quinta-feira, 25 de julho de 2013

adágio, neon

Eu apoio meu queixo sobre os ombros dela. Sinto, desconfio, que todas as respirações – e contrações futuras – serão mais excruciantes. Demoradas. Nos olhamos e, pela última vez, temos a secreta e inexaurível angústia/certeza que o destino nos separará de forma cruel. Implacável.
Foi assim, desta forma vim parar nesta cidade. Como um pedinte, um mendigo que busca de bairro em bairro, cidade-cidade, um canto distante do inferno; onde – ao menos – pode-se fechar os olhos sem se preocupar em ser espancado ou cuspido.
A distância, lá atrás, era um problema. Hoje, é uma benção.
O último níquel foi gasto na pinga mais vagabunda da história. Nunca fui muito chegado a esse veneno, mas a trajetória  à frente faz você ser mais humilde e esperar menos das coisas; dito isso (e engolido o álcool), tomei rumo às ruínas de um lugar engolido pelo tempo e pelo desastre das políticas públicas inefetivas. Ali, naquele lugar, o vento era carregado de ferrugem das caixas de azeite de um porto que já foi próspero; onde homens tinham empregos e orgulho das coisas tolas e as crianças viviam correndo entre as gaivotas que planavam brincando com o vento. Vejo que ali, mais ao centro da orla central, há uma praça e a última inscrição em spray neon de um profeta que deixou ali uma lembrança:
“Adágio, lento e inebriante ao movimento das cordas”
Hoje – após o colapso – aquela cidade devorou-se a si própria. Entre dejetos, animais, salários-mínimos e bonecas quebradas; expeliu qualquer traço do homem e nada mais esperava da carne. Consumia a poeira, (e dela) vivia uma nova síntese da vida: ali se criara, corroendo o casco de navios, casas e latões; como que num câncer ferroso que engole a tudo e todos numa fome insaciável. Essa era a vingança da cidade contra os homens. Sua sina era consumir. Devolver.
Essa era a cidade que chamei de “lar” após a longa despedida. Entre o cheiro de perfume e abraço com gosto de café.
O tempo – inominável – plantou algo em mim. E dentre todas as casas abandonadas, nenhuma me aprazia. Depois de deitar em todas as casas imundas, decidi que não teria uma morada fixa. Em muitas casas eu reinaria, em muitas casas, eu, o homem, deixaria o seu traço torto; contaminando e envenenando – novamente – o excesso ferroso da miséria que assolou aquele canto esquecido por deus. A angústia ainda mora em mim. O adeus reencenado.
A poeira engoliu.
Eu seria o vírus. A metástase.
No entanto, aquele recanto dos prostrados me acolheu de forma inesperada; e como um pai leproso, beijou o filho mirrado e famélico com suas pústulas e tumores à mostra. Acolheu-me e estendeu generosamente o seu dom funesto ao primogênito original. Era como uma brisa ferrosa e asquerosa sussurrasse em meus ouvidos, e me conferisse uma críptica mensagem dizendo que os seus domínios deveriam ser “desbravados”.
Engoliríamos o mundo.
Engolfaríamos as ruas com o cheiro da brisa leve da chuva e todo o ar seria leve. A água salgada começava a me acompanhar, banhando os meus pés para onde eu caminhava. Os pés nus, ordenados pelo instinto, pelo sussurro da cidade. Eu cairia e me jogaria como a uma criança em suas algas, afogando entre o sal; abençoei as águas quando entrou no meio da cidade e encontrou-me no meio da avenida com os seus tumbleweeds de jornais que anunciavam o suicídio de Getúlio, a cachorra espacial Laika ou as notícias garrafais do conflito armado em Saturno. A areia banhava as tiras das minhas sandálias, engolindo toda essa sujeira e degeneração do mundo, outrora, dos homens.
Disse-me:
-Seguiremos. Juntos.
Eu caminhei, e o ar ferroso  e o oceano pútrido eram os meus asseclas. As crianças corriam quando nos avistavam, os animais se debatiam freneticamente e os homens perdiam algo fisiológico ao nosso lento – e inevitável – encontro. O rastro do mar e o meu passo eram incansáveis.
Andamos, e o mundo todo era aquela cidade; de uma província  veio outro mundo de concreto e não aturamos mais o barulho. Depois de tantas visões, sussurros e trevas; a imensidão aquática engolfou o longo caminho e já não havia mais nada. As casas, todas elas, eram o recanto. Meu.
Todas as casas.
Todas as moradas me acolheram. E todas, sem nenhuma exceção, eram a composição do ar e mar que banhava os meus pés.
Eu cheguei ao meio do mundo e continuei. Oceanos. Ilhas. Ruínas.
O mundo era o meu lar. E eu o abençoava. Acolheu-me de tal forma que quis me dar às extensões divinas. Minha dor – a dor do homem que pousou e nunca mais a viu num abraço de morte e despedida – era o bálsamo do sopro de vida para aquelas águas e ela, de uma forma sombria, cedeu o seu poder sem pedir nada.
No entanto, os pés cansaram.
O mundo acabou. Tantos gritos, máquina e concreto abaixo das águas. Nossas águas.
Os pés cansaram quando cheguei novamente à praça. O sangue se unia ao sal. A cidade estaria ali. Intocável.
Lá estava uma figura.
Ela acenou.
Ela chorava.
Lá estava ela.
Eu a abracei e disse:
-Amor, você não sabe o quanto andei para te encontrar.
Ela me beijou nos lábios. Cheiro de café, leve e sutil. Disse, sorrindo:
-Eu sei sim. Agora o mundo é nosso. Jamais nos separaremos.
Duas almas se beijaram no mar lodoso em algum confim do universo.
Todas as moradas eram nossas.
E, do poder da destruição das almas, sempre algo mais indomável se criaria.
Nos beijamos. Os corpos.

