me ofereceu água, dizendo que eu poderia me deitar naquele pequeno sofá quando quisesse falar coisas difíceis. Eu não sabia o que dizer, mas aquilo me deixou curioso. A minha vida tinha culminado naquele ponto de mudança, e aquela cadeira me daria isso. E eu dormiria ali sempre quando “esvaziasse” Aproveitaria o convite.

Ele ouviu muitas coisas difíceis naquele ambiente… mas ele era pago para isso, não? Por vezes, eu o via horrorizado com minhas falas: mas disfarçava bem, sempre pouco expressivo, dizendo predicados razoavelmente certeiros. Nas paredes, havia fotos de pessoas felizes, distantes, carrancas com dentes entre bebês e toucas coloridas. Uma caverna ao fundo, sorrisos... Comidas em diversos lugares. Ele, com dentes perfeitos e alinhados. Sorrindo?!

Tornou-se um ritual: falar e deitar no sofá. As fotos me incomodavam. Ele era aquela pessoa?

Depois de muito tempo, eu confessei isso a ele. Que a minha vida precisava dessa máscara, pois ele não era aquela pessoa das fotos; como fazia isso? Foi quando ele disse que eu estava errado sobre ele e as fotos de viagens, e o quanto elas proporcionam uma ressignificação.

Eu disse que todas aquelas fotos me incomodavam. E ele falou furiosamente sobre meus problemas, com um linguajar de alguém que tinha intimidade (até demais). E soltou aquelas palavras como se eu quisesse algo dele, como se eu quisesse estar naquelas fotos. 

Eu entendi tudo. A fúria aconteceu. Foi tudo muito rápido e nada premeditado quanto disseram na época: apenas coisas quebradas em um período muito curto de tempo.

Rasguei todas as fotos. Levei uma em particular em que ele e a família almoçavam. A porcelana era azul e tinha o nome do lugar. Rasguei a família.

Tudo tem um gosto novo agora, essa é a argamassa da minha vida. A ressignificação. A jornada. E eu me sinto distante, em paz. 

Finalmente, saí dessa vida.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

belmont em crise #3 - o direito sagrado

Estamos começando tudo de novo aqui.
Dizem que é um ciclo, uma roda que se autoalimenta, um brinquedo de hamster, a tal corrida dos ratos…
Vamos tentar de novo, não tem jeito. Até porque, se não tentarmos, não há movimento. Resta um pouco de esperança ainda? Um tiquinho.
Estamos aqui admitindo que a merda acontece e não há nada o que fazer para anular o resultado. Ninguém tem um DeLorean agora.
Estamos aqui encarando o direito sagrado do resguardo, da avaliação das opções, de apagar o save e começar um outro.
Nada de mensagens, a única (e derradeira) que passamos em 2023 estava certa: otário é quem acredita em coach.
Por que o plural?
Porque eu não estou sozinho. E você aí (sim, você) também não está.

Créditos


sábado, 30 de dezembro de 2023

belmont em crise #2 - coach

E mais um final de ano…

Dessa vez não irei reclamar, deixar ares de pessimismo ou reflexão amarga com algum texto. Afinal, foi um bom ano para mim (que isso fique bem claro, é uma parada pessoal); não há muito mais a acrescentar além disso.

Pela primeira vez na vida, eu soube o que é levar uma vida sem muito barulho na cabeça. Isso não tem preço.

Galera, nessa caminhada só é preciso reconhecer algumas coisas: quando a merda bate no ventilador, é uma bosta, nada faz sentido; quando você sente a brisa do mar sem nenhuma preocupação, é muito bom aproveitar o momento.

(tá mó ventão agora)


Conseguirei fazer algo produtivo na escrita? Algo me diz que esse é o caminho, mas onde buscar isso em 2024?

Sei lá, é complicado quando se tem que sobreviver… tudo, absolutamente tudo, se resume a entregar suas horas a objetivos alheios para remuneração; simplesmente, para poder viver mais um pouco com muito pouco, mas vivendo. 

Não há mitos: trabalhamos para sobreviver. Até nos sufocarmos.

Então, há outra alternativa na nossa rotina? 

Não sei. 

(na moral, é preciso ser realista, né!?)

É muito surreal pensar que pessoas tenham tempo livre e não estejam atoladas com algo para sobreviverem. Surreal imaginar que não estejam sufocadas…


— Se o ano que vem não for melhor, o que faremos? 

