" (...)A vida viajava
mas não viajava eu,
que toda viagem
é feita só de partida."
Paulo Leminski, V de Viagem
Um prato cai. Reclamações com garçons, conversas banais e tacanhas em uma sinfonia de garfos e facas batendo fundo em pratos.
Um gosto surreal. A carne, o arroz, o feijão escorrendo; tinha tempo que algo não me prendia assim… aquele sangue que saía da carne entre meus dentes era o meu prêmio de fuga depois do óbvio. E o que era “o óbvio”? Depois de um ato de covardia, alguém decidiu por mim isso aos gritos:
— Sai dessa vida! Não me leva para essa disfunção, essa confusão tua, porra!
Aquela conversa… Eu pensava nisso durante o jantar para um único vencedor depois de um longo período de fome.
Ah, eu me lembro bem dessas palavras; afinal, era tão óbvio não é mesmo?! Tanta coisa acumulada: vai lá, taca tudo logo dentro dos compartimentos de uma mala abarrotada, fecha com força, e já está feito, não é mesmo?!
Quem me disse isso, não era bem um amigo. No entanto, o conselho horrível, apesar da minha teimosia, agora era perfeito: ir para longe.
A carne, a farofa, o gosto do azeite… um boteco ordinário de fim de mundo, que servia pratos enormes e feijão por cima como uma argamassa escorrendo por tudo até a porcelana dos pratos com detalhes azuis. Quando passei o guardanapo pela boca, eu quase chorei. Eu queria abraçar o cozinheiro por aquele PF meia-boca gorduroso, sebento e tosco ter colocado tanta vida dentro de mim.
Pedi para um garçom visivelmente abatido que tirasse uma foto minha segurando o prato vazio. Eu o abracei, estava, de fato, muito feliz. A primeira foto da jornada.
Eu me levantei, coloquei a mochila nas costas e abri a porta. Estava “ali” , renovado, completamente inofensivo. Som de grilo entre as matas, uma estrada viva à frente, uma procissão de caminhões e carros se deslocavam com fúria além da escuridão.
Eu não tinha muita coisa agora além da vontade de permanecer livre e longe de casa.
Mas a pergunta é: “o que aconteceu?”.
Aquela fala. Ele me disse para eu “sair dessa vida”. A minha vida era totalmente dedicada a ele, e eu (acho) que o transbordei com meus problemas. Na primeira conversa, eu estava muito nervoso. Ele entrou e me ofereceu água, dizendo que eu poderia me deitar naquele pequeno sofá quando quisesse falar coisas difíceis. Eu não sabia o que dizer, mas aquilo me deixou curioso. A minha vida tinha culminado naquele ponto de mudança, e aquela cadeira me daria isso. E eu dormiria ali sempre quando “esvaziasse” Aproveitaria o convite.
Ele ouviu muitas coisas difíceis naquele ambiente… mas ele era pago para isso, não? Por vezes, eu o via horrorizado com minhas falas: mas disfarçava bem, sempre pouco expressivo, dizendo predicados razoavelmente certeiros. Nas paredes, havia fotos de pessoas felizes, distantes, carrancas com dentes entre bebês e toucas coloridas. Uma caverna ao fundo, sorrisos... Comidas em diversos lugares. Ele, com dentes perfeitos e alinhados. Sorrindo?!
Tornou-se um ritual: falar e deitar no sofá. As fotos me incomodavam. Ele era aquela pessoa?
Depois de muito tempo, eu confessei isso a ele. Que a minha vida precisava dessa máscara, pois ele não era aquela pessoa das fotos; como fazia isso? Foi quando ele disse que eu estava errado sobre ele e as fotos de viagens, e o quanto elas proporcionam uma ressignificação.
Eu disse que todas aquelas fotos me incomodavam. E ele falou furiosamente sobre meus problemas, com um linguajar de alguém que tinha intimidade (até demais). E soltou aquelas palavras como se eu quisesse algo dele, como se eu quisesse estar naquelas fotos.
Eu entendi tudo. A fúria aconteceu. Foi tudo muito rápido e nada premeditado quanto disseram na época: apenas coisas quebradas em um período muito curto de tempo.
Rasguei todas as fotos. Levei uma em particular em que ele e a família almoçavam. A porcelana era azul e tinha o nome do lugar. Rasguei a família.
Tudo tem um gosto novo agora, essa é a argamassa da minha vida. A ressignificação. A jornada. E eu me sinto distante, em paz.
Finalmente, saí dessa vida.

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