quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

a máscara dos algozes

-Você está abdicando da minha proteção, Pierre?
Houve hesitação.
-Responda, por favor, Pierre … eu concedo o seu direito de resposta, dou a minha permissão para se expressar melhor, livremente, e esclarecer o que acaba de iniciar... Seja claro e cristalino como a água, filho.
Hesitação? Não, não houve, não … o homem – dessa vez – disse decidido:
-Gostaria que Vossa Eminência não interpretasse dessa forma, mas creio que significaria o mesmo, não?
Silêncio. Dois segundos. Continuou:
– Sim, devo dizer que estou saindo desse feudo para me dedicar a outras aspirações. Em suma, sim, estou abdicando da proteção e dos serviços que prestei à Coroa e aos campos.
Incompreensão sincera da parte do nobre.
Ao ouvir a declaração breve, sucinta e determinada de Pierre, o Cardeal não pôde evitar a realização involuntária de um antigo ritual: espontaneamente, começou a passar o anel da sua mão direita nos lábios; o acessório reluzente era parte de sua herança: o próprio Papa dera à sua tataravó como retribuição aos serviços de Deus. Lábios secos tocavam o metal dourado. Era uma espécie de “tique”, um espasmo involuntário que denunciava sua natureza, quando o silêncio da sua indecisão não se proferia em palavras. O anel gélido tocava os seus lábios. Por fim, saciando suas inclinações e, decididamente, incomodado, decidiu falar em um tom mais inquisidor:
-Pierre, diga-me, criatura: o que fará nesse mundo assolado por pestes e outras guerras entre a Coroa? E quanto a outros perigos? Como os infiéis?! Eu protejo a sua família, eu os resguardo, eu os protejo da guerra, e dos infortúnios da vida! Não tens plantação? Alimentação, trabalho e outros confortos negados a qualquer mortal fora desse domínio ?!
Mais uma pergunta. Mais uma.
Não, o Cardeal se deu por satisfeito na sua retórica. O anel brilhava, uma pequena fresta de luz invadia a sala.
Pierre o olhou profundamente, sem desviar os olhos:
-Tenho isso, tenho tudo isso... contudo, o fruto do meu trabalho serve somente para enriquecer o senhor e à Coroa, e não à minha família! Vossa Eminência não consegue escutar os lamentos da boca faminta da minha pequena Marie, que chora ao relento, doente de fome pelas madrugadas.! Vossa Eminência, sou um escravo, seu escravo, um homem que serve somente para ajudá-lo a ascender e enriquecer junto à Coroa: sou escravo do Cardeal Artaud. Na minha casa, estamos presos a esse domínio e não vemos o horizonte por trás desses muros. Meu pai morreu da mesma forma, pobre, trancafiado entre os muros e a guerra! Não desejo mais isso para meus filhos ou a mim mesmo! Eu já servi à Coroa! Já paguei os meus tributos! Servi aos propósitos e fui abençoado na própria Terra Santa pela glória da conquista e de Deus! Por favor, reconheça os meus serviços, Cardeal! Reconheça os meus feitos e conceda a benção da liberdade à minha família! Eu reconheço a vossa misericórdia!!
Pierre gritou ao final. Do lado de fora do castelo, os criados se entreolhavam e os guardas estavam atentos nos corredores.
O nobre sorriu, em um misto de escárnio e surpresa pela coragem do homem. Ou melhor, o escravo.
Silêncio.
-Pierre, eu admiro a sua coragem; talvez o seu futuro fosse mesmo nas Armas, e, quiçá, sua vida estivesse melhor nas campanhas que fizemos na Terra Sagrada em vez dos campos... retificarei aqui esse erro diante do semblante límpido de Deus; reconhecendo que, sem dúvida, o campo possui essa maldição... torna os homens cada vez mais preguiçosos e ociosos. O campo infecta a sua classe, vocês estão infectados! São tomados por pensamentos impuros quando estão longe da guerra ou dos propósitos da Coroa, ou melhor… quando estão distantes de Deus! O campo deveria ser somente um lugar para crianças e mulheres, e, como disse, esse foi o meu erro: colocá-lo de volta à banalidade de uma vida mundana! Você é um homem da guerra! Eu o deixei voltar com a sua família! Nenhum homem aqui nessas terras teve essa benção!! Precisamos de homens corajosos o suficiente para pegar em armas contras os infiéis, porém, não tolos o suficiente para desafiar com insolência seus mestres numa hora crucial!! Ingrato!
O eco pelas muralhas. O Cardeal prosseguiu:
– Mas … como eu disse antes, Pierre... hei de retificar esse erro agora! Guardas!!
Um comboio que fazia turno no gabinete externo do Cardeal adentrou a sala como um relâmpago. Cavaleiros empunhavam lanças enormes e afiadas como os dentes pontiagudos de Cerberus.
-Levem esse homem à masmorra. Amanhã de manhã ele será decapitado como exemplo a todos! Eu sou um homem justo! Justo! E não vou tolerar esse tipo de levante ou qualquer motim nas terras do Senhor! Leve a família dele às prisões  para morrer com os plebeus e os infiéis exilados nas trevas!
Pierre permaneceu no mesmo lugar, tranquilo. Ele sorria amargamente. Os homens, irmãos de armas, perplexos, não entendiam porque o bom Pierre deveria ser executado. Suas mãos eram atadas e colocadas contra a cabeça com violência.
-Homens, eu sou acusado de trair meu Senhor. Sou culpado deste crime, reconheço, mas esse homem enriquece às nossas custas com o nosso trabalho, submete nossas mulheres a trabalhos braçais intermináveis e a favores sexuais às escuras; todos sabem disso! Força nossas filhas a uma infância trancada, escravas dos campos e dos nobres que as violam à noite; nós, homens comuns, vivemos sem amigos, sem esperança, sem cultura! Somos subservientes e aceitamos essas condições! Sabem disso, não ?! Onde está esse Senhor e sua bondade?! Onde está a Terra Santa banhada com o sangue e crânios rachados de milhares de homens que eu matei com a minha espada? Homens de Deus também, eles eram pais! Pais, com mulheres à espera como vós!
Os homens o empurravam, perplexos com aquelas palavras. Em silêncio. Lanças cruzavam o seu pescoço à maneira da tradição militar da academia de Versailles.
-Sabem disso, não?
Gritou. Não houve resposta dos guardas.
-Malditos! Vocês sabem disso! Sabem melhor do que qualquer um!!