— O mesmo que fizemos todos os anos em que isso aconteceu!

— “O mesmo” o quê”!

— Mano, estaremos trabalhando ou não… pensando em boletos, aluguel, moradia…

— Isso é uma bosta.

— Se é… 

— Tem alguma palavra de conforto então? Você disse que não deixaria ares de pessimismo! Diz uma luz aí, pô!

— Quem acredita em coach é otário. Sem mais.


Se você leu alguma coisa aqui alguma vez: que você tenha um 2024 foda, não importa quem você é, sério, eu desejo isso sinceramente. A gente se vê!

(sobe os créditos agora)

sábado, 22 de abril de 2023

Inisherin

Anda para cima, anda pra baixo…

Sobe com a burrinha, desce com a burrinha; vai pro bar, sai do bar. Bebe, come e fica feliz, fica triste, briga com o seu amigo e desce as colinas de Inisherin.

Eu sou esse cara, eu sou esse cara: já briguei com muitos amigos, já perdi muita coisa, mas as andanças pela colina continuam. Parece que eu não quero sair de Inisherin, mas já estou longe, pode acreditar, mas ainda sinto o cheiro do ar, do pão feito em casa e o cheiro dos bichos e do leite.

Quando se é de lá, todos os dias se tem pesadelos e sonhos; alegria e dor.

Uns dedos cortados na soleira da porta.


segunda-feira, 6 de março de 2023

belmont em crise #1 - arrasta pra cima

Eu queria trocar uma ideia aqui. 

Então, pensei “que tal criar aqui no blog uma seção ‘sobre o autor’”?
(não, não… melhor ter uma outra alternativa…)

Bem, vamos lá, já tinha uma tag aqui neste blog chamada “belmont em crise”, que, basicamente, era aquela punhetação metalinguística de falar da escrita. Eram textos mais sobre mim mesmo, mas nunca só “eu”, tá ligado? Era sobre a “crise”.

Como esse blog já está com quase 20 anos, e eu ainda escrevo bem esporadicamente (bota esporádico nisso), de vez em quando, vou começar a postar algumas coisas sobre a escrita ou aleatoriedades. (ou, simplesmente, sobre a “crise”)


Aliás, o nome “Belmont em crise” vem do Angeli. 

Do "Angeli em crise".

É genial. Procura aí o trampo do cara. Ele fazia umas tirinhas sobre ele mesmo e seu processo destrutivo e abençoado de criação.

Fui nessa aí porque o Angeli foi um dos meus heróis de sempre. Fazia sentido na época e agora também.

Salve, Angeli!


Todo ano eu posto algo. Nem que seja um texto por ano.

(triste, mas desde 2007 tem sido assim...)

No começo, fazia mais sentido postar, escrever periodicamente: eu tinha sonhos, eu tinha uma necessidade, eu tinha uma voz, eu tinha uma criação, personagens e uma vida pulsante que fluía fácil pelos meus dedos.

Era mais fácil, sem zoeira…
O que aconteceu, então?

Bem, eu me tornei um professor. Desses de ensino fundamental, que viram uma figurinha no zap com uma cara engraçada para ser ridicularizada.

Acho que isso diz tudo.


Agora uso óculos. Sempre quis.

Dizem que eu fico bem de óculos. “Dizem”.

A primeira coisa que pensei ao me olhar no espelho com o treco pendurado na cara foi uma coisa que o Coringa disse para o Batman:

— Você não vai bater num cara de óculos, hãhn?!

Sempre esboço um sorriso quando digo isso para mim mesmo todos os dias no espelho.


Como eu disse, faço questão de postar, pelo menos, um texto novo por ano.

Se algum dia não fazer isso mais aqui, já sabe:

  • fui de comes e bebes

  • fui de Olavo de Carvalho

  • fui dormir de roupa social

  • fui jogar no Vasco

  • fui de picolé Kibon

  • F no chat…

  • fui de camisa de saudade eterna

  • fui de arrasta para cima

A molecada de hoje tem uns eufemismos foda…

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

sobre as últimas palavras de um autor

"é isso. assim, com um monte de música porreta… quem rouba uma porra de um mp3 hoje com um monte de celular caro? aifonecinco, aifonedéiz aí dando sopa no suor paulistano diário… e eu aqui, carregando currículo, comendo churrasco grego, às vezes ladrão não tem compaixão por um bosta como eu... não é questão de ser diferente ou não, eu só gosto daquela coisinha que eu coloco no bolso menor do bolso maior, ponho um fone e saio ouvindo. meu mp3 se foi, aquele que tinha um monte de função inútil. paraguai-china. celular é um troço meio mala pra mim, foda-se.