E eu apoiei meu queixo sobre o ombro dela.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

quarto vazio

Desceu as escadas. Suas mãos deslizavam pelos corredores sem tinta. O prédio era pequeno. BNH, aluguel razoável. Despreocupado. Mastigava chiclete. Pulava os lances da escada. Três pequenos andares. Logo, chegou ao destino. Mulecada brincando com cachorro. Pega-pega. Grades à sua volta. Gritaria estridente. O lixo ficava num quartinho cheio de moscas. Camisinhas no chão. Vassouras. Brincou que era um astronauta. No lixo do prédio, crateras. O espaço, imundícies. Desbravava. A prima veio atrás, curiosa. Ele era tímido. Ela era esperta e vivaz. Eram jovens. Eram crianças. Eram nada mais que vidas em contínuo e desesperado desenrolar de acontecimentos interessantes, povoados de dias longos e todas as situações insólitas e fascinantes que jamais viveriam novamente; eram duas crianças, filhos de pais que eram irmãos de sangue, que se odiavam secretamente e que praticavam o estranho  - e sagrado -  direito de crescer, trabalhar, odiar e ensinar a ingratidão e indiferença a seus filhos. Crianças. Eram filhos de pais separados, que eram irmãos, que não eram muito próximos e não deram as mãos no leito morte da mãe ou do pai; o pai de um deles era um bêbado, o outro era apático e frio. Eram pais que não tinham laços. O astronauta. A menina esperta. O lixo. O quarto.

Somente um fragmento perdido no tempo.
A prima nunca conseguiu brincar com o primo.
O astronauta preferia voos introspectivos e era pouco versado na arte da companhia.
A espertinha, com sardinhas e um gorro vermelho, era brilhante. E – estranhamente – era apaixonada pelo primo. Ambos com oito anos.
Só viram o beijo pelos atores da TV.
Só viram as pessoas pelas grades.
Assistiram, impassíveis, diversas reuniões de família sem perceberem o quanto eram indesejados no mundo.
Um quarto vazio cheio de lixo virava exploração.
Um garoto entediado, para ela,  era um amor retocado pela incompreensão e afeto juvenis.
Eram recortes, vidas que davam um tempo, sacolejavam entre dias estranhos e gritos sufocados nos telefones celulares dos pais; sobre risadas nervosas de bêbados em festas de família e, ocasionalmente, o afeto de estranhos que os amavam mais que tudo na vida. Mas eles jamais saberiam de tudo isso em um quarto do prédio cheio de lixo, sêmen, baratas pequenininhas e todas as revistas Veja recortadas e despejadas no lixo.
O astronauta.
A garota esperta, curiosa.
Naquele ano se separaram: um foi para o interior e outro para um bairro mais pobre.
Um era do interior.
O outro da periferia.
Escola boa, escola pobre.

Dez anos depois se encontraram numa festa de família.
O astronauta, um garoto igualmente entediado que repetira 3 vezes o ensino médio e via os amigos irem para a faculdade; e a garota esperta, trabalhadora, recepcionista em uma escola de natação e estudante de Biblioteconomia à noite.
Não tinham mais nada em comum.
Nem mesmo o quarto.
Ela o achava feio.
Ele achava que a prima era a garota mais linda do mundo.
Eles se separaram sem trocar uma palavra ao outro naquela noite.
Ele aprendeu a sufocar os desejos, os sonhos, e a conviver com a excruciante e sufocadora existência sem brilhantismo ou os amores violentos dos poetas suicidas.
Ela era grande demais para o pequeno. Viveu mais do que podia.
Aos vinte e nove anos, a garota esperta estava em um ônibus voltando das compras para o seu pequeno empreendimento de abrir um sebo quando um tiroteio na rua começou. Bala perdida, alojada no crânio, entrou pela têmpora esquerda, perda de massa encefálica.
Duraria horas. Hospital.
Ele não pôde ir ao enterro.
Fumou um cigarro. Chorou.
Pensou no quarto de lixo e todo o amor que não teve dela ou do mundo.
Virou as costas, pegou sua mochila e entrou em um ônibus para nunca mais voltar a essa cidade cheia de lixo, camisinhas e memórias imundas.
Jamais foi visto. Não importa o seu destino, não importa o que ele se tornou, não nos interessa se foi bem-sucedido na vida, se teve posses ou se teve muitas mulheres...
Ele saiu daquele quarto para sempre. Não era mais criança, não sabia mais como extrair beleza dos lugares feios.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