Na execução, Pierre gritou o mesmo protesto enquanto sua cabeça era colocada na guilhotina.
-Sabem que somos escravos, não? Não sabes, irmão Gerard? Por trás dessa máscara negra, sabes disso!!
Gerard era o seu melhor amigo. Em horas infelizes era o carrasco, pois era solteiro e testemunhara quimeras horríveis como pesadelos nas empreitadas nas terras infiéis. Era o seu amigo, companheiro de bebida e de lembranças de guerra. Trajava uma máscara horrenda de pano negro e seus olhos fitavam as lâminas afiadas e os olhos do amigo.
Puxou a corda.
Recolheu a cabeça do amigo que sangrava pouco. Sempre se impressionava com isso, com o fato de que o corte bem rente no pescoço provocava pouco sangramento nas ligações.
Enquanto estava prostrado e aguardando a lâmina, Pierre pensou na sua bela mulher viúva e na pequena Marie. Um sorriso lhe veio à face antes do derradeiro fim. O último grito que Pierre dera era o mesmo. Sobre todos serem injustiçados.
No fundo, alguns sabiam que isso era a mais cristalina verdade. Outros discordavam, beijando o anel papal do Cardeal. Alguns sabiam, outros não. O senhor do castelo prevalecia, levando o seu povo a crer que era o eleito para protegê-los, ainda que contra a vontade deles, os homens e mulheres se ajoelhavam a seus pés;  e quem era Pierre para contestar que a sua representatividade era inefetiva? Quem era aquele homem?
“Pierre era só um homem”, refletiu o Cardeal olhando a cabeça cortada de Pierre. Um só homem no meio de tantos, que beijam o anel do senhor do castelo. Ele não era nada, ele não contava. Ele era, afinal, só isso: um homem!
“Mas, talvez, secretamente, ele poderia se tornar o herói daquela gente suja e maltrapilha...”
Por um minuto, no âmago da sua indiferença,  o senhor do castelo ponderou que talvez a sua ajuda fosse prejudicial, que, quiçá, naquela praça teria auxiliado um mártir a forjar a sua própria derrocada...
..mas não.
Beijou o anel da sua mão. Ele precisava. Reconforto. Paz novamente. Era o mês de maio e todas as suas vontades seriam atendidas, pois o povo estava do seu lado.
Novamente, o silêncio tomou a praça com o final da execução e a vida seguia normalmente.

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