no entanto, hoje, o nóia me viu, me buscou de longe, e não teve jeito; moleque bem de vida nunca viu esse olhar que o nóia te intima nas madruga nos terminal; e eu, acho tenho muito a perder se ele me furar ali mesmo, então eu contribuo com o assalto, pois ladrão não perde viagem.

ele viu que eu era um fudido, que tinha 5 reais na carteira.

e pediu a primeira coisa que viu, meu mp3zinho no bolsinho; bateu mó dó, mas dei aquela porra, que, com sorte, foi trocada por uma pedra de crack bem marrenta e ardida que tá até agora revirando na mente do fudido."


O texto acima foi um verdadeiro marco na minha carreira editorial.

Título: meu mundo caiu, roubaram meu mp3”. Fonte: Book Antiqua. Tamanho 12. Espaçamento: 1,5.

Rústico, bem informal. O texto não passou pela revisão, pois isso era uma exigência do alto escalão. Tinha algo de cru nele. Algo que, supostamente, teria uma essência oculta. E, de súbito, os leitores o adoravam; questionavam se aquilo era verdade em uma revista sobre literatura que, ocasionalmente, publicava textos de autores amadores. 

A coisa literalmente bombou...

E perguntavam: quem era o autor?


Eu, a princípio, não entendi o fascínio por aquele tipo de ficção; e questionei ao editor o verdadeiro porquê daquele tipo publicação ao estilo marginal e batido. Uma coisa meio beat revisitada, mastigada: cheia na literatura “de hoje”… 

De imediato, veio a resposta em um e-mail secreto: descobri que o autor era o sobrinho do meu empregador. Parece que a nossa revista estava nessas ultimamente…

O texto, tão idiota a meu ver, pululou os comentários nas redes sociais quando publiquei o post da prévia. E as pessoas, ávidas por notícias e updates em tempo real, pediram e requisitaram uma entrevista com o autor. Ninguém reclamou; até porque a revista estava em evidência nas redes sociais com esse movimento.

Sobrou para mim essa tarefa. Confesso que tinha uma curiosidade mórbida.

 

Não foi muito difícil. Consegui o número do zap dele e, no mesmo dia, o obscuro autor confirmou a entrevista comigo na sua casa à noite, mais especificamente às 22:18 (!). 

Cheguei ao endereço exatamente no horário, parando e cronometrando os segundos. Toquei o interfone no décimo oitavo minuto daquela hora. Subi pelas escadas de um BNH humilde e honesto. O apartamento era modesto e o autor era uma pessoa extremamente simples tanto em aspecto físico como na sua moradia.

Abriu espaço na sala por entre caixas; explicou que tinha umas coisas da outra mudança, etc. Eu realmente não me importei com isso.

Ao sentar no sofá, ele me pergunta:
— Sou um autor famoso agora?

Era difícil de responder. Eu pensei em todo mundo que morreu às mínguas, com um texto bem redigido dentro da sua gaveta empoeirada, e jamais teve o luxo desse tipo de questionamento…

Acomodei-me melhor no sofá e soltei a resposta quase como em um suspiro tímido.

— Não.. na real, acho que se trata só de um fenômeno viral, coisa passageira…

Fiz silêncio. 

Ele olhou para o lado. Algo o distraía. Não sei se era a resposta e sua degustação.

Acrescentei logo em seguida:

— Mas isso é bom hoje em dia. De um jeito que nem eu sei explicar...

Fui sincero. Ele não se abalou com a resposta. Assentiu com a cabeça. Voltou o olhar da estante para mim e emendou:

— Então… aquilo que perguntam direto: foi verdade, me roubaram a porra do mp3, lá no centro, Terminal... drama de trabalhador, de fudido, de gente que não está aí nas briguinhas diárias intelectuais, acadêmicas… lógico, faz um tempão… mas aquele ali sou eu, foi desse jeito mesmo a parada… eu ganho a vida entre um trampo e outro, só gosto de escrever e cozinhar… não sou formado em nada, só vou sobrevivendo… hoje, ganho a vida em um balcão de turismo… se existe a arte, ela deve retratar e imitar a realidade… me falaram que até tem um nome para isso… como é mesmo?
Fez uma pausa para lembrar. Seu rosto era uma estátua confusa por alguns segundos.