o horror cósmico extradimensional assola o terceiro mundo

Noite de 22 de setembro de 1992. Dez horas da noite. Campo minado da periferia.
Um despertar confuso. Vozes e sussurros difusos pelas esquinas sem lixeiras. Caos e cacofonia no blecaute paulistano,  aonde só ouvimos os gritos e cânticos que despertam o Alfa em ondas cerebrais minimamente calibradas para o retorno do eterno monstro que descansa nas profundezas.
Eis o nome entoado. Imemorial. Tevês quebradas, monitores com estática, o pulso eletromagnético das trevas reduz às migalhas todo o avanço tecnológico que o homem se vangloriava; meros passos confusos rumo à incompreensão da mortalidade: não há nenhum programa no ar, nem mesmo a trilha sonora  de músicas repetidas da novela ou do jornalista burguês vociferando contra a classe trabalhadora; e eu, um mero proletário, um funcionário de uma loja de departamentos que deixará um Mega Drive como herança, acompanho o fim derradeiro da humanidade pela janela da minha casa alugada, e é lindo: os enormes tentáculos descendo como uma horda de anjos enfurecidos e engolfando os prédios do conglomerado financeiro da Avenida Paulista,  rachando o Masp ao meio.
Não há resistência. Estamos encantados, ébrios com a ideia da destruição do conceito da humanidade e ansiamos pela nova concepção do renascimento cósmico.
Não ofereço resistência e me permito ao delírio. O grito da turba com raiva que esmigalha cérebros, ossos e patas é inimaginável. Estamos a um passo do último suspiro da  última criança nascida no parto do fim do mundo: grávidas que deixaram a sua prole no chão imundo e manchado da noite dos Antigos; riem da insanidade e tampouco se importam com o mínimo impulso moral ou o resquício do que chamávamos de “comportamento”. O recém-nascido e o horror da imagem refletida numa poça de um buraco que jamais foi tapado pela Prefeitura.
Mas já estávamos acostumados a isso. É o que a Luz dos Tentáculos nos transmite, traduz, converte aos que ousam ver:  uma visão tão clara que nos sentimos leves. Uma promessa tão intensa e tão sincera, que é quase como a promessa do Céu que não tivemos em nossas prestações eternas em 120 vezes pela moradia.
O último homem a morrer não se importou com nada. Nem mesmo com a honra de ser o último a cair no chão mal pavimentado do terceiro mundo onde tantos pereceram. Esse homem... sou eu.
Hoje, faço parte de algum lugar com barulhos de vento, poeira e a desolação das estrelas...


terça-feira, 5 de março de 2013

peixonóvski

Ela acendeu um cigarro e foi lá para a calçada, longe da barulheira dos amplis de banda ruim e de gente balbuciando conversas ininteligíveis.
Lá fora, na sarjeta, viu um peixe.
A criatura boiava em uma torrente de água suja despejada por um homem que lavava a calçada da padaria cheia de vômito. O peixe - um bagre desnutrido e com olhos em formatos da letra X - descia junto a essa cachoeira de lodo paulistana-existencial. A moça jogou o cigarro e saiu correndo atrás do desgraçado.
A água do lodo, a cachoeira do bagre, desembocou numa antiga boca de lobo entreaberta com os dizeres de “1933”. Ela, lógico, parou ali, vendo o resto dos dejetos aquáticos terminando o seu curso. Ia desencanar, voltar pro show e falar da proeza aos seus amigos desinteressados, mas ouviu, de longe, um cantarolar:
- Viva eu, viva! Viva!!
É, parecia que o canto triunfante (e inspirador) emanava do esgoto do peixe que nadava em vômito de Sucrilhos.
Ela voltou. Olhou pro bueiro velho; cheio de plásticos detidos pela boca de arame. Acendeu outro cigarro e sentou na beira da boca de lobo esperando novamente a cantoria.
-Viva! Viva!!
Ela soltou uma baforada em formato de anel perfeita.  Particularmente, aquilo a deixava intrigada (mas não do jeito trivial como, por exemplo, uma pessoa comum não atingida por atos extraordinários); não, nêgo, aquela menina já tinha visto muita merda estranha nessas vielas e salas exóticas do Mundão.
Aos sete anos testemunhou uma cadela parir 35 filhotes. Misto de natimortos, e ansiosos pela vida abortada, os filhotes sugaram a vida da mãe no parto bizarro num último impulso sombrio. A cadela virou uma massa de ossos, sangue e olhos duros e secos.
Aos treze, viu uma enorme carruagem se materializando em sua sala. Os homens e mulheres portavam chapéus imponentes e chicotes de um filme do final do séc. XIX, e desfilaram despreocupadamente como num filme mudo acompanhado por um piano. Só para ela.
Aos dezessete foi para a cama com um garoto só por causa de uma aposta: o cara que dizia ter um pinto em formato da letra “O”. O cara provou. Claro, não treparam, seria impossível...
E...
... Bem...
Agora, naquele momento, ela via um peixe descendo numa cachoeira escatológica e cartunesca. Cantava tipo Merrie Melodies.
- Esse peixe tá feliz, ué!? Nada demais!
Levantou-se e tirou a poeira da bunda. Deu outra baforada de ódio para o mundo.
-Tchau, senhor peixe!
-Adeus, linda garota!
Silêncio. Três segundos.
Ela parou. Ninguém, ninguém – ninguém mesmo – a tinha chamado de “linda” nessa vida. E a primeira vez que ouvia isso... Era de um peixe!
(e tratava-se uma história que beirava {quase} à alucinação Futurista).
Ela jogou o cigarro no chão. Olhou em torno de todo aquele cenário: uma rua feia na madrugada, as pessoas saindo da balada – outras de carro, outras indo pro ponto tremendo de frio usando roupas enfadonhas -, um homem dormindo numa casa de papelão, um cachorro se coçando e lambendo as bolas, uma mulher gritando palavrões de cima de um apartamento. E a trilha sonora de tudo isso, ao fundo, sirenes gritavam apressadas ao longe. Uma orelha cortada no canteiro de pedrinhas para guimbas de cigarro poderia levá-la a outros mistérios.
O mundo era estranho o bastante.
Se ela não tivesse amor, teria a estranheza, o indecifrável; e novas correntes a perseguir.
-Adeus mesmo, peixonóvski!
Não se ouvia mais nada. Apenas seus passos subindo uma rua em espiral em tons amorfos de vermelho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

