quinta-feira, 16 de junho de 2011

síndrome de barton fink

Acho que não consigo escrever mais nada, filha. É...
(Cena clássica do homem prostrado; isolado na beira da cama, destituído de todo o seu orgulho)
Caralho! Eu estou morrendo, sei disso, estou morrendo. Pecinhas de aeromodelismo não são mais coladas com tanta simetria, crimes sem solução me assolam e textos não saem da cabeça ou tampouco são escritos; é tipo uma manifestação da inspiração que permanece só na cabeça e não em sagradas poluções noturnas como o esperado. Não vira matéria, manja? Falta sono, falta umidade. Palavras, palavras não saem. É um indício, um dos sete selos, é a broxada da alma que me aflige - e me atinge - com uma puta impiedade irônica dos deuses embriagados, eu bem sei...
Outro dia peguei uma caneta e um papel, escrevi coisas que começavam e não terminavam. Normal, não?! Um amigo me disse “cê é assim, cara”, de um jeito debochado e redutor. Eu agradeci, meneei com a cabeça de um jeito particular, mas mandei tomar no cu logo na sequência, tipo nota mental. Persisti: “vamos lá, que tal um texto porreta sobre esses hipócritas-fodões-inatingíveis, hein? talvez seja isso o que preciso!”, talvez. E não escrevi: comecei no papel, tentei no Word, no guardanapo dos bares que aceitam vale-coxinha e, mesmo assim, não foi. Broxada, tô falando...
(Cadê aquela ajudinha solidária da humanidade?! Preciso daquela mãozinha companheira para me animar, sabe?! A “ajudinha”, filha; preciso disso agora. Estou constrangido, espero compreensão...)
Cadernos, cadernos, milhares de coisas e cá estou sem ter nada.
-Mas o que que é esse monte de coisas?
-O quê?
-Isso aqui. – ela apontava para as páginas garranchadas num caderno do South Park.
Isso aqui. Bem, “isso aqui” é um monte de palavras jogadas a esmo num oceano artificial.
-Mas aí... são palavras, né?
É...
Fiquei quieto e continuei escrevendo. Foi glorioso. 
A noite estava salva.

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