— Mimesis!! Isso!

Ficou muito feliz por lembrar do termo. Fez um silêncio longo. Levantou. Disse que pegaria um café. Serviu dois copos e ligou a televisão, falando que era semifinal do campeonato.

E tudo que o autor tinha a dizer foi isso. 

A entrevista, eu saberia depois, acabaria ali com a chegada do café. O São Paulo perdeu do Palmeiras. Depois do jogo me ofereceu mais um café, muito bom por sinal, conversou um pouco sobre como eu ia sair dali do bairro dele; me deu várias instruções de como evitar caminhos sinuosos, etc. Uma atenção estranhamente amigável e acolhedora. 

Não me lembro do seu sorriso ou sequer da sua aparência naquela noite: era alguém de difícil descrição. Só me lembro dele acenando da janela do apartamento quando entrei no carro.

Posso dizer que ao final da entrevista, com aquele aceno de cima do apartamento, o considerei como um possível amigo. Ele me disse adeus, demonstrou uma preocupação…

É humilhante, mas fazia tempo que não me afeiçoava com seres humanos e jamais me preocupava com a questão. Até aquele momento que voltei para casa da entrevista...

Cheguei bem em casa.

De alguma forma, a obra dele fazia mais sentido agora.


No dia seguinte, escrevi uma nota sobre o curioso autor do texto do mp3. Todos se emocionaram com o relato da minha visita, solicitando de imediato que o sobrinho do editor se tornasse um escritor ativo da revista e do site. Um privilégio para um estreante. Se tinha mérito ou não, poucos tinham alcançado aquele patamar na publicação.

Na verdade, eu ainda relutava em aceitar aquele cara simples como um bom escritor. Talvez algum resquício de inveja? Jamais saberei.

Mas eu o admirava como pessoa. Mas não saberia dizer o porquê…

Ele soube da notícia da promoção rapidamente. Mandou-me uma mensagem dizendo:

“valeu pela nota mano/sou famosão agora? kkkk :)”

Eu respondi:

“sem dúvida”

Depois acrescentou outra mensagem:

“então mano, meu tio e eu somos muito afastados. uma relação nadavê”

Ele não disse mais nada depois.

 

No dia seguinte, submeteu à revisão outro texto sobre a nossa conversa que, basicamente, dizia que era mentira o ocorrido do mp3; que o povo não entendia a ficção, e que se esse fosse o interesse dos leitores, não deviam ler mais nada dele ou qualquer outro autor.
Eu li aquilo bem incrédulo. No fundo, torcia para ver mais textos com aquele estilo. Algo estranho percorria em mim sobre aquele cara; de admiração, passei a sentir raiva.
De novo, não sei bem se era raiva ou simples inveja por ele ter alcançado o que tantos escritores queriam… não sei mesmo; acho que me decepcionava comigo mesmo por não ter mais oportunidade de ter um motivo para falar com ele sobre textos e mais cafés. E por ele ter meio que me afrontado pela nota, fato que ele negou veementemente.
nadavê, mano”

Tudo bem. A resposta foi publicada e os autores o leram com certa desconfiança.

Mesmo assim, pediu para seguir com o plano do editorial mensal. Escreveu mais um texto na mesma tarde e o enviou.

Sem rodeios: o segundo texto do autor foi um fracasso retumbante. Era quase uma tentativa de fugir do clichê anterior, mas que recaía nas mesmas armadilhas estilísticas do primeiro. Era confuso, misturava falas de personagens, sem coerência ou coesão… era uma história sobre um admirador de jazz que queria ir para o espaço em uma nave de papelão...

Detonaram geral. Pediram a cabeça dele. O editor concordou. Tudo tranquilo e natural para nós…

De fato, não era nada brilhante. Mal parecia a sua escrita. Nada tinha daquela essência magnética que me conquistara, que me fizera considerar uma amizade em anos.

Uma auto-sabotagem?


O cara simples, que tomava café e esquecia assuntos rapidamente, mal se abalou com as opiniões negativas. Enviou algumas mensagens me agradecendo pelo ocorrido; dizia que iria aposentar o celular.

Eu emendei:

“saudades do mp3? :)”

Ele prontamente respondeu:

“pode ser kkkk. valeu, vc é gente fina; qualquer dia a gente se fala”

Nunca mais nos falamos ou nos vimos. Jamais tive a vontade de ter amigos ou de escrever algo com aquela paixão que ele despertara.