as cartas*

Os espelhos.
Não há imagens a serem refletidas nesse lugar; creio que a necessidade estética deva ser renunciada perante a intrigante - e indômita - realidade da dúvida.
No entanto, creio que as imagens continuam a aparecer em elipses; insistentes, elas aparecem em reflexos de colheres, pratos e vidros do refeitório. Olhos enormes, amarelos, vítreos: escamas e o inferno na língua de cobra. Permanecem as mesmas observações, mas, infelizmente, hei de me contentar com o desenrolar inevitável das cartas.
Cartas.
Recebi uma carta de Giles em um inverno frio, desses que remetem a situações distantes e de amigos de infância que rodopiam e atiram bolinhas de neve. A missiva era datada de Londres, Inglaterra! Giles estava na terra de Sir Arthur Conan Doyle! Imagine só, aquele meu irmão tímido e arredio na infância perambulando em Piccadilly Circus! Baker Street!
Giles disse ter encontrado máquinas incríveis que limpam o chão e tapetes, e uma turba realmente interessada no progresso.
Ele mencionou “turba”: eis a escolha de linguagem do meu querido irmão... Este meu irmão parece estar mais habilidoso na escrita; pois os detalhes da cidade inglesa ressaltam aos olhos como se estivéssemos vendo as calhas do limpador de chaminés de William Blake. Londres: sombria e esplendorosa, abrigando o meu pequeno irmão...
Em pouco tempo, Giles se tornará alguém importante e influente na Europa. Assim espero. Espero. Continuo na esperança de vê-lo aqui...
O tempo passa, e recebi mais uma carta. Ele, meu irmão, descrevia Paris e as luzes ofuscantes da boemia com os seus cabarés burlescos. Detalhes luxuosos, ornamentos, veludo, cigarros, batom; mas creio que ele só observa o mundo como o faz um grande escritor; taciturno como Maiakovski escrevendo uma carta num café. Giles é uma criança – não pode conhecer tantos detalhes mundanos (!); sua imaginação é livre no Velho Mundo.
A próxima missiva estava suja de terra, escrita em um lugar chamado Tsaritsyn; a ao que me parece, a sua habilidade precoce na escrita garantiu um posto a ele; um ofício para tecer e descrever comentários sobre a campanha britânica!
Meu irmão numa guerra!!
Estremeço.
A cada carta uma descrição: aquela visão infante de um mundo inocente em bunkers. A cada carta um sentimento regado a tiros de canhões e baionetas. Tenho medo. As cobras mostram escamas terríveis e belas como pinturas futuristas. Cada vez mais.
As cartas vinham dos mesmos lugares, mesmas imagens e cacofonia. Após um tempo, não as recebi mais. Minha vida entre os espelhos começa.
Pergunto sobre as cartas de Giles todos os dias à enfermeira Shelley, e ela me diz, sorrindo, que “chegarão um dia”; mas eu reluto e não descanso: ela só me diz para tomar todo o comprimido com água para ficar calma.
Daí eu bebo todo o conteúdo e mostro a língua para fora. Shelley meneia com a cabeça. E a partir desse ritual diário, uma serenidade se apossa de mim; e penso que, talvez, as cartas realmente cheguem...