Eu segui com a minha vida e outros textos. Dos outros, claro…


Depois do ocorrido, fiquei sabendo que o jovem escritor viajou para diversos países. Tornou-se pai em alguma aventura nos trópicos, visitava o filho e a mãe em uma regularidade exemplar, e descobriu a paixão por gastronomia e - dizem - que se tornou uma pessoa ilustre e respeitável em algum país exótico por aí. Não com a literatura. Não, não mesmo. A sua habilidade gastronômica garantira um certo prestígio. Esta era a sua narrativa. Passou-se um tempo. 8 anos.

Ele havia desistido da literatura.

(isso me tranquilizava?)

Pode ser...


O “hoje”.

Essa é a história de alguém que conheci na minha profissão. Penso que foi o escritor mais autêntico que conheci na minha longa vida no editorial.

Pouco se sabe sobre essa profissão, ou da dos outros. Sei que, na minha, todos se esforçam para aparentarem as pessoas mais experientes diante dos outros. Em reuniões, nos encontros bobos de cerveja, nas mensagens, no banheiro....

E se todos buscam — e ensinam algum tipo de experiência —, colocarei a minha teoria sobre o ocorrido com o jovem e aquele seu texto aqui nessas páginas secretas.

O povo quer a verdade, gente. Ler esse tipo de coisa.

Deem a verdade aos que a procuram. Não é sobre ficção ou não ficção, gente. Na dose certa, deem a verdade sem um exagero evidente. 

A mentira, essa derradeira, eu não quero na hora que me roubarem o mp3, celular, dinheiro; pois nóia não brinca em serviço quando encara a gente no meio da porra da cidade e no aperto gangrenoso da madrugada…

Só a verdade interessa aos que se importam com o caralho da manutenção da vida. Gritem a verdade! Mimesis!!
O resto é um café de noite assistindo um jogo qualquer… aquelas pequenas trivialidades que nos mantém sãos e salvos das garras do acaso. Um grito no meio da noite. Todos sobrevivendo e pagando os boletos. 

(e esses parágrafos e estilo acima? Maldito escritor dos trópicos…)


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

o cronista

No dia X do mês Y, o cara andou pelas ruas com a máscara costurada, sempre ouvindo as conversas da cidade. Já que há muito tempo não corria pelas estradas — ou andava pelo Centrão — decidiu a volta para casa na pernada.

Para quem gosta de escrever (e não quer se tornar um escritor), aquilo era um grande prazer.

Uma conversa informal no celular vociferada no trem às pressas. Uma imagem aleatória no celular de um transeunte era observada pelo canto do olho. Os casais conversavam alguma coisa sobre os vizinhos nos bancos. Um molecote com tesão mostrava uma putaria no celular para o colega. 

De lado, alheio a tudo isso, estava o cara; aquele que não queria se tornar um escritor, mas que, sem dúvida, buscava um pouco de conforto na voz do outro para escrever.

Em meio à cacofonia do bairro, às pernadas de tênis furado voltando do trabalho, a coisa voltava a fluir na sua cabeça. “A coisa” era a escrita. Histórias sobre adultérios, crimes, filosofia de privada e, claro, o misterioso andar sobre as estrelas que sonhava em terminar; aquilo ali era um conto que o desafiava há anos…

“Devia começar uma guerra (gargalhada)... daí todo mundo acordava”

A voz era de um maluco que andava de carroça juntando papelão na rua. Soltava essa pérola para ele ouvir já que, literalmente, não havia mais ninguém na rua. 

Era coroado por desabafos de pessoas solitárias a vida toda. Desde pessoas mitômanas, depressivas, cleptomaníacas, viciados em cola, mendigos sem direito a rehab; a porra toda o  perseguia.

Era um protesto solitário? Era um cara invisível que viraria um post na internet com uma fonte bacana? O que era o protesto do cara que vivia na rua e sobrevivia de coletar papelão?

Nem ele arriscaria dizer naquela hora. Tantas vezes tentou dar voz, dar uma pincelada e humanizá-los… agora, naquela hora, a escrita só deixava essas figuras falarem. Pensou que era mais oportuno, simplesmente deixar a voz entrar no texto no discurso direto…

Ouvir esses caras já era o bastante na literatura. Humanizá-los?! Era uma interpretação para o leitor. “Deixa tudo para o leitor”, tá ligado? Quem pega o leitor na mão e dá um colinho tem mais é que se fuder.

Outro dia, um maluco o deteve na entrada do trem. O cara voltava do trabalho, cansado, andando com outros como ele. Uma fila enorme no boteco. Todos comiam um salgado de 1,50; alinhado a todos, comendo uma coxinha no balcão, saiu bebendo um café que não dava para ser tomado ali naquele recinto de distintos cavalheiros. Estava atrasado. Enquanto contava as moedas para carregar o bilhete, um pedinte gritou no fundo. “Pedinte”, um mendigo…

Moço! Ae, paga uma passagem pra mim?”

Seria babaquice exigir que pedissem “por favor”. “Na rua, mano, o cara já cansou de pedir isso.” Era o que ele pensava.
Recusou polidamente.
O rosto do maluco não correspondeu; tampouco a voz, que não saiu. Era uma expressão eternizada em um mármore taciturno.

Simplesmente não tinha dinheiro. O foda dessa modernidade é um tempo maluco em que cê tem dinheiro na conta, mas não na porra da carteira…
Foi lá e carregou o bilhete com as moedas; tudo dava certinho para a passagem.
O maluco viu tudo isso, acompanhou a cena com dedicação. E o cara o olhou com legítimo ódio durante todo o processo. Se todos o haviam humilhado até agora, aquele cara tomando café à sua frente era a soma de tudo. Algum babaca pedante com diploma diria que, para o mendigo, ele era “a epítome de todas as suas humilhações”. 

Subiu as escadas, olhando o rosto do pedinte timidamente. Tinha que pegar o trem na outra pista. Quando olhou para baixo, o homem o olhava de um ângulo entre as escadas. Subiu mais um lance de escadas e a mesma coisa: o maluco ali, olhando de baixo, estava jurando-o de morte. Que foda…

Se ódio matasse, estaria durinho com formigas nos olhos agora.

Sem surpresas, olhou do outro lado da pista oposta do trem e constatou: o maluco o olhava, do lado de fora das catracas, fulminando a sua existência com todo o ódio acumulado da rua.

Tomava o seu café, voltava de um emprego para outro. Um copo plástico manchado de café. Daria aula do outro lado da cidade. Amanhã começaria tudo de novo.
Abriu a porta: cheio de gente, todo mundo apertado. Atrasado. No trem, não tem para onde correr. Tá todo mundo fudido, sem exceção, de máscara costurada, não tem essa de home office… A gente encara isso bem rápido e joga uns dados mentalmente.

Naquele momento, pensava nas pessoas dos seus contos... esses mendigos doidos, as mulheres que gritavam no centro com problemas mentais, os trombadinhas, os assaltantes, os moradores da ponte…

Todos o olhavam do outro lado da pista do trem. Todos estavam ali.

Todos o juravam de morte por alguma coisa.

Todos não queriam porra nenhuma dessa sociedade, da humanidade com viés intelectual.

Todos eles, sem exceção, só queriam mirar o olho com raiva e tirar a paz do cara. Esse aí que observava tudo por trás dessa fina cortina de teatro. E escrevia essas porras.

E quando as cortinas caíssem, quando todos voltassem para as ruas, estariam ali pensando em formas de vingança contra todos que o colocaram ali. Mas o favorito seria o cara que escreve. Ele estaria no topo da lista.

Para sempre, em todos os sonhos, todas as noites, o devaneio o colocaria como uma vítima de cada uma dessas pessoas que transformou em história. Mortes horríveis eram encenadas nos sonhos; o medo espreitaria cada minuto daquela existência por entre as ruas em busca de material para escrita. 

Era uma troca, entende? Enquanto ele escrevesse sobre isso, haveria essa equivalência mágica.

Tremendo sobre o trem e tomando a última gota do café frio, o cara que não queria se tornar um escritor aceitou o seu destino. 

O trem parava para mais uma baldeação. Longe, muito longe…  há milhares de quilômetros do seu destino, jogou o copo de café numa lixeira e continuou a andar. 

E ouvia as pessoas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

são paulo soterrada sob os ossos dos meus amores

desdém, derrota e vitória. o caminho dos justos construído sob o atalho dos caídos.

essa cidade… 

o aterro, a varanda, e os olhares para os prédios. o mato da raposo no velho oeste

tudo (tudo isso) entre os ossos dos meus amores

urubus rodeando a estrada

cabeças de vaca incineradas pela molecada rebelde

cachorros abandonados, gente sem lar

nossos irmãos e irmãs, todos jogados pela Raposo

andando pela beira da estrada para não gastar condução.