* trabalho de faculdade inspirado no livro "A menina que não sabia ler" de John Harding.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

a última criança da cidade

Vou falar. Vou falar sobre a origem da grande bomba que se iniciou em minha cabeça, e das conseqüências que ela desencadeou na vida dos seres desgraçados que eu chamo de “pai” e “mãe”. Vou falar: não estão me coagindo ou aplicando alguma terapia de livro de psiquiatria alemã; falo por que quero e isso é o que vale aqui, tá?
Sem mistificações.
A “bomba”? Tá...
O que chamo de “bomba” é um pensamento. Este se originou na minha mente cedo, quando observei uma mariposa presa entre o vitrô da janela: tínhamos aquela janela que deslizava para cima e para baixo e era presa através de coisas que eu chamava de “borboletas”. Elas se pareciam com uma borboleta mesmo, e (confesso) estremeço ao pensar nelas... Minha mãe ficou com medo de uma mariposa que pousou no vidro da janela, e para afugentá-la decidiu subir a outra parte. Isso aprisionou a enorme mariposa entre dois vidros espessos do seu quarto.
Ficamos inertes. O desespero na minha alma era sufocante. Aquele pobre e enorme bicho mal batia as asas pela falta de espaço. Minha mãe tomou a decisão que ninguém gostaria de tomar:
-Vamos deixá-la assim. Com o tempo ela morre. Eu não agüento olhar mais para essa janela.
Ela se mudou para o meu quarto. Fechou o seu com tábuas e pregos enferrujados...
Eu tinha nove anos.
Sonhei com a criatura aprisionada... com as suas enormes asas fazendo uma esforço patético e descomunal; para (no máximo) tremular pelo esforço repetivo e convulsivo da tarefa e da dor envolvida: ali, só haveria a inexpressividade do animal asqueroso, preso numa tela viva e destinada a público nenhum para a sua morte. Até os assassinos em massa e estupradores tinham um público - ou a palavra de deus na hora do adeus dessa terra na hora derradeira. A mariposa e aquela força invisível: um músculo alienígena de sua constituição dantesca era imperceptível aos nossos olhos, à nossa era e espaço.
A mariposa permanecia lá. Morávamos num sobrado afastado de qualquer lugar ou bairro reconhecível; enfim, tudo era distante . Saía para brincar lá fora, e – de longe - avistava a mariposa presa entre os vidros no primeiro andar do nosso mausoléu afastado de tudo. Ela sofria, eu tinha certeza.
Eu sofria. Eu era a mariposa. Eu era a maldita mariposa.
Pensei em atirar uma pedra lá de baixo; quebraria o vidro e a maldita criatura flutuaria até o chão de escombros e imundícies, inerte pelo esforço repetitivo das duas enormes e escuras asas com desenhos de olhos e quimeras sombrias. Eu cuidaria dela.
Mas se atirasse a pedra no vidro, mamãe saberia que fui eu. Incontestável era a certeza e a angústia de não ser culpado ou merecedor de alguma dúvida da misericórdia humana. Não, não mesmo. Eu era a única criança naquelas redondezas, naquele bairro cheio de escombros e cartuchos de balas entre o concreto antigo, naquele reino que seria desbravado por mim.
A única criança na cidade.
Desse jeito, permanecendo assim, a mariposa sofreria mais. O calvário seria longo e árduo. Eu também. Não consegui mais sentar em volta do rádio e ouvir as aventuras de capa e espada, ou os casos macabros narrados nas novelas da capital. Nada. Nem um poema lido por Carmen através da estática me tirava daquele transe, do pensamento do terrível sofrimento excruciante da mariposa negra-cinza com olhos e quimeras em suas asas. Uma pedra não a salvaria de lá. Sinto muito.
Mamãe chegou. Trazia sacolas e sacolas com alfaces escuras, nabos duros como um fêmur, recortes de jornais antigos e outras coisas.
-Melhor comer, não é?!
Comemos.
Sempre era assim. Sentávamos no chão sob um tapete vermelho com um círculo dentro de outros círculos. Eu os contava desde que tinha consciência: eram 27 círculos dentro do círculo principal, todos em uma linha preta os delimitando. Esse número era tão forte que - de forma monomaníaca - coloquei na cabeça que seria a idade da minha morte: um círculo de cada ano. No meio de tudo aquilo, enfiei uma alface com bichinho na boca e apontei com o indicador o nono círculo do tapete rubro; aquele era o círculo atual. Eu viveria vinte e sete anos...
Mas..quantos segundos – minutos - anos viveria aquela maldita mariposa ?!
Eu era um pirralho, mal tinha nada no corpo, nada; mas pensava que apenas o sofrimento do viver era um tormento deveras insuportável para aquela mariposa aprisionada; diga-me, quantas crianças já pensaram nisso em uma vida?
...
Talvez muitas. Talvez. Mas ora se esquecem, ora lembram-se depois, aterrorizadas e adultas com um travesseiro molhado de suor na orelha: a consciência lá, tateando um teto escuro - como um morcego cego na noite - as lembranças daquele tempo imemorial, da infância terrível e adormecida. Despertando de um pesadelo entorpecido como um gigante no momento da clausura; e os adultos lembravam-se, lá, em algum momento ou sabá... “Lembrar” era um hábito ruim no mundo dos adultos.
No entanto, eu permaneci; pensamento infante envolto em nove círculos pretos feitos em um tecido preto sobre o vermelho; vinte e sete anos seriam o bastante para acabar com tudo isso e descansar: minhas asas desistiriam de fazer esforço, cessariam, romperiam com a pressa, e o descanso seria merecido. Justo.
Queimem o tapete, mas (chorando) deixem a pobre mariposa em paz!!!!!!!!!!!!
Eu gritava.
Por quem eu chamava?! Mamãe não me via chorando?! Eu era o único garoto da cidade, o único menino dos escombros, na única casa no país que tinha um rádio intacto depois dos aviões rasantes e imponentes: eu era o único homem nesse mundo do absurdo.
Comemos as alfaces. Mamãe foi ao banheiro: ela ficava lá por horas a fio, deitada no chão branco de azulejos quebrados lendo os jornais antigos que embrulhavam os vegetais. Ela me ensinou a ler, eu fazia o mesmo às vezes.
Andei na ponta dos pés. Coloquei a orelha na porta que guardava o santuário de morte mais odioso, o que não prezava a morte como passagem ritual e, sim, nada mais era que um símbolo para a criatura que tem o poder de voar como os homens queriam há anos; e esta (a portadora da dádiva incompreendida) era castigada pela barbárie do mundo dos adultos. Eu não ouvia nada. Queria ouvir aquelas enormes asas batendo no vidro, desenlaçando do abraço da morte na armadilha do vidro.
Bati na porta. Chutei. Nada. Mamãe não ouvia. Era a madrugada com a lua mais brilhante de todas. Um enorme olho ciclópico com uma íris alva no firmamento admirando um lugar sem vida.
Peguei um enorme baú que tinha quase o meu tamanho e o tirei do chão com a cólera contida do desespero e da morte; eu era o libertador da angústia, o que traria a Morte ou a Vida como conforto. No caso da minha amiga, eu não sabia mais.
A porta abriu. Mamãe gritou. Barulho.
A noite projetava uma luz enorme no vidro e as gigantescas asas eram sombras escuras e terríveis que preenchiam  quarto todo. Eu gritei, e elas não se mexiam; só ficavam ali, projetando a sombra mais fantasmagórica pela imensidão do sobrado semi-destruído.
Eu gritava, sangrava na alma. O horror era absurdo, aquelas enormes asas fazendo sombra no quarto mataram algo dentro de mim. Gritei, mas ninguém ouvia naquela cidade, naquelas redondezas. Mamãe me abraçou e olhou para a sombra enorme no quarto e gritou comigo, o arrepio do corpo dela, os pêlos eriçando e a loucura subseqüente que viria foi sentida no abraço dela. Mal ela conseguia testemunhar a visão ou proteger-me... Ou salvar a si mesma do horror.
Cai.
Ela também.
Desmaiamos.
O sonho foi um nada. Um vale de sombras entre uma cidade sem nada. Um nada no meio do nada. Um reino de coisas e casas destruídas pela ira do homem.
Eram as asas da mariposa que pousavam e projetavam a sua sombra sobre nossa existência, eram as asas que nos fazia adormecer.
Acordei com mamãe por cima de mim. Ela estava toda babada.
A mariposa não estava mais lá. 
Nada me ocorreu. Mas no fundo eu sabia que ela tinha se libertado com o barulho ensurdecedor de duas criaturas enlouquecidas por uma imagem inenarrável. “Ela se arrastara – pensei - caída por entre o quarto; a lua era branca e virginal, suas asas ganharam a força e ela deve ter feito o seu vôo trôpego pela madrugada”.
Mamãe acordou. Me viu em pé, levantou-se lentamente e me abraçou. Olhei para o seu rosto aterrorizado. Depois para os seus lábios.
Uma enorme asa negra, com olhos de quimeras, farfalejava violentamente para fugir de dentro da sua boca.