(poucos sabem como é a vida aqui além dos rios poluídos…)


tudo isso somado aos meus êxitos e derrotas

soterrado sob a poeira intoxicante dos ossos dos meus amores 

ali jaz o homem, o culpado

conformado com o próprio destino, com a própria doença

alguns morreriam pelo enxofre cálcico da minha nostalgia

pela tinta da minha caneta vagabunda

pelos bytes desperdiçados nessas palavras.


(alô?)

se existe alguém aí, venha sentir o cheiro dos ossos

venha comigo

enquanto existir a palavra, haverá vida por aqui.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

#somostodosninguem


O ano finda. O salário chega. A aula começa. O metrô atrasa.

E estamos atrasados, claro…

(chegou uma mensagem agora, caiu a 2ª parcela do décimo terceiro)

Durante todo esse tempo eu gastei a cota do bilhete de forma assídua. Gostaria de dizer que estava lutando pela sobrevivência, que a minha desculpa para me afastar de tudo era o trabalho interminável “ó, como sofremos”. Seria perfeito, irretocável. 

Todos se compadecem com mais um espécime triste rolando uma rocha até o alto da montanha. Eternamente.
Queria dizer que era sobrevivência, mas seria um troço fácil, redundante; afinal, todos aqui no vagão fazem o mesmo. Veja só, leitor@s:
"O cara que pede restos de bolacha.
A menina chinesa que atravessa a cidade para assistir aula no cursinho.
O homem que sempre conta a mesma história, que tem problemas no cabelo, e perdeu o emprego (e tudo) pela má aparência na entrevista. Que precisa de 42 reais para inteirar a passagem de volta.
(tira o boné, todos ficam chocados; eu sempre contribuo, não me importo)
E por fim aquele mano ali. Ele é meu amigo, também é professor..."
Eu o encontrei um dia no vagão, ele não meu viu:
Olha aí, patrão! É o tripé para segurar o seu celular! Era dez, agora é cinco!
O vagão. Lembra do vagão? É o mesmo. O professor, aquele velho colega, não me viu. Desejei sorte.
(secretamente)
Um belo dia todos estavam ali, cantando algum número musical da época do Oscarito, indo à boca do lobo por mais um dia; quando, sem mais nem menos, o vagão parou. Minutos. Horas. Quase um dia.
Ninguém conseguia mais usar o celular, não tinha sinal.
Antes de tudo isso, as pessoas bradavam discursos de união antes da parada. Que eram por todos, que ninguém largaria a mão de ninguém…
Hoje, somos todos ninguém.
Não há profecias, apenas a desesperança. Todos trancados, esperando morrer um dia dentro de um vagão. Comer o outro, canibalizar o próximo, animalizar o outro, não compactuar com solidariedade. Ódio, luxúria e dados móveis.
Quem sair do vagão por último é o vencedor.
Claro que não fui eu. Seria diferente?
Eu morri ali. Naquele dia. A caminho. Mas também comi, dilacerei carne de inocente; bradei aos demônios que sairia dali com a cabeça erguida. Não consegui.
Acontece.
Ninguém é por ninguém?
Será? Será mesmo!?
O fedor que exala de morte nesse subterrâneo jamais chegará a superfície. O vencedor, aquele que comeu a carne de todos, também padeceu ali. Éramos ninguém.
Agora somos um só. Na morte, na lida diária, dilacerados e pútridos em um vagão.
Éramos trabalhadores, estudantes, ambulantes, docentes, aposentados, desempregados... Éramos ninguém.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

eu pertenço à geração em branco


Contos de fada, contos e fados, trair as palavras, atrair os outros para armadilhas e ilusões exclusivas/métodos nada convencionais de confissões, seja um, seja mais, seja o que os outros querem ver/esperam de você, escreve e se expressa como se a escrita fosse o seu jeito de se isentar, volta e meia tudo fica esclarecido e as palavras não são o seu grito; sua "forma de expressão" (tsc, tsc): é um esperneio reprimido de criança incompreendida que nunca apanhou na rua, nunca teve a coragem de dizer que ama alguém ou se sacrificou de fato para o iminente desastre. Palavras, palavras são isso, não ‘aquilo’; porra, elas são o grito (!), a chama, não um lamento insignificante de quem não se arrisca por nada.

Palavras são______