sábado, 31 de dezembro de 2011

fique até o fim


Paz. Paz para esses desgraçados que apagam cigarros nos próprios braços e aos colecionadores de milhares de cicatrizes; para esses pássaros doentes com asas quebradas que nos observam tristes entocados numa boca-de-lobo; e a todos os cachorros que bebem água da sarjeta e dormem no mato queimado da Raposo. Paz, mano. Paz. Paz para todos os que saem às cotoveladas em direção a um banco no trem, quebrando joelhos nas escadarias do metrô, apressados e ensandecidos com o éter; e que seja breve o sofrimento dos que vociferam e escrevem pensamentos com as unhas em muros que jamais serão lembrados. Paz praquela tia que fica gritando e arrancando os cabelos lá em frente de uma livraria perto da Catedral da Sé há muito tempo (paz para ela, ela merece acordar...). Para o pai que não vê mais o filho e submerge todas as noites dentro de um buraco na parede com o formato de uma boca; e às crianças lá no Terminal Bandeira que há anos atravessam os faróis sem se importar com os carros (molecada, cuidado). Para os que se deitam embaixo de camas velhas e olham - por horas - o estrado carcomido e sua estrutura precária corroída por vermes imemoriais, aos que dormem em lugares com cobertor de fuligem e poluição dessa funesta cidade; e para os que cometeram crimes inenarráveis e mal se recordam de nada no limbo das calçadas. Aos que trapaceiam nas cartas para pagar um aluguel. Paz para Fabiano, à Baleia e seus preás. Paz pro João e seu PS2. Paz para os que vagam pela cidade observando as pessoas e olhando no olho do outro; para os que mandam um playboy-parasita-filho-da-puta à merda; e às velhas prostitutas que seguem tentando despertar de um pesadelo envolvendo uma navalha afiada há muito tempo atrás.
Paz para os que falam sozinho.
Para esses malditos que insistem em existir.
Aí, paz para nós todos, mano.
Paz.
(hora de subir os créditos, trilha sonora, fique até o fim...)
The Card Cheat - London Calling - The Clash by The Clash on Grooveshark

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

constatações póstumas de um homem que jaz inerte numa vala clandestina na Raposo


Aos que necessitam do caos para sobreviver, eis algumas constatações póstumas de um homem que jaz inerte numa vala clandestina na Raposo:

-uma vez eu ousei (só uma vez...): tomei a liberdade de introduzir o meu membro intumescido – e ocioso - em orifícios quentes e privados, e desse atrevimento veio toda a minha desgraça: o ato consumado, logo tornou-se profano e dessa nova ordem cármica das coisas, eu ganhei sete balas alojadas na caixa torácica e vinte duas no crânio (com uma certa preferência nas têmporas...).

-o cheiro do mato à noite no Butantã é o mais agradável possível; se soubesse disso (antes de tudo), deitaria todas as noites aqui observando os ÓVNIS e os açoitadores de lobisomens que vagam por essa terra abençoada; na ausência do pedaço de carne, percebi o quanto esse lugar bucólico remete a uma pintura que vi certa vez numa exposição, mas só percebi o óbvio: era feia e não me agradava; aqui, o mato úmido no leito da morte – a surpresa do sistema nervoso a registrar o olfato em matizes exacerbados – fez-me o mais nobre mortal com a morte mais desonrada.

-senhores, há algo definitivamente de belo no pós-morte, mas me falaram que se eu disser tomo porrada...

-ah, não foi a melhor noite de sexo que tive na minha vida...

-é, as balas doem um pouco, não tem essa de que é “tudo tranqüilo”...

-a única testemunha foi o assassino (e uma cadela que lambia suas próprias feridas).

-tive uma vida boa, porém contraditória: aos que querem saber de algo mais, procurem no Km 15 uma pedra com uma inscrição “neguinho Z/O”, sigam até o Norte-doze-passos-tamanho-35 e virem à direita: eis o meu corpo, quieto, sereno e se decompondo. Levem uma pá.

-o segredo da vida é que, na verdade, tudo se resume a um fim... Não, isso todo mundo já sabe... já escreveram...o negócio, a parada...o baguio é qui...(sei lá, acho que começo a perder agora a capacidade de pensar no além-túmulo...)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

belmont em crise (I)

-Sr. Belmont?!
-Sim?
Água com gás. Tampinha de alumínio.
-Você não se importa em ser chamado de “senhor”, não é?!
-Não, que é isso!! Sou velho mesmo, já tenho barba e cabelo branco faz tempo. Até tenho alguns pelos do saco brancos (reparei outro dia, vida efêmera...); a idade em nada me desabona, pelo contrário: acho que até trepo melhor, respiro melhor, ma...
-Tudo bem, acho que o senhor já demonstrou o seu ponto de vista... Simplesmente não se importa com o tratamento. É só uma questão formal, respeitosa; nada muito complexo dadas as convenções...
-Desculpe, dizem que eu dou muitos detalhes desnecessários; “informação demais, Arthur” essas coisas...
- Muito bem, vamos direto ao tópico do nosso encontro? Seria prudente, pois já fui advertido a respeito da sua fama de grande tergiversador.
-Ok.
(sei lá que é isso...)
-O senhor tem feito pouco uso das ferramentas de comunicação ultimamente e co...
-Peraí! Que que você falou, mano?!
-Que tem feito pouco uso?! Qual parte, senhor? Quero dizer que tem usado pouco as ferr...
-Isso!
-“Ferramentas de comunicação”?
-Porra! Que que é isso?!
-Bem, e-mail, facebook, Orkut, blog: escrita. E existem outros tantos aparatos que re...
-Ãããhnnn...Fala português, tio!
-Bem, o senhor está começando a me constranger e acho que deveria demonstrar certo respeito perante a esse conselho que foi convocado...
Silêncio. 4 segundos.
-Afinal, o senhor não está numa posição muito confortável...
-Ãhan, desculpa.
-Dessa forma, responda, Sr. Belmont: qual o motivo?
-Do quê?!
-...
-Certo, certo... Sobre o motivo do meu afastamento da escrita, ferramentas... Bem, acho que eu não posso contar muito sobre isso, amigo. Isso explica um pouco do meu bloqueio também... Não, melhor não... Desculpe, seria meio “constrangedor” como você mesmo disse. Desculpaí.
-Acho melhor o senhor começar a fazer uso da sua defesa.
-Pode me garantir que não estamos sendo filmados? Ou que esse meu depoimento ficará em caráter estritamente confidencial.
-Sim, claro, Sr. Belmont.
-Gostou dessa?
-Perdão, não compreendi.
-“Estritamente confidencial”
-Sim, digamos que fez bom uso do vocabulário vernáculo, Sr. Belmont. Afinal, o senhor é um estudante com graduação em Letras e, às vezes, mal se porta como um.
-Como quem?
-... “como um estudante de Letras”?!
-Ah, me dizem isso! Toda hora! Digamos que essas pessoas que me criticam possuem uma “visão romântica e idealizada” da coisa toda, hehe! Manjou essa?!
-Não, senhor...
-Piadinha besta, fio. Esquece.
Silêncio. 7 segundos.
-Tá. Ok. Agora eu entendi. A língua é o meu tesouro, senhor! Portar-me-ei como um autêntico guardião!
-Sim! É isso que queremos, Sr. Belmont! Na verdade, encorajamos essas virtudes! Que faça uso das ferramentas e propague o seu conteúdo. Seja Patrício: escreva!
-Vixi... Aí...Nem, não posso mesmo...
-Então, qual o motivo? Não me pronunciarei sobre o assunto; aliás, garanto que o conselho ficará satisfeito com o que eu apresentar no relatório. Será estritamente profissional.
Olhar. Ressabiado.
-Me dá sua palavra?!
-Eu lhe asseguro com a minha própria honra, senhor.
-Nossa, isso é um grande alívio... Muito obrigado por me assegurar pela sua honra, filhote... Poxa, nunca me trataram assim. Nem mesmo a minha mãe me vê desse jeito...
Levanto. Deixo uma sacola plástica na mesa. Logo do Violeta.
-É para você. Este é o motivo do meu afastamento. Das “ferramentas”, escrita, essas paradas todas... Já assistiu “Zillion”?
Pega a sacola.
-Não. Deveria?!
-Nem. Você iria entender, só isso... Um abraço. Ah, e guarde o meu segredo, beleza?!
Passos. Corredor longo. Departamentos.
Longe.
Mais longe. Gritos. Resfolegando. Passos rápidos.
-(puf, puf) Sr. Belmont! (puf!) Muito obrigado! É um lindo suéter! Que ofício admirável!!!
-Br.. brigado...
Entreolham-se. Atraem muitos olhares.
-Porra, eu disse para você ficar quietinho, filhote...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

síndrome de barton fink

Acho que não consigo escrever mais nada, filha. É...
(Cena clássica do homem prostrado; isolado na beira da cama, destituído de todo o seu orgulho)
Caralho! Eu estou morrendo, sei disso, estou morrendo. Pecinhas de aeromodelismo não são mais coladas com tanta simetria, crimes sem solução me assolam e textos não saem da cabeça ou tampouco são escritos; é tipo uma manifestação da inspiração que permanece só na cabeça e não em sagradas poluções noturnas como o esperado. Não vira matéria, manja? Falta sono, falta umidade. Palavras, palavras não saem. É um indício, um dos sete selos, é a broxada da alma que me aflige - e me atinge - com uma puta impiedade irônica dos deuses embriagados, eu bem sei...
Outro dia peguei uma caneta e um papel, escrevi coisas que começavam e não terminavam. Normal, não?! Um amigo me disse “cê é assim, cara”, de um jeito debochado e redutor. Eu agradeci, meneei com a cabeça de um jeito particular, mas mandei tomar no cu logo na sequência, tipo nota mental. Persisti: “vamos lá, que tal um texto porreta sobre esses hipócritas-fodões-inatingíveis, hein? talvez seja isso o que preciso!”, talvez. E não escrevi: comecei no papel, tentei no Word, no guardanapo dos bares que aceitam vale-coxinha e, mesmo assim, não foi. Broxada, tô falando...
(Cadê aquela ajudinha solidária da humanidade?! Preciso daquela mãozinha companheira para me animar, sabe?! A “ajudinha”, filha; preciso disso agora. Estou constrangido, espero compreensão...)
Cadernos, cadernos, milhares de coisas e cá estou sem ter nada.
-Mas o que que é esse monte de coisas?
-O quê?
-Isso aqui. – ela apontava para as páginas garranchadas num caderno do South Park.
Isso aqui. Bem, “isso aqui” é um monte de palavras jogadas a esmo num oceano artificial.
-Mas aí... são palavras, né?
É...
Fiquei quieto e continuei escrevendo. Foi glorioso. 
A noite estava